O cotidiano do extermínio nas cartas de Himmler

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30 Janeiro 2015

Ontem, na sala, por ocasião da Jornada da Memória, se pode ver ainda hoje o homem decente (no original Der Anständige) passado no ano passado na Berlinense numa lotadíssima projeção com aceso debate final. O tema, de resto, é daqueles super-quentes, visto que a regista, Vanessa Lapa, conta a história de Heinrich Himmler, o maior artífice da “solução final”, através de centenas de cartas, outros documentos e fotografias que o exército americano encontra em sua casa, em Gmund, na Alemanha, no final da guerra. Muitas são filmagens inéditas (retiradas de 53 arquivos em 13 países diversos), mas são principalmente as cartas escritas pela esposa, Marga, à filha, à amante (que era a irmã da mulher) para construir a trama da história. O ‘biopic’, que parece ser a tendência dominante neste ano nas telas, também no cinema narrativo, - pensamos no Turner de Mike Leik, em Initiation game ou em American Sniper, sem esquecer o Jovem fabuloso o Leopardo muito belo de Martone e, com sucesso de público, como se fosse vontade de histórias conhecidas e que, no entanto, podem também revelar algo desconhecido, o documentário é, sem mais, difuso desde sempre. Mas, em ambos os casos, visto que o fim é conhecido, o desafio está na regia, e principalmente naquele grau de leitura do tempo e de suas contradições e ambigüidades, que até se consegue fazer emergir.

A reportagem é de Cristina Piccino, publicada no jornal Il Manifesto, 28-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

“Dado que a narração se desenvolve em torno à constelação de Himmler e de sua família, - antes através dos parentes e dos irmãos, depois através da mulher, da filha e da amante – o público se torna testemunho do mundo produzido pela Primeira guerra mundial e pela República de Weimar, vistos inicialmente do ponto de vista de um alemão da classe media e depois pela visão de uma família nazista de alto nível”, diz Vanessa Lapa, também jornalista, que deixou a Bélgica onde nasceu para transferir-se a Israel. O que nos dizem, portanto, estas cartas, também aquelas permanecidas sem resposta, por exemplo, ao pai, que, quando Himmler começa a ter mais poder pede clemência para o filho de um amigo de família. Mas ele responde que não é possível porque ele pôs em perigo o País, e que não lhe faça mais tais solicitações? Falam-nos de um menino que sonhou com a guerra, era demasiado jovem para participar da Primeira, e de um menino que deseja uma nova para resgatar o desafio da guerra passada, como muitas partes da Alemanha, pelo menos nas classes média e bem situada da qual Himmler provinha.

Aos vinte anos se inscreve no partido nacional-socialista e participa do putsch de Munique, e sua ascensão será rápida. “Sejas sempre uma pessoa boa e gentil”, escreve à filha Gudrun. E, quando o extermínio dos judeus, mas também dos ROM e dos homossexuais é já uma trágica realidade, com a mulher que com ele compartilha do mesmo desprezo com os hebreus: “Apesar de todo o trabalho estou bem e durmo bem”, aludindo aos milhares de pessoas deportadas e mortas. Himmler continua a escrever-lhe, quando agora vê somente Hedwig a amante que poderá dar-lhe os filhos homens desejados, enquanto com a mulher terá somente uma filha mulher muito amada. “Vou a Auschwitz, beijos, teu Heini”, diz à mulher. E ainda sobre Dachau, que define como “uma empresa extraordinária”: “Temos visitado tudo. O horto, o moinho, as abelhas. Depois vimos os livros, do século dezesseis até hoje e quadros pintados por prisioneiros: “belíssimos”. Lapa coloca juntos os materiais de uma intimidade familiar com as imagens daqueles anos: o efeito é o de uma voragem, porque, como para o Eichmann de Arendt, durante o processo, e provavelmente para muitos outros, tudo aquilo era absolutamente ordinário. A ponto de poder falar disso numa linguagem normal, mesclando-o aos valores da família e à hipocrisia de uma relação oculta.

É neste “duplo registro”, algo de alucinante e terrível, que nos conduz, todavia, à essência da História. Algo que não se consegue definir e que, no entanto, aparece como atrozmente humano.

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