A saga Burke e a oposição a Francisco em contexto

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13 Janeiro 2015

Na linguagem do mundo dos negócios jornalísticos, o cardeal Raymond Burke é sempre "uma cópia boa". A expressão quer dizer que as pessoas podem amar ou odiar o que ele tem a dizer, mas ele nunca deixa de agitar as coisas.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio Crux, 11-01-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Burke tem uma longa história de ser considerado um herói para os campos politicamente conservadores e liturgicamente tradicionais da Igreja Católica. Em outubro passado, ele emergiu como um líder da facção conservadora no Sínodo dos bispos sobre a família, tendo uma postura firme contra a ideia de permitir que os católicos divorciados e recasados civilmente possam receber a Comunhão.

Esse prelado norte-americano de 66 anos de idade esteve em alta de novo, recentemente, ao fazer comentários para uma pastoral para homens, dizendo que a Igreja Católica tornou-se excessivamente "feminizada" e culpou os declínios nas vocações sacerdotais ao crescente uso de moças coroinhas.

Alguns observadores se perguntam se a franqueza de Burke significa que Francisco calculou mal, em novembro, quando tirou Burke de sua posição como chefe da Suprema Corte do Vaticano e deu a ele um papel em grande parte cerimonial como patrono da Soberana Ordem Militar de Malta.

De acordo com o ditado "mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto", Francisco pode ter errado ao liberar Burke para se tornar um espinho ainda maior no seu lado.

Percebe-se a lógica, mas, francamente, há poucas evidências de que, deixá-lo onde ele estava teria feito muita diferença. Não é como se Burke tivesse um histórico de amordaçar-se por causa de seu cargo.

A nomeação para o cargo no Vaticano por Bento XVI em 2008, por exemplo, não impediu Burke de chamar os democratas dos Estados Unidos de o "partido da morte". Também não o deteve, em 2009, de afirmar que nenhum católico em boa consciência poderia ter votado em Obama, ou de insistir, em 2013, que os padres irlandeses deveriam negar a Comunhão a qualquer político que apoiasse a liberalização do acesso ao aborto.

A verdade é que uma das coisas mais difíceis de fazer na Igreja Católica, mesmo o papa, é fazer com que um cardeal permaneça calado.

Além disso, a transição de Burke pode, pelo menos, contribuir para um pouco de clareza.

Ao longo dos anos, tem sido comum as manchetes dos jornais afirmarem que "o Vaticano diz X" toda vez que Burke fala publicamente, simplesmente porque ele era um empregado do Vaticano - mesmo que ele não estivesse falando a título oficial, e mesmo quando seus comentários, muitas vezes, não refletiam o sentimento da maioria em Roma.

Em defesa de Burke, ele normalmente esclarecia depois o fato de que ele não estava falando em nome do Vaticano, mas simplesmente como um bispo individual, mas isso nunca fez muita diferença para alterar a narrativa depois que ela já tinha sido definida.

Agora, provavelmente, o título será "Burke diz X".

Apenas para constar, Francisco e Burke tiveram uma reunião na quinta-feira, descrita pelo Vaticano como uma sessão de rotina quando um cardeal recebe um novo emprego, e que esse encontro estava no calendário bem antes da entrevista mais recente de Burke.

Talvez sim, mas eu suspeito que muita gente pagaria em dinheiro para ser uma mosca na parede da sala.

O contexto da oposição a Francisco

A saga Burke deixou alguns observadores se perguntando se a oposição interna que Francisco enfrenta é sem precedentes, especialmente nos níveis superiores da Igreja.

Para começar, vamos deixar bem claro: de acordo com a tradição, Francisco é o papa de número 266 da Igreja Católica, e ele também é o 266o a ter problemas com alguns de seus bispos. A história remonta aos Atos dos Apóstolos e a um célebre confronto entre Pedro e Paulo.

Mais recentemente, tanto o papa João Paulo II quanto Bento XVI enfrentou enorme oposição interna, tanto de setores de base quanto da hierarquia. Há 1,2 bilhão de católicos no mundo e mais de 5.000 bispos, e pensar que em algum momento alguma quota de ambos não vai estar infeliz com o seu líder é uma ilusão.

Em suma, a noção de que há alguma coisa terrivelmente nova sobre o que estamos vendo hoje é, para todos os efeitos, tolice.

Durante os anos de João Paulo II, havia um eixo de prelados de uma linha moderada a liberal que rotineiramente ia em uma direção diferente do pontífice, incluindo Carlo Maria Martini, de Milão; Godfried Danneels, de Bruxelas; Basil Hume, de Westminster; Karl Lehmann e Walter Kasper, da Alemanha; Joseph Bernardin, de Chicago; Roger Mahony, de Los Angeles; e Paulo Arns e Aloísio Lorscheider, do Brasil.

Todos aqueles homens eram ou, eventualmente, tornaram-se cardeais.

Durante um sínodo de bispos em 1985, Danneels, abordou a questão da colegialidade, ou seja, a partilha do poder e a descentralização, insistindo que ela "deveria ser entendida de uma forma mais profunda e posta em prática de uma forma mais completa". Isso foi visto como um criticismo ao papa, assim como os comentários de Burke em outubro passado.

Em 2000, quando João Paulo II emitiu o documento Dominus Iesus sobre a relação da Igreja com as outras religiões, contendo a frase de que os não-cristãos estão em uma posição "gravemente deficitária" com relação à salvação, Lehmann opôs-se em voz alta afirmando que isso rompia com o "estilo" dos documentos do Concílio Vaticano II.

(Como nota de rodapé, Dominus Iesus foi preparado pelo futuro Papa Bento XVI, que era então o chefe do escritório doutrinal do Vaticano.)

Às vezes, até mesmo reclamações em massa chegavam dos bispos. Durante o sínodo de 1998, os prelados asiáticos em bloco queixaram-se de que havia um excesso de concentração de poder em Roma, não permitindo-lhes uma flexibilidade suficiente para adaptar a fé às culturas asiáticas, e também uma incompreensão básica do Vaticano da sua situação.

Em outros níveis, João Paulo também enfrentou duro criticismo.

A "Declaração de Colônia", de 1989, assinada por 163 teólogos católicos de todo o mundo, reclamava de um "novo centralismo romano" e rejeitou o que chamou de interferência "intolerável" e "formas questionáveis de controle" no debate teológico.

Para dar outro exemplo, quando João Paulo II visitou a liberal Holanda em 1985, ele atraiu multidões tépidas em alguns lugares e manifestantes irritados em outros. Como escreveu um comentarista na época, "Nunca as ruas estiveram tão vazias e os atiradores de pedras tão próximos".

Quanto a Bento XVI, sem dúvida nenhum outro papa no século passado enfrentou uma oposição interna tão intensa, tanto na parte superior quanto na parte inferior da Igreja.

Por exemplo, a repercussão contra a aproximação de Bento XVI ao movimento lefebvriano tradicionalista e a liberalização da permissão para a missa em latim mostrou-se tão intensa que, em 2009, uma coalizão de católicos franceses lançou uma petição on-line em defesa do pontífice em apuros.

Cerca de 38.000 pessoas assinaram, mas era difícil de não perceber que apenas três dos quase 200 bispos católicos da França se juntaram a elas.

Pouco antes de morrer, em 2012, Martini, o cardeal liberal de Milão, deu uma entrevista a um colega jesuíta na qual ele disse que a Igreja Católica "retrocedeu 200 anos", uma frase amplamente vista como um tiro em Bento.

Quando Bento viajou para o Reino Unido em 2010, a viagem de forma geral foi um sucesso, mas uma manifestação anti-papal no centro de Londres, no entanto, atraiu 10 mil pessoas, o maior protesto de rua contra um papa na história moderna.

Tão grande era a agitação durante os anos de Bento XVI que dois respeitados jornalistas italianos, em 2010, publicaram um livro chamado "Attack on Ratzinger" [Ataque a Ratzinger] narrando toda uma série de episódios que incluíam protestos, queixas e controvérsias.

Não foi somente a reputação de Bento com o seu conservadorismo teológico e político que gerou oposição.

Durante esses anos, o jogo de salão favorito entre os observadores do Vaticano era tentar descobrir qual dos príncipes da Igreja estava se esforçando para sabotar o pontífice, já que os cardeais sentiam-se ameaçados pelos apelos do papa a uma "purificação" e pela sua campanha anti-corrupção nas finanças do Vaticano.

Depois de Bento renunciar em fevereiro de 2013, o cardeal Christoph Schönborn, de Viena, um protegido do pontífice, disse a seus colegas cardeais, durante uma reunião antes do conclave para eleger o sucessor, que eles deveriam fazer um exame de consciência para ver se não tinham falhado ao não apoiar Bento quando ele mais precisava deles.

Dois pontos finais

Pode ser tentador dizer que o que há de novo sobre a oposição de Francisco é que ela está vindo da direita em vez da esquerda. Tentador é, mas está errado.

Primeiramente, tanto João Paulo II quanto Bento tiveram críticos à direita, também, assim como há alguns na esquerda que resistem ao charme de Francisco. Além disso, a última vez que o catolicismo teve um papa, basicamente, de centro-esquerda, foi em 1960 e 1970 com Paulo VI e ele também enfrentou grave reação da direita.

Por exemplo, quando o Papa Paulo aprovou uma forma mais moderna da missa usando línguas nacionais em vez do latim, em 1969, um de seus próprios cardeais, um influente veterano do Vaticano, escreveu uma longa carta ao pontífice, basicamente, acusando-o de heresia.

Como falou uma vez, memoravelmente, o cardeal Francis George, de Chicago, na Igreja Católica, tudo já aconteceu pelo menos uma vez.

Quanto à forma como Francisco pode lidar com essa resistência, suspeita-se que não será significativamente diferente de como a maioria dos outros papas fizeram, com variados graus de sucesso. A estratégia se resume a ignorá-la em sua maior parte, e, de vez em quando, quebrar uma ou duas cabeças para lembrar as pessoas de quem está no comando.

Quanto a isso, é só pedir ao cardeal Raymond Burke.

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