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24 Janeiro 2015

“Um silêncio que é um grito interior em busca de Deus: Por quê silenciaste Senhor?”. Papa Bento XVI

A reportagem é de Luis Badilla, publicada para o “Il Sismografo”, 22-01-2015.

Falaram sobre os horrores de Auschwitz-Birkenau:

- Auschwitz está além de nós, mas está a nossa volta, está no ar. A doença parou, mas a infecção tremula pelo ar: seria estupidez negar. Neste livro é descrito os sinais: o desconhecimento da solidariedade humana, a indiferença obtusa ou cínica para as dores dos outros, a abdicação do intelecto ou do senso moral frente ao princípio de autoridade e, principalmente, à raiz de tudo, uma maré de covardia, uma covardia abismal, mascarada por virtude guerreira, de amor patriota e de fidelidade a uma ideia (Primo Levi);

- Auschwitz inicia toda vez que alguém olha a um matadouro e pensa: são apenas animais (Theodor Adorno);

- Existe Auschwitz, portanto não pode existir Deus. Não encontro uma solução para este dilema. Procuro, mas não a encontro (Primo Levi);

- Depois de Auschwitz não é mais possível existir poesia (Theodor Adorno);

- Nâo porque não queria, mas porque não podia, Deus não interveio em Auschwitz. Mas não pode intervir porque no ato da criação do nada foi limitado, ainda mais, foi destituído do seu poder (Eberhard Jungel);

- Para quem viveu, Auschwitz não é um lugar, é uma sensação. O frio me atingia interiormente e me corroía. Estava sozinho comigo mesmo (Nedo Fiano);

- Jamais esquecerei tudo aquilo, mesmo se fosse condenado a viver tanto quanto o próprio Deus. Jamais. (Elie Wiesel).

Do discurso do Papa Bento XVI no Campo de Concentração de Auschwitz-Birknau (Polônia) em 28-05-2006:

“Tomar a palavra neste local de horrores, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem que não tem comparação na história, é quase impossível – e é particularmente difícil e opressor para um cristão, para um Papa nascido na Alemanha. Em um lugar como esse as palavras não fluem, no fundo permanece apenas um silêncio estarrecedor – um silêncio que é um grito interior para Deus: Por quê calastes, Senhor? Porquê pudestes tolerar isso tudo? É nesse silêncio que nos curvamos profundamente ao nosso íntimo frente a inumerável gama daqueles que sofreram e foram jogados à morte; esse silêncio, porém, se transforma em pedido, em alto e bom tom, de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que não permita que algo assim volte a acontecer.”

“O Papa João Paulo II estava aqui como filho do povo polonês. Eu hoje estou aqui como filho do povo alemão, e é por isso que devo e posso dizer como eles: Eu não poderia não vir aqui. Devo vir. Era e é um dever frente à verdade e ao direito de todos aqueles que sofreram, um dever perante Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão – filho daquele povo onde um grupo de criminosos alcançou o poder frente a promessas baseadas em mentiras, em nome de perspectivas de crescimento, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de melhoria de qualidade de vida e também com a força do terror e da intimidação, de forma que o nosso povo pudesse ser usado e abusado como instrumento da ânsia de destruição e de domínio. Sim, não podia não vir até aqui. No dia 7 de junho de 1979 eu estava aqui como Arcebispo de Munique/Frisinga em meio a todos os Bispos que acompanhavam o Papa, que o escutavam e rezavam com ele. Em 1980 voltei mais uma vez neste local de horrores com uma delegação de bispos alemães, chocado com as maldades e grato pelo fato de que sobre essa escuridão estava a estrela da reconciliação. Este ainda é o objetivo pelo qual me encontro aqui hoje: para implorar a graça da reconciliação – De Deus acima de tudo que, somente Ele, pode abrir e purificar os nossos corações; dos homes já que sofreram, e finalmente a graça da reconciliação para todos aqueles que, neste momento da nossa história, sofrem de uma forma nova sob o poder do ódio e sob a violência alimentada pelo ódio.”

“Quantas perguntas nos são impostas neste local! Todas as vezes vêm a dúvida: Onde esta Deus naqueles dias? Por quê Ele permaneceu em silêncio? Como pode ter tolerado esse abuso de destruição, esse triunfo do mal? Nos vêm em mente as palavras do Salmo 44, o lamento da sofrida Israel: “... Tu nos jogaste, esmagados, no lugar onde estão os chacais e nos deixaste envolver pelas sombras da morte (...) por Tua causa estamos em perigo de morte o dia inteiro; somos tratados como ovelhas que vão para o matadouro. Acorda, senhor! Por que estás dormindo? Levanta-te. Não nos rejeite para sempre. Por que Te escondes de nós? Por que esqueces dos nossos sofrimentos e das nossas aflições? Nós estamos abatidos, caídos no chão; estamos vencidos, jogados no pó. Levanta-te e vem ajudar-nos. Salva-nos pela tua misericórdia!” (Salmos 44, 20; 23-27). Este grito de angústia que Israel, em meio ao sofrimento, eleva a Deus em períodos de extrema magoa, está ao lado do grito de ajuda de todos aqueles que no curso da história – ontem, hoje e amanhã – sofrem por amor a Deus, por amor pela verdade e pelo bem; e são tantos, ainda hoje.”

“Nós não podemos questionar os segredos de Deus – vejamos somente os fragmentos e nos enganamos se queremos ser juízes de Deus e da história. Não defenderemos, neste caso, o homem, mas contribuiremos somente à sua destruição. Não – definitivamente devemos permanecer com humildade mas bradar insistentemente para Deus: Acorda! Não esqueça da tua criatura, o homem! E o nosso grito para Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetre no nosso próprio coração, para que acorde em nós a presença divina – para que o poder que Ele depositou em nossos corações não seja escondido e sufocado pelo lodo do egoísmo, pelo medo dos homens, pela indiferença e pelo oportunismo. Coloquemos este grito perante Deus, direcionemos ao nosso próprio coração, agora mesmo, no tempo presente, no qual se iniciam novas aventuras, no qual parece emergir novamente dos corações dos homens todas as forças obscuras: de um lado, o abuso do nome de Deus para justificar uma violência cega contra pessoas inocentes; de outro, o cinismo que não conhece Deus e que simula a fé no Senhor”.

“Nós gritamos perante Deus, para que desperte os homens ao arrependimento, assim que reconhecemos que a violência não cria a paz, somente suscita outra violência – um círculo de destruições onde todos, no final das contas, saem perdendo. O Deus, no qual cremos, é um Deus de razão – de uma razão, porém, que certamente não é um variável matemática neutra do universo, mas que é algo apenas com amor, com bondade. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que essa razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças vindas da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus”.

“O local onde nos encontramos é um local de memória, um local de Shoa. O passado não é apenas passado. Isso recai sobre nós e nos indica as vias a não serem escolhidas e as que devem ser escolhidas. Como João Paulo II percorreu o caminho ao longo de lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste local: são lápides em bielorrusso, checo, alemão, francês, grego, judeu, croata, italiano, ídiche, húngaro, holandês, norueguês, polonês, russo, ciganos, romenos, eslovacos, sérvios, ucranianos, hispânicos, ingleses. Todas essas lápides comemorativas falam da dor humana, nos deixam imaginar o cinismo daquele poder que tratava os homens como um material, não os reconhecendo como pessoas, nas quais reflete a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Existe aquela em hebraico. Os poderosos do Terceiro Reinado queriam exterminar totalmente o povo judeu; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Agora as palavras do Salmo: “Estamos em perigo de morte o dia inteiro; somos tratados como ovelhas que vão para o matadouro” foram verificadas terrivelmente. No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, queriam matar o Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios para orientação da humanidade e que serão válidos eternamente. Se esse povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o toma com responsabilidade, então aquele Deus deveria finalmente ser morto e o domínio pertencer somente ao homem – àqueles mesmos que se intitulavam os fortes e que são capazes de dominar o mundo”.

“Com a destruição de Israel, com a Shoah, queriam, no final das contas, destruir também as raízes onde está fundamentada a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita de si mesmos, a fé no domínio do homem, do forte. Existe também a lápide em idioma polonês: Numa primeira frase e antes de mais nada se queria eliminar a elite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autônomo para abaixá-lo, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Uma outra lápida, que convida particularmente à reflexão, é aquela escrita no idioma dos ciganos (Sinti e Rom). Também aqui se quis fazer desaparece um povo que vive migrando em meio a outros povos. Isso seria contado entre os elementos inúteis da história universal, em uma ideologia na qual deveria ser contado somente o útil mensurável; todo o restante, segundo os seus conceitos, viria classificado como lebensunwertes Leben – uma vida indigna de ser vivida. Existe também a lápide em russo que evoca o imenso número de vidas sacrificadas entre os soldados russos na batalha com o regime do terror nacional-socialista; ao mesmo tempo, porém, nos faz refletir sobre um trágico duplo sentido da sua missão: liberaram os povos de uma ditadura mas submetendo os mesmos povos a uma nova ditadura, aquela de Stálin e da ideologia comunista”.

“Os alemães, que então eram levados a Auschwitz-Borkenau e aqui foram mortos, eram vistos como Abschaum der Nation – como o rejeito da nação. Hoje, porém, os reconhecemos com gratidão como testemunhas da verdade e da bondade, que mesmo no nosso povo não se havia percebido. Agradecemos essas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão a nossa frente como luzes numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão nos inclinamos perante todos aqueles que, como os três jovens frente a ameaça da fornalha babilônica, souberam responder: ‘Somente o nosso Deus pode nos salvar. Mas mesmo se não nos libertar saiba o rei que nós não serviremos jamais os teus deuses e não adoraremos a estátua de ouro que ergueste’ (Dan 3, 17).”

“Graças a Deus, com a purificação da memória, a qual nos remete a este local de horror, crescem em torno disso múltiplas iniciativas que desejam colocar limite ao mal e dar força ao bem. Há pouco pude bendizer o Centro para o Diálogo e a Oração. Nos arredores se desenvolve a vida escondida das irmãs carmelitas que, particularmente, se uniram ao mistério da cruz de Cristo e recordam a nós a fé dos cristãos, que afirma que o próprio Deus desceu ao inferno do sofrimento e sofre junto a nós. Em Oswiecim existe o Centro de São Maximiliano e o Centro Internacional de Formação sobre Auschwitz e o Holocausto. Existe também a Casa Internacional para os Encontros da Juventude. Junto a uma das velhas Casas de Oração existe o Centro Judeu. Finalmente se está construindo a Academia para os Direitos do Homem. Assim podemos esperar que o local de horrores desapareça e cresça uma reflexão construtiva e que as lembranças ajudem a resistir ao mal e a fazer triunfar o amor”.

“A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um “vale escuro”. Com isso quero, exatamente neste local, concluir com uma oração de fé – com um Salmo de Israel que, unido, é uma oração cristã: ‘O Senhor é o meu pastor: nada me faltará. Ele me faz descansar em pastos verdes e me leva a águas tranquilas. O Senhor renova as minhas forças e me guia por caminhos certos, como Ele mesmo prometeu. Ainda que eu ande por um vale escuro como a morte, não terei medo de nada. Pois Tu, ó Senhor Deus, estás comigo; Tu me proteges e me diriges. (...) E na tua casa, ó Senhor, habitarei todos os dias da minha vida’. (Sal 23, 1-4. 6)”.

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