'Burguesia aimara' faz fortuna com Evo

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20 Novembro 2014

Um Toyota Prado dourado e novíssimo chega levantando poeira na avenida Bolívia, no centro de El Alto. Alejandro Chino Quispe estaciona o carro e desce trajando uma calça de linho bege e um blazer de veludo marrom. A camisa amarela tem bordada, na aba frontal, uma bandeira boliviana e a inscrição "Tupay" - em alusão a um famoso grupo folclórico local. Ao ver a reportagem, abre um largo sorriso. Seus dentes são cobertos de ouro.

A reportagem é de Fabio Murakawa, publicada pelo jornal Valor, 19-11-2014.

"Mira! Mira!", diz o empresário ao erguer a cabeça e os braços. Orgulhoso, ele exibe ao repórter o imponente edifício de seis pisos, vidros espelhados e fachada pintada com formas geométricas em um chamativo degradê, que vai do vermelho ao salmão desbotado.

O prédio, projetado pelo famoso arquiteto Freddy Mamani, está em fase final de acabamento. É um entre dezenas de "cholets", como ficaram conhecidas as construções da "nova arquitetura andina" que emergiram na cidade juntamente com a ascensão da "burguesia aimara" - os novos ricos da etnia de Chino e do primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales.

O hall de entrada, que será uma pequena galeria comercial, leva a um imenso salão de festas, o "Rey Alexander". Chino chama a atenção para os adornos multicoloridos, os gigantescos lustres de cristal importados da China e os imensos painéis com motivos étnicos pintados nas paredes. "São autênticos Mamani Mamani. Caríssimos", explica. Depois, faz questão de acender todas as lâmpadas e pisca-piscas de diversas cores. "Nos dias de festa, fica muito bonito."

O tour pelo edifício, com 800 m2 de área construída, demora cerca de uma hora. Ele abriga ainda um outro salão de festas, o "Príncipe Alexander". Em pisos intermediários, ficam o depósito e a cozinha que servirão os eventos. Num outro andar, está a futura casa da família, que também trabalhará ali - Chino é casado e tem quatro filhos. No terraço, ainda deu para construir uma imensa quadra de futebol society, que será alugada para equipes locais.

"Estou investindo US$ 1,5 milhão nesse prédio. Em quatro anos, tenho certeza, já terei recuperado todo o investimento", diz.

Chino nasceu em 1959 na Província rural de Omasuyus, às margens do lago Titicaca - o mais alto do mundo, 3.800 metros acima do nível do mar. Filho de indígenas aimaras, tem história muito parecida com a do presidente.

Seus pais plantavam batatas e criavam lhamas. A família migrou para a cidade quando ele tinha apenas 5 anos. Em La Paz, Chino aprendeu o ofício de alfaiate e ganhou fama por preparar trajes típicos para festas tradicionais aimaras, além de ternos vestidos por executivos, diplomatas e pelo vice-presidente, Álvaro García Linera.

A estatização do gás promovida por Morales em 2006, em meio ao boom dos preços do petróleo na década passada, injetou bilhões de dólares na economia. Com a ajuda de programas sociais e uma política econômica ortodoxa, o governo tirou 2 milhões de pessoas da pobreza, criando uma nova classe média e, por consequência, um batalhão de novos consumidores.

O relatório "Doing Business", do Banco Mundial, coloca a Bolívia na 157ª posição entre 189 países em relação à facilidade para fazer negócios. O mercado pequeno e fragmentado, e um clima de certa insegurança jurídica, tem afugentado os investidores estrangeiros. Cerca de 70% dos empregos no país são, atualmente, informais.

Mas, para os aimaras, conhecidos há séculos pela habilidade com o comércio e já acostumados ao ambiente informal e irregular do mercado boliviano, isso não representa um problema. Ninguém aproveitou melhor esse cenário do que eles.

O pequeno ateliê de Chino, no centro de La Paz, transformou-se nos últimos anos em uma empresa com 20 funcionários, depois que as mais de 50 fraternidades de El Alto passaram a ter mais dinheiro para comprar trajes típicos para suas festividades. Já com um dos dois salões de festas em funcionamento, ele agora pensa em expandir ainda mais os negócios. Pretende juntar dinheiro com amigos para trazer "um contêiner de produtos" da China. Ainda não sabe quais, mas a ideia é revendê-los a comerciantes locais.

Sua ideia tem lógica: a maioria dos "burgueses aimaras" fez dinheiro na última década importando quinquilharias chinesas. Eles dominam, por exemplo, quase todo o comércio ambulante de eletroeletrônicos, televisores e telefones celulares em La Paz e em outras regiões do país.

Com grande contribuição dos aimaras, as exportações chinesas à Bolívia explodiram na última década. Em 2005, antes de Evo, elas chegavam a US$ 150 milhões, aproximadamente. No ano passado, o número cresceu para US$ 1,177 bilhão. Neste ano, ou no máximo em 2015, o país asiático deve ultrapassar o Brasil como o principal fornecedor de produtos para a Bolívia, estimam economistas.

Em nichos dominados pelos comerciantes aimaras, o salto também foi gigantesco. Entre 2005 e 2013, por exemplo, as exportações chinesas de televisores e aparelhos de DVD, de som e afins para a Bolívia foram de US$ 6,5 milhões para US$ 25 milhões. Já as vendas de telefones celulares tiveram um salto de US$ 6,1 milhões em 2005 para US$ 75,4 milhões no ano passado. O setor têxtil viu duplicar o fluxo de exportações da China para a Bolívia, de US$ 31,8 milhões em 2005 para US$ 62,8 milhões em 2013.

Todas essas cifras, no entanto, tendem a estar imprecisas e subestimadas, dada a vocação tanto de chineses quanto de aimaras à "informalidade". Seja em grandes feiras populares ou em pequenos quiosques nas ruas, esses produtos são vendidos hoje em enormes quantidades no país, em grande parte dos casos sem nota fiscal.

A Feira 16 de Julio, que ocorre quinta-feira e domingo em El Alto, movimenta cerca de US$ 1 milhão por dia. Ali é possível encontrar desde a última versão do iPhone até carros importados usados, autopeças, roupas, animais de estimação e remédios. Tem entre 300 mil e 500 mil comerciantes registrados, segundo associações locais. A cada dia, a feira consegue ocupar cerca de cem quadras da cidade.

"Muitas vezes, esses produtos são feitos na China de forma ilegal, exportados de forma legal, importados de forma ilegal, mas vendidos na Bolívia de forma legal", diz o economista Juan Manuel Arbona, estudioso do comércio popular boliviano. "O produto chinês pode passar do legal ao ilegal várias vezes no processo de importação e de consumo na Bolívia."

Segundo a Federação de Gremiales da Bolívia, uma espécie de associação de pequenos varejistas, o comércio cresce a uma taxa anual de 15% a 20%, e há ao redor de 2 milhões de vendedores "por conta própria" no país, de cerca de 10 milhões de habitantes. Em El Alto, de acordo com dados do Censo de 2012, mais de 60% da população se dedicam ao comércio.

"Depois da nacionalização, em 2006, os recursos com o gás sextuplicaram na Bolívia, com impacto direto nesse setor [comércio]", diz a socióloga brasileira Fernanda Wanderley, que vive há duas décadas no país. Segundo ela, políticas governamentais, como o câmbio fixo e valorizado, combinadas com a renda em alta, também facilitaram a criação de um mercado consumidor. "Houve um aumento exponencial das importações e do consumo de produtos."

Os aimaras, afirma ela, ascenderam não só economicamente, como politicamente, com a chegada de Evo Morales ao poder.

"Os 'cholets' refletem esse enriquecimento e a afirmação da estética e do modo de viver dos aimaras. Para eles, a casa não é só um espaço de ócio, mas um espaço de negócios também", diz Fernanda.

Segundo ela, além disso, as cores chamativas da fachada, dos adornos e da decoração das obras "são uma forma de ostentação, que é parte da cultura aimara". "Essas casas são uma mostra de diferenciação social entre eles", diz a socióloga. "O que mais importa é mostrar não para os brancos que eles enriqueceram, mas para os outros aimaras."

Encontro com os chineses globalizou indígenas

O encontro dos aimaras com os chineses na primeira década deste século inseriu os nativos bolivianos dessa etnia nativa no chamado "mercado globalizado". E estudiosos notam, com certo espanto, que houve uma imediata identificação entre os dois povos.

Tanto aimaras como chineses têm tradição mercantilista, e os comerciantes de ambos os lados se organizam em clãs familiares, com múltiplos negócios tocados por seus diversos membros. Possuem também desenvoltura para comprar e vender em ambientes informais, que muitas vezes configuram puro e simples contrabando.

Os comerciantes aimaras têm contato estreito com os consórcios familiares chineses. Essas pequenas empresas familiares asiáticas agradam pela flexibilidade para modificar produtos a pedido da clientela, readaptando o design e outras especificações ao gosto do freguês. Tudo isso a preços competitivos - algo ideal para um mercado pequeno e de baixa renda, como o boliviano.

Os pioneiros das viagens à China foram os comerciantes das ruas Eloy Salmón e Huyustus, em El Alto, equivalentes bolivianos à rua 25 de Março, em São Paulo. Num primeiro momento, eles faziam "vaquinhas" de cerca de US$ 200 mil para encher contêineres de produtos e revendê-los nas ruas.

"Os aimaras logo se deram conta de conta de que os produtores chineses poderiam adequar-se às suas necessidades e aos seus mercados", diz o economista Juan Manuel Arbona. "Por exemplo, é possível importar tanto um videogame PlayStation de US$ 300 ou uma versão mais simplificada, com uma resolução e uma memória menores, para vendê-lo a US$ 20. E tudo isso na mesma fábrica onde se faz o PlayStation de US$ 300."

O videogame, à época, era uma novidade no mercado boliviano. Mas a mesma lógica valia e continua valendo para produtos tradicionais, como os tecidos coloridos e adornos das roupas das "cholas".

O livro "Hacer Plata Sin Plata" ("fazer grana sem grana", na tradução literal), lançado na Bolívia pelo Pieb, um centro de difusão de estudos acadêmicos, é uma das poucas publicações a retratar a ascensão da "burguesia aimara". Segundo seus autores, os aimaras logo se livraram de intermediários e começaram um périplo pelas grandes feiras da China. Primeiro, recorreram à feira de Cantão, uma mostra de produtos para exportação que neste ano movimentou US$ 29,1 bilhões em contratos.

Outra feira bastante visitada é a de Yiwu, especializada na venda de produtos de baixo preço, "muitas vezes alheios aos rígidos requisitos de produção das multinacionais dos EUA e da Europa". "Quando os mercados desenvolvidos entraram em declínio, a feira de Yiwu já havia consolidado seu perfil como supermercado para pequenos comerciantes do Oriente Médio, da África e da América Latina", diz o livro. Para a "burguesia aimara", Yiwu era e continua sendo o local ideal para fechar seus negócios.

Os aimaras são conhecidos por seu tino comercial desde a época da colônia. Eles formavam um dos grupos mais populosos do território boliviano à época da chegada dos espanhóis, ao lado dos quéchuas (incas) e dos urus.

Esses povos desfrutavam de certa autonomia e, graças à resiliência à altitude, conseguiram lograr acordos com os europeus que permitiram, sobretudo às mulheres, controlar o comércio ao redor das minas de prata da região de Oruro, onde os homens trabalhavam. A tradição de percorrer o país levando alimentos, roupas e outros produtos manteve-se por séculos.

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