Após Charlie Hebdo, papa diz que liberdade de expressão tem limites

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16 Janeiro 2015

Ao fazer alusão ao ataque à revista francesa Charlie Hebdo que matou 12 pessoas em represália por publicações satíricas de Maomé, o Papa Francisco condenou a violência, mas também disse haver limites para a liberdade de expressão – especialmente quando envolve religião.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 15-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em particular, disse o papa, não devemos abusar da liberdade de expressão para “provocar” ou “ofender” os outros deliberadamente, e também não devemos nos surpreender quando se reage a tais provocações.
Até mesmo no caso de um amigo querido, disse Papa Francisco, “se ele xingar a minha mãe, pode esperar que levará um soco. É normal”.

“As pessoas que se divertem, que zombam da religião das outras pessoas”, falou, correm o risco de “cair naquilo que iria acontecer [ao meu amigo] caso ele tivesse dito algo contra a minha mãe”.

Durante a coletiva de imprensa a bordo de seu avião que o levava às Filipinas nesta quinta-feira, Francisco também disse:

• que planeja finalizar a sua muito esperada encíclica sobre o meio ambiente em março, com o documento sendo provavelmente publicado em junho ou julho. Ele também pareceu concordar que as mudanças climáticas são efeitos da ação do homem;

• que reconhece os riscos para com sua segurança pessoal, seja por causa do terrorismo ou por causa da agitação das multidões, mas que também conta com uma “dose saudável de esquecimento” sobre o assunto;
• sobre sua viagem aos EUA em setembro, disse que planeja canonizar Junípero Serra, missionário franciscano espanhol que ajudou a plantar a Igreja no litoral oeste americano;

• e defendeu a sua decisão de fazer uma visita surpresa a um templo budista na quarta-feira no Sri Lanka, dizendo que se trata de um sinal de que a Igreja Católica “cresceu muito” em termos de respeito para com as demais religiões.

A Charlie Hebdo, revista francesa em que 12 pessoas foram mortas num ataque terrorista, foi lembrada por publicar conteúdo que ridicularizava Maomé, fundador do Islã, inclusive publicando ocasionalmente charges dele em posições pornográficas.

Logo após os ataques, Francisco denunciou-os como “abomináveis”.

Na quinta-feira, um jornalista francês perguntou a Francisco sobre como equilibrar a liberdade religiosa contra a liberdade de expressão, e ele imediatamente relacionou a sua resposta aos ataques contra a revista francesa.

“Você é francês, então vamos falar sobre Paris, vamos falar claramente”, disse.

“Não se pode fazer guerra [ou] matar em nome da religião que se tem, isto é, em nome de Deus”, disse Francisco. “Matar em nome de Deus é uma aberração”.

Dito isso, Francisco também insistiu que a liberdade de expressão não implica uma licença total para insultar ou ofender a crença alheia.

“Não se pode provocar, não se pode insultar a religião das pessoas, não se pode fazer graça da fé”, disse o pontífice em italiano.

“Toda religião tem a sua dignidade (...) e eu não posso fazer piadas delas”, acrescentou. “Na liberdade de expressão há limites, como aquele em relação à minha mãe”.

Em resumo, o papa pareceu estar dizendo que, embora nada justifique o tipo de violência testemunhada nos ataques em Paris, não se pode pensar que “vale tudo” em termos de como representar a religião no espaço público.

Nos círculos católicos americanos, as palavras do papa podem ser interpretadas à luz de uma recente polêmica envolvendo William Donohue, presidente da ONG Catholic League, grupo que monitora preconceitos contra os católicos nos Estados Unidos.

No dia 7 de janeiro, Donohue publicou uma nota afirmando que “matar em resposta a um insulto, não importa o grau dele, deve ser inequivocamente condenado”, mas que, ao mesmo tempo, os muçulmanos tinham o direito de ficar furiosos por estarem sendo “intencionalmente insultados” pela revista.

O texto desencadeou uma onda de crítica, e gerou um debate acerca de qual seria a reação adequada para as representações satíricas, ou críticas, de figuras religiosas.

Mudança climática

Sobre as mudanças no clima, perguntou-se ao papa se ele acredita que elas são, em grande parte, um resultado da atividade humana.

“Não sei se 100%, mas que, em grande parte, é o homem quem continuamente maltrata a natureza ao seu redor”, disse o papa. “Exploramos demais a natureza. Graças a Deus que hoje temos muitas pessoas falando sobre isso”.

Esta será a primeira vez que um papa dedica um documento tão importante a respeito do assunto: meio ambiente. Segundo Francisco, ele tem em mãos um terceiro esboço da encíclica e planeja tirar uma semana no mês de março para finalizá-la.

Depois disso, segundo ele, o texto terá de ser traduzido para os principais idiomas usados pelo Vaticano, e deverá estar pronto para publicação em junho ou julho.

O pontífice deu a entender que deseja que a encíclica esteja pronta em tempo de influenciar a cúpula global sobre as mudanças climáticas a se reunir em Paris no mês de dezembro, depois que a última rodada de discussões no Peru não conseguiu chegar a um acordo.

“Os encontros no Peru foram muito produtivos; eu fiquei decepcionado”, disse. “Houve uma falta de coragem. Eles pararam a certa altura. Esperamos que, em Paris, os representantes tenham mais coragem para avançar”.

O objetivo final das negociações sobre o clima da ONU é estabilizar a emissão de gases de efeito estufa a um nível que mantenha o aquecimento abaixo dos 2 graus célsius, comparado com a era pré-industrial.

As negociações, a acontecer de 30 de novembro a 11 de dezembro em Paris, irão se centrar em dois pontos-chave: como dividir a responsabilidade pelo aquecimento global e como pagar para combatê-lo.

O mundo desenvolvido usa combustíveis fósseis para construir estradas, cidades e casas; as economias emergentes querem ter as mesmas chances para crescer o mais rápido possível. Enquanto isso, nos países insulares e de baixa altitude a preocupação é que o aumento do nível do mar vá inundá-los; dizem que precisam de dinheiro para se adequarem à nova realidade.

Francisco também lamentou o desflorestamento, a erosão do solo e outros males ambientais, dizendo que ele, certa vez, fez parte de uma apelação ao Supremo Tribunal argentino que tentou conter a destruição de uma floresta.

Segurança

Quando à questão da segurança, o papa foi perguntado se ele já pensou que os fiéis comuns que vão aos seus eventos podem estar em risco, seja por causa de um ataque terrorista ou pelo simples entusiasmo da multidão.

O pontífice disse: “Eu me preocupo com isso, de verdade”.

“Falei com as pessoas da segurança no Vaticano, aquelas que são responsáveis por isso”, informou o papa, dizendo que “elas se preocupam com isso todos os dias”.

Contudo, quando se trata de sua própria segurança, Francisco disse que sempre teve uma “dose saudável de esquecimento” a respeito. O seu objetivo, afirmou, é ser “prudente mas confiante”.

Canonização de um santo estadunidense

A revelação do papa de que pretende canonizar Junípero Serra veio antes mesmo de que lhe fizessem a pergunta. No começo de sua entrevista (aproximadamente 50 minutos) à imprensa, Francisco pediu o microfone para dizer algo sobre a canonização de quarta-feira no Sri Lanka do Pe. José Vaz, missionário que trabalhou neste país asiático durante um período de perseguição sob o domínio de colonizadores calvinistas holandeses.

Ele parecia estar respondendo a perguntas levantadas anteriormente quanto aos motivos pelos quais Vaz foi outro caso em que se deixou de lado a exigência usual de um segundo milagre antes de declarar alguém santo.

O pontífice disse que decidiu adotar esta prática para uma série de novos santos que foram grandes missionários em várias partes do mundo, revelando que o próximo caso vai ser o do Pe. Serra, em setembro.

Padre franciscano do século XVIII nascido na Espanha, Serra é considerado figura importante no estabelecimento da presença tanto espanhola quanto católica no estado da Califórnia. Ele chegou aos EUA primeiramente vindo do México em 1769, e em 13 anos criou nove missões que serviram como base para o desenvolvimento posterior do catolicismo no oeste dos EUA.

Ainda que o papa não tenha dito, alguns dos observadores poderão interpretar este anúncio como um indício de que Francisco esteja seriamente pensando em parar na fronteira entre o EUA e o México durante a sua excursão americana em setembro.

As outras três possíveis paradas – Filadélfia, Washington e Nova York – ficam no outro lado do país (no litoral leste) e provavelmente não seriam vistos como os cenários ideais para se declarar santo alguém cujo trabalho missionário se deu em lugar tão distante.

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