“Nos Estados Unidos é difícil entenderem o Papa porque não entendem o peronismo”

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Por: Jonas | 10 Fevereiro 2015

Setores conservadores e progressistas norte-americanos observam Francisco com atenção e dúvidas.

Gustavo Morello (foto) é sacerdote jesuíta, sociólogo da religião e doutor em ciência política pela Universidade de Buenos Aires. É autor de “Dónde estaba Dios. Católicos y terrorismo de Estado en la Argentina de los setenta” (2014). É professor do Departamento de Sociologia do Boston College, onde estuda os comportamentos religiosos dos imigrantes latinos, e membro da pastoral carcerária da Diocese de Boston.

 
Fonte: http://goo.gl/B1FQjJ  

A entrevista é de Marcelo Larraquy, publicada pelo jornal Clarín, 08-02-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Como foi recebida nos Estados Unidos a eleição de Bergoglio?

Surpreendeu. Não sabiam quem era. Os latinos, sim, festejaram sua nomeação, será alguém que “nos dará bola”. No entanto, os Estados Unidos não entendem o populismo e o peronismo. Para eles, o peronismo é a Madonna cantando “Evita” e é muito difícil entender Bergoglio sem o peronismo.

O que veem em Bergoglio, sem a tradução do peronismo?

Os progressistas de esquerda veem um pastor próximo das pessoas e não tanto um canonista. Os elitistas não gostam disto. O problema é que Bergoglio irá desiludir ambos. Os que estão felizes pela sua aproximação pastoral, esperam algo sobre a ordenação de mulheres. Pedem a ele coisas que não prometeu. Essa não é a sua agenda. Não é fácil legislar globalmente. Na Palestina não se entenderia um sacerdote mulher. No Paquistão as meninas não podem ir à escola. E quando se legisla de Roma, também se legisla para o Paquistão.

A comunhão para os divorciados em segunda união, que está na agenda de Bergoglio, causa controvérsia?

É uma discussão teórica. É algo que se ajeita com o padre por questões de consciência. Na prática já funciona assim. Não estou dizendo que os padres rifam a eucaristia, mas, muitas vezes, alguém se aproxima, fala de um matrimônio de fato, de anos de convivência e o padre, com discrição, como resposta pastoral, aceita. O Papa busca unificar critérios para que não fique como um acerto pessoal do padre. É a maneira de mostrar o rosto misericordioso da Igreja e de institucionalizar mudanças.

Essas mudanças começam a ser recomendadas na paróquia?

Antes, na Universidade Católica em Córdoba, pela cúria jesuíta nos chamaram à atenção por advogarmos por uma atitude mais misericordiosa com os divorciados. E isso com Francisco mudou. Não existe o ambiente de suspeita que existia antes. Às vezes, os bispos escrevem cartas para que o sacerdote leia na missa e o padre a expoõe no fundo da igreja para que seja lida por qualquer um que queira. A Igreja é muito menos vertical do que parece.

O episcopado norte-americano votou contra essas mudanças no Sínodo. Por quê?

São liberais: não entendem o manejo de uma corte renascentista como era o Papado até agora. Querem um governo mais ágil, otimizar a burocracia da cúria romana. No entanto, isso não significa que tenham uma agenda progressista. Muitos bispos conservadores ficaram sem interlocutores no Vaticano. Estão desconcertados, não sabem o que fazer. Há doadores da Igreja, relacionados ao Partido Republicano, que dizem que o Papa não entende o capitalismo.

O que se espera da viagem de Francisco aos Estados Unidos, em setembro?

Na programação da agenda se verá quem tem o poder de sussurrar ao ouvido do Papa. Caso vá à catedral de Nova York, será uma piscada para os conservadores. Entretanto, caso vá a uma paróquia do Harlem ou ao Arizona para presidir uma missa na fronteira com o México, será de grande impacto para os progressistas. (Nota da redação do jornal Clarín: Já se confirmou que falará no Congresso).

Qual é o lugar da religião nos Estados Unidos?

O catolicismo é a primeira minoria, seguido por ex-católicos, pentecostais, batistas... Há uma grande diversidade. Os pastores têm muitos cargos no Estado. Há uma separação de Igreja e Estado, mas nos Estados Unidos há uma enorme vinculação entre Igreja e política, mais do que estamos acostumados na Argentina.

O que está pesquisando?

Estudo como os imigrantes latinos, com autonomia da instituição, praticam a religião. É a chamada “religião vivida”. A Igreja continua sendo o lugar de refúgio, em busca de certa autoridade, mas o crente vai escolhendo as práticas religiosas que lhe diz mais. Trabalho sobre as bases do catolicismo. Acredito na fé das pessoas a pé. Isto não me faz acreditar que a periferia seja sempre progressista. Ajudo em uma prisão e, às vezes, os presos são conservadores. Os dominicanos, que há anos são marginalizados, são racistas com os haitianos. Não se deve idealizar a periferia porque se corre o risco de romantizar uma realidade humana que, como tal, é ambígua.

Em seu livro, disse que apesar das vítimas católicas da ditadura, a Igreja não se sentiu perseguida.

Para a instituição religiosa e para muitos leigos, os católicos que se comprometiam com algo – bairros, política, sindicatos – não eram reconhecidos como “autênticos” católicos, mas, sim, como “marginais”. Acreditavam que apenas um Estado católico poderia garantir uma sociedade católica. Era sua forma de enfrentar a modernidade e a secularização.

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