“Papa Francisco não gosta de simulacros”, Entrevista com Massimo Faggioli

Revista ihu on-line

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Ontologias Anarquistas. Um pensamento para além do cânone

Edição: 543

Leia mais

Mais Lidos

  • “Uma nova educação para uma nova economia”: Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, ministrará videoconferência nesta quinta-feira

    LER MAIS
  • O enorme triunfo dos ricos, ilustrado por novos dados impressionantes

    LER MAIS
  • Família Franciscana repudia lei sancionada por Bolsonaro que declara o dia 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis, como dia Nacional do Rodeio

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

10 Fevereiro 2015

Massimo Faggioli vive e ensina nos Estados Unidos. Na escolha e nos kits de identidade dos novos cardeais, se vê emergir “a eclesiologia das periferias que é um dos contributos mais significativos do Papa: é uma ideia teológica, espiritual, histórico-social que esta encontrando também uma expressão institucional – que, como se sabe, é a coisa mais difícil de todas na Igreja católica”.

A entrevista é de Vincenzo Corrado, publicada pelo Servizio de Informazione Religiosa -SIR, 09-02-2015.

Exercer o cargo de cardeal é uma vocação e um serviço de ajuda ao Papa e para o bem da Igreja, não um prêmio no ápice da carreira. É o que escreve o Papa Francisco na carta enviada aos 20 novos cardeais que serão criados no Consistório de 14 de fevereiro.

Na missiva do Pontífice, ressalta Massimo Faggioli, docente de história do cristianismo e diretor do “Instituto para o catolicismo e a cidadania” na Universidade de St. Thomas em Mineapolis/St. Paul (EUA) está explicitado “ainda mais o sentido não corporativo da instituição dos novos cardeais”. Dos Estados Unidos, onde vive e ensina, o historiador nos oferece uma leitura sobre as palavras e as escolhas do Papa.

Eis a entrevista.

Professor, na carta enviada aos novos cardeais parece emergir um kit de identidade dessa figura de acordo com o que convencionado pelo Papa Francisco.

Francisco deu claramente uma imagem pessoal ao seu Pontificado mas não no sentido centralizador: a forte personalidade do Papa, no início do Pontificado, falou de colegialidade e sinodalidade da Igreja. Verificou-se no Sínodo mas também no início da reforma da Cúria Romana. O cardinalato era descrito, até a idade média, como “parte do corpo do Papa”, mas aqui Francisco deixa ainda mais claro o sentido não corporativo da instituição do cardinalato que, é uma expressão da Igreja de Roma, mas que reflete na Igreja universal.

Papa Francisco parece modificar, de certa forma, o próprio conceito do cardinalato: absolutamente não é “um prêmio”, do contrário...

É uma redefinição que explica algo que sabia-se já fazer parte do papel: um serviço e não um prêmio. Mas os mecanismos de carreira existem também na Igreja e esse aspecto é o mais difícil de mudar, mesmo porque a Igreja têm a si mesma e é induzida pela opinião publica a respeitar padrões de forma mais expressiva do que qualquer outra organização global. O novo ‘speculum cardinalis’, o kit de identidade dos cardeais do Papa Francisco, assume nova luz, por um lado, frente aos escândalos dos últimos anos, de outro, frente às perseguições anticristãs em alguns países do mundo. Papa Francisco mostra que a Igreja aprende com a história, com os massacres vivenciados recentemente. Isso fala muito sobre a compreensão do relacionamento entre Igreja e história para o Papa Francisco.

Observando às origens dos novos cardeais não se pode ao certo dizer que o Papa tenha desconsiderado o critério de universalidade...

Aquilo que o Papa usa é um critério que leva em consideração a geografia eclesial mas também a pessoa. Nisso existe uma mensagem acerca de reorientar de forma geral a Igreja e da sua auto percepção que não é apenas territorial mas também, e acima de tudo, pessoal. Isso também é fruto de um lento mas nítido abandono, que inicia com o Vaticano II, de uma ideia imperial de Igreja no qual existem territórios a serem controlados. A Igreja deve ter também uma ideia geográfica, mas sem utilizar o critério de mensurar a si mesma.

Tonga, Cabo Verde, Myanmar, Agrigento... Pequenas comunidades eclesiais ou em situação de minoridade terão um cardeal, enquanto não existirão na América setentrional (EUA e Canadá) ou para os grandes centros. Também aqui temos a predileção pelas periferias com relação aos grandes centros.

A Igreja norte americana não tinha expectativas de novos cardeais neste Consistório, mas é um indicativo de que algumas pessoas o interpretaram como um sinal lançado à Igreja americana: é um indício da difícil recepção do Papa Francisco nos Estados Unidos – muito mais importante com vistas à viagem de setembro. Mas olhando além dos casos específicos a eclesiologia das periferias é um dos contributos mais significativos do Papa Francisco: é uma ideia teológica, espiritual, histórico-social que está encontrando também uma expressão institucional – que, como se sabe, é a coisa mais difícil de todas na Igreja católica.

Apenas um novo cardeal da Cúria Romana e algum vínculo com a tradição das “cadeiras cardinalícias”. Simples ruptura com as tradições históricas?

Uma ruptura com relação aos tempos recentes, mas um retorno a uma tradição mais normativa da dimensão universal da Igreja. Deste ponto de vista, os últimos séculos devem ser vistos como uma exceção e não como uma regra. Inicia-se um regime onde certos desequilíbrios a favor da Europa serão sanados. E com muito atraso.

Como muda, a esta altura, a geografia do Colégio cardinalício? E como mudam os relacionamentos entre as diversas Igrejas?

A geografia se direciona para o Sul e o Leste. Mas as mudanças nos relacionamentos entre Igrejas são descritos melhor pelas mutações das coordenadas históricas, mais do que aquelas geográficas. O baricentro se coloca das Igrejas europeias antigas e demograficamente enfraquecidas para Igrejas fora da Europa mais recentes e enérgicas. Falta enxergar o efeito desta mudança pra toda a Igreja – Igrejas novas e Igrejas antigas: para revigorar as Igrejas europeias não está dito que é preciso mais cardeais europeus, pelo contrário....

Todas essas considerações irão escrever uma nova página da história da Igreja ou levam a fatos já ocorridos no passado?

O que o Papa Francisco decidiu é uma mudança que havia sido iniciada timidamente há algumas décadas, mas ainda de modo mais simbólico que real. Papa Francisco não gosta de imagens vazias e está colocando conteúdo na sua eclesiologia.

Nota da IHU On-Line: Massimo Faggioli estará na Unisinos, nos dias 19 a 21 de maio, participando do Colóquio Internacional IHU “O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“Papa Francisco não gosta de simulacros”, Entrevista com Massimo Faggioli - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV