A Itália, Mattarella, o Quirinal e o mundo católico. Artigo de Agostino Giovagnoli

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03 Fevereiro 2015

O aparente distanciamento com que o mundo católico italiano acompanhou a eleição do novo presidente foi atribuído ao "efeito Francisco". Sem dúvida, por trás da crise atual da centro-direita, também há a novidade desse pontificado. Mas, se muitos bispos não saíram ao céu aberto, é também porque a Igreja italiana ainda está em uma fase de transição.

A análise é do historiador italiano Agostino Giovagnoli, professor da Università Cattolica del Sacro Cuore, em Milão, e diretor do Departamento de Ciências Históricas da mesma instituição. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 02-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um católico no Quirinal [residência oficial do presidente italiano], mas não é o retorno da Democracia Cristã. [Sergio] Mattarella, de fato, é um herdeiro, mais do que um protagonista da história democrata-cristã. O seu percurso, sem dúvida, teve fortes laços com as raízes familiares.

O pai, Bernardo, foi membro da Constituinte e várias vezes ministro, amigo de Giorgio La Pira e próximo de Aldo Moro. Mas Sergio Mattarella entrou na política somente em 1980, depois do assassinato do irmão Piersanti, e tornou-se deputado só em 1983, quando a Democracia Cristã caiu de 38% para 33% dos votos.

Em suma, ele não viveu na Democracia Cristã de De Gasperi e Dossetti, entrou na DC depois do declínio da "segunda geração" de Fanfani e de Moro, e começou a fazer política quando já tinha começado o declínio da República dos partidos.

A sua parábola política desenvolveu-se, toda, dentro da segunda metade da história republicana italiana (1980-2015), muito diferente da primeira (1946-1980). Aqui reside a chave da sua eleição.

Ao escolher o novo presidente da República, os grandes eleitores voltaram os holofotes para o esforço feito por um pequeno grupo de homens e de mulheres para conservar uma herança político-cultural importante. Nos anos 1980, Mattarella tentou reavivar a cultura política católico-democrática, enfrentando novos desafios, como o da máfia, e comprometendo-se com Roberto Ruffilli pelas reformas político-institucionais.

Quando acabou a Primeira República, ele não seguiu Leoluca Orlando, que, fundando a Rede, rompeu com essa tradição e, em 1993-1994, esteve ao lado de Martinazzoli na fundação do Partido Popular para relançá-la em novas formas.

Com uma coerência que hoje todos lhe reconhecem, ele defendeu, depois, o L'Ulivo [grupo político de centro-esquerda], militou na La Margherita [partido político reformista] e propôs um Partido Democrático de forte identidade ético-política, com o manifesto programático do qual foi um dos autores, junto com Pietro Scoppola.

Na Segunda República, Mattarella e os seus amigos tiveram um papel político menor. Mas os destroços produzidos pela conflitualidade bipolar daquela era reavaliam hoje a sua história, que também foi a história em que Renzi cresceu.

Acima de tudo, de fato, eles conservaram uma cultura política nos antípodas do bipolarismo selvagem. Mas não combateram tal bipolarismo com uma posição "terciária", que implicava, de fato, em um cedimento a Berlusconi. Mattarella entrou em choque várias vezes com Berlusconi, renunciando para não colocar a confiança na lei Mammì, criticando o ingresso da Forza Italia no PPE [Partido Popular Europeu].

Contestou a Berlusconi também a tentativa de se apossar de De Gasperi. A sua posição foi, acima de tudo, moral, contra o berlusconismo como deriva antropológica, antes do que opção política. Mattarella e os seus amigos pagaram por essa escolha com a hostilidade de um mundo eclesiástico cada vez mais permeado pelo berlusconismo.

Desde os anos 1980, Mattarella esteve entre os mais sensíveis a esses problemas: era ele o intermediário entre a Democracia Cristã e o episcopado italiano, enquanto explodia a ofensiva do Comunhão e Libertação contra a DC e em favor do PSI [Partido Socialista Italiano] de Craxi. Depois, encontrou no cardeal Silvestrini uma referência importante.

Hoje, a sua eleição se conecta a um laborioso processo de desberlusconização do catolicismo italiano, cujo início, em 2011, contribuiu para o nascimento do governo Monti. Também há isso por trás dos tormentos do Nuovo Centrodestra e da UDC [União dos Democratas Cristãos e de Centro] nestes hoje: a Area Popolare tentou de todos os modos não votar em um candidato cujo sucesso representa uma evidente negação do projeto de uma centro-direita sem Berlusconi, mas que gira em torno de católicos ex-berlusconianos.

O aparente distanciamento com que o mundo católico italiano acompanhou a eleição do novo presidente foi atribuído ao "efeito Francisco". Sem dúvida, por trás da crise atual da centro-direita, também há a novidade desse pontificado. Mas, se muitos bispos, que, embora apreciem o novo presidente, não saíram ao céu aberto, é também porque a Igreja italiana ainda está em uma fase de transição. Também nesse campo, por isso, a eleição de Sergio Mattarella representa um sinal positivo.

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