''O terrorismo fundamentalista rejeita Deus'', afirma Francisco

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13 Janeiro 2015

O terrorismo fundamentalista "rejeita a Deus mesmo". E, diante das implicações "arrepiantes" para a propagação do terrorismo, "espero que os líderes religiosos, políticos e intelectuais, especialmente muçulmanos, condenem qualquer interpretação fundamentalista e extremista da religião" que justifica a violência. Foi isso que Francisco disse na manhã dessa segunda-feira, ao receber o corpo diplomático credenciado junto à Santa Sé, no tradicional encontro de início de ano, ocasião para que o papa apresente um olhar sobre a situação do mundo.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 12-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Lembrando os relatos da natividade, o papa disse que, desde o início, o Menino Jesus foi descartado, deixado do lado de fora, no frio. "E se assim foi tratado o Filho de Deus, quanto mais o são tantos de nossos irmãos e irmãs." O emblema dessa atitude é o rei Herodes, que faz matar todas as crianças de Belém: o pensamentos logo se volta para o Paquistão, onde há um mês mais de 100 crianças foram trucidadas com ferocidade inaudita", disse Francisco, assegurando sua proximidade às famílias das vítimas.

À cultura que "rejeita o outro" e gera "violência e morte", o pontífice associa os "numerosos factos referidos nas notícias cotidianas, como o trágico massacre que ocorreu em Paris há alguns dias". Os outros "são vistos como objetos", e "o ser humano, de livre que era, torna-se escravo das modas, do poder, do dinheiro e por vezes até mesmo de formas equivocadas de religião".

Falando das consequências dessa mentalidade, Francisco fala de uma "guerra mundial combatida por pedaços", que acontece em várias partes do planeta, "a começar pela vizinha Ucrânia, que se tornou um dramático teatro de confronto e para a qual almejo que, através do diálogo, se consolidem os esforços em ato para fazer cessar as hostilidades e que as partes envolvidas empreendam o mais rapidamente possível, num renovado espírito de respeito pela legalidade internacional, um sincero caminho feito de confiança mútua e reconciliação fraterna"

Francisco fala, depois, do Oriente Médio, cita a intensidade do encontro no Vaticano com Peres e Abbas, deseja que cessem as violências e que se chegue a "a uma solução que permita tanto ao povo palestino como ao povo israelense viver finalmente em paz, dentro de fronteiras claramente estabelecidas e reconhecidas internacionalmente, tornando-se real a 'solução de dois Estados'".

Então lembra os outros conflitos na região, "cujas implicações são espaventosas, nomeadamente pelo alastramento do terrorismo de matriz fundamentalista na Síria e no Iraque. Este fenômeno é consequência da cultura do descarte aplicada a Deus. Na verdade, o fundamentalismo religioso, ainda antes de descartar os seres humanos perpetrando horrendos massacres, rejeita o próprio Deus, relegando-O a mero pretexto ideológico".

"Diante dessa injusta agressão – acrescenta –, que atinge os próprios cristãos e outros grupos étnicos e religiosos da região, é preciso uma resposta unânime que, no quadro do direito internacional, detenha o alastrar das violências, restabeleça a concórdia e cure as feridas profundas provocadas pelos sucessivos conflitos. Por isso, daqui faço apelo à comunidade internacional inteira, bem como aos vários governos interessados para que assumam iniciativas concretas pela paz e em defesa daqueles que sofrem as consequências da guerra e da perseguição, e são forçados a deixar as suas casas e a própria pátria." Um Oriente Médio sem cristãos, observa, "seria um Oriente Médio desfigurado e mutilado".

O papa convida os islâmicos a levantarem a voz contra as violências: "Ao instar a comunidade internacional a não ser indiferente diante dessa situação, espero que os líderes religiosos, políticos e intelectuais, especialmente muçulmanos, condenem qualquer interpretação fundamentalista e extremista da religião, voltada a justificar tais atos de violência".

Francisco recorda as vítimas entre as crianças e cita a Nigéria, "onde não cessam as violências que atingem indiscriminadamente a população, verificando-se um crescimento contínuo do trágico fenômeno do sequestro de pessoas", muitas vezes de "jovens raptadas para serem objeto de comercialização", um "comércio execrável, que não pode continuar".

Depois, o papa olha, "com apreensão, os numerosos conflitos de carácter civil que afetam outras partes da África, a começar pela Líbia, dilacerada por uma longa guerra interna que causa sofrimentos indescritíveis entre a população e tem graves repercussões sobre os delicados equilíbrios da região". Ele cita "a dramática situação na República Centro-Africana" e a do "Sudão do Sul e em algumas regiões do Sudão, do Chifre da África e da República Democrática do Congo, onde não cessa de crescer o número de vítimas entre a população civil e milhares de pessoas". Também neste caso, Francisco pede o compromisso dos governos e da comunidade internacional.

O papa fala, depois, do '' horrendo crime que é o estupro" e que se acompanha das guerras. "É uma ofensa gravíssima à dignidade da mulher, que é violada não só na intimidade do seu corpo, mas também na sua alma, com um trauma que dificilmente poderá ser apagado, e cujas consequências são também de carácter social. Infelizmente, mesmo onde não há guerra, verifica-se que muitas mulheres são ainda hoje vítimas de violência."

Francisco recorda ainda que, "entre os leprosos do nosso tempo, temos as vítimas desta nova e terrível epidemia de ebola, que já dizimou mais de seis mil vidas, especialmente na Libéria, Serra Leoa e Guiné", e agradeceu aqueles que "prestam todo o cuidado possível aos doentes e aos seus familiares".

Um parágrafo importante é dedicado aos prófugos e refugiados. "Quantas pessoas perdem a vida em viagens desumanas, sujeitas aos vexames de verdadeiros algozes ávidos de dinheiro!" Além disso, "muitos migrantes, especialmente nas Américas, são crianças sozinhas, presas ainda mais fáceis dos perigos, que necessitam de maior cuidado, atenção e proteção". Portanto, é necessário, explica o papa, "uma mudança de atitude em relação a eles", com leis que protejam os direitos dos cidadãos e a acolhida dos migrantes.

Mas, explica ainda o papa, além dos migrantes, há "muitos outros 'exilados ocultos', que vivem dentro das nossas casas e das nossas famílias. Penso sobretudo nos idosos e nos deficientes, assim como nos jovens", lembrando que "não há pobreza pior do que aquela que priva do trabalho e da dignidade do trabalho" e que torna o trabalho uma forma de escravidão.

Depois, "a própria família é frequentemente tornada objeto de descarte, por causa de uma cultura individualista e egoísta cada vez mais difundida, que rompe os vínculos e tende a favorecer o dramático fenômeno da queda da natalidade, além de legislações que privilegiam diversas formas de convivência, em vez de apoiar adequadamente a família para o bem de toda a sociedade. Entre as causas de tais fenômenos, há uma globalização uniformizadora que descarta as próprias culturas, eliminando, assim, os fatores próprios da identidade de cada povo que constituem a herança imprescindível na base de um sadio desenvolvimento social".

À "cara nação italiana", o papa dirigiu um pensamento de esperança, "para que, no persistente clima de incerteza social, política e econômica, o povo italiano não ceda à indiferença e à tentação do confronto".

Por fim, depois de recordar a viagem que começa nessa segunda-feira, Francisco deseja "uma retomada do diálogo entre as duas Coreias", citando a experiência positiva de diálogo que pôde encontrar na Albânia. E fala do exemplo positivo do degelo entre Cuba e Estados Unidos, pondo fim "a um silêncio recíproco que durou mais de meio século e reaproximando-se pelo bem dos respectivos cidadãos".

Nessa perspectiva, o papa pensa no povo de Burkina Faso, envolvido em um período de importantes transformações políticas e institucionais, olha com "com satisfação a assinatura, em março passado, do acordo que pôs fim a longos anos de tensões nas Filipinas", encoraja "o empenho em favor de uma paz estável na Colômbia, bem como as iniciativas que visam restabelecer a concórdia na vida política e social da Venezuela".

Francisco deseja que "se possa chegar a um entendimento definitivo entre o Irã e o chamado Grupo dos 5+1 sobre a utilização da energia nuclear para fins pacíficos, valorizando os esforços realizados até agora" e acolhe "com satisfação a vontade dos Estados Unidos de fechar definitivamente a prisão de Guantánamo".

O discurso concluiu com uma citação do discurso de Paulo VI à ONU em 1965: "Não mais a guerra, não mais a guerra! A paz, a paz deve guiar os destinos dos povos e da humanidade inteira".

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