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15 Dezembro 2014

Francisco, as prostitutas, e os escravos e escravas sexuais e do trabalho forçado. Se existe um mundo que Jorge Mario Bergoglio nunca removeu do seu horizonte é o dos homens e das mulheres sujeitos ao domínio dos patrões, proprietários do corpo e do trabalho alheios, que atuam na indiferença da sociedade contemporânea.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 12-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Já como arcebispo, Bergoglio participava de eventos na praça, que na prática eram manifestações de denúncia. "De vez em quando, é necessário fazer um pouco de bagunça", dizia ele a um dos seus padres das favelas de Buenos Aires.

Com os jovens empenhados no voluntariado de ajuda e de resgate das escravas sexuais, Francisco quis se encontrar recentemente, na Pontifícia Academia das Ciências, para que o relato da experiência delas não se perca e, ao contrário, fortaleça as iniciativas internacionais para chegar àquele que é o objetivo sonhado pelo papa: fazer com que a ONU declare o tráfico e a escravidão de pessoas um crime contra a humanidade.

Havia muitos jovens na Academia (que também tem membros ateus), que vieram de todos os continentes para contar a descida aos infernos de milhões de seres humanos. Porque se trata de milhões: 29 milhões de pessoas no mundo são vítimas de "tráfico", das quais 2,3 milhões estão enjauladas no ciclo da prostituição.

Uma corrente de histórias. Rico, o filipino estuprado aos oito anos por um vizinho e salvo do ciclo de exploração apenas quatro anos depois. Mildred, de Mombasa, que deixou os filhos com a mãe e foi trancada em um bordel, sem ver a luz do dia por oito meses. Bopha, a cambojana contratada na Malásia como empregada doméstica e estuprada por dois anos pelo patrão. Ola, a polonesa convencida a um falso casamento com um paquistanês na Inglaterra e que caiu em uma rede de traficantes. Carolina, a mexicana que acabou sendo prostituta para fugir das violências do marido. Esmeralda, sem trabalho, que, no primeiro dia, repreendida pela cafetina, promete: "Não vou mais chorar, talvez eu vomite, mas não vou mais chorar". A menina indiana sem nome, fechada em um bordel com a obrigação de "contentar 18 clientes por dia".

Nilinuri Toppo, um dos participantes do congresso que relatou alguns testemunhos, informou que, na Índia, a cada dia, 200 meninas e mulheres se tornam prostitutas, e em 80% dos casos à força.

Natália Cordeiro e Wagner Montenegro explicaram que, ao longo das estradas e das rodovias do Brasil, há ao menos 844 pontos de exploração de adolescentes.

Ixchel González Baez, do México, mostrou que os protetores já desenvolveram uma estratégia em muitas dimensões de iniciação e e exploração. Porque o mercado rende muito e requer "profissionalismo" no fornecimento de carne humana.

É falso pensar que tudo ocorre em outros lugares. Países europeus como a Itália estão prosperando em zonas de trânsito, de paragem e de trabalho das escravas contemporâneas, provenientes do Leste, da África, da Ásia e da América Latina.

Quem não quer ver, fecha os olhos ou se ilude, pensando que é uma livre escolha de "profissionais". Mas o mercado podre é mais amplo ainda. Inclui o trabalho imigrante, o trabalho infantil forçado, as fábricas clandestinas, a rede internacional de pornografia infantil, a rede de clãs que exigem resgates.

E o tráfico de órgãos, coberto por um estranho manto de silêncio. Uma realidade de muitas dimensões para a qual o pontífice chama a atenção também na próxima Mensagem para a Paz do dia 1º de janeiro de 2015.

Francisco, em novembro, deixou a sua sala de trabalho e foi apertar as mãos e abraçar esses jovens voluntários, muitas vezes inseridos em associações dirigidas por ordens religiosas femininas. A eles, ele contou uma singular parábola de um humorista argentino sobre o sanduíche de queijo e presunto.

Para fazê-lo, é preciso leite – disse – da "vaca, que colabora. Mas o presunto vem do porco, que dá tudo de si mesmo". É a parábola, em forma jocosa, do compromisso total. Como que dizendo que não adianta a caridade, de vez em quando.

"Agradeço a vocês pelo seu compromisso", disse o papa aos jovens presentes. "Compromisso é dar a vida. Porque ninguém pode ser tratado como um descarte, e é preciso fazer de tudo para resgatar a dignidade de cada pessoa."

Também circulava no congresso uma estatística sobre os menores mortos por abuso sexual, violência e privação em vários países do mundo. Na Itália, de cada 200 mil habitantes, acabam mortos dois meninos e uma menina. Quem quiser fazer as contas, teste com 60 milhões de habitantes. Verá que as vítimas são muitas, demais.

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