"Trata-se de ganhar ou perder a vida, como disse Jesus. E de estar dispostos a pagar o preço". Artigo de Jon Sobrino

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17 Novembro 2014

"Contra toda ciência e prudência, os mártires geram esperança. Milhares de camponeses pobres, com familiares mortos, se juntam na véspera de 16 de novembro na UCA para celebrar uns com os outros, rezar e cantar. Jürgen Moltmann o teorizou muito bem: “nem toda vida é ocasião de esperança, mas o é, sim, a vida de Jesus, quem, por amor, tomou sobre si a cruz”, escreve Jon Sobrino, jesuíta, teólogo, por ocasião do 25º aniversário do massacre dos seis jesuítas da UCA e as duas mulheres, em artigo publicado por Reflexión y Liberación, 15-11-2014. A tradução é de Benno Dischinger. O artigo foi lido por Sobrino na Universidade de Santa Clara, confiada aos jesuitas, no Vale do Sílício, EUA.

Eis o artigo.

Começamos com os seis jesuítas. Depois de Medellín, 1968, e tocados pelo sofrimento do povo, se converteram. Aceitaram que ser jesuíta é lutar, e não só trabalhar. Lutar pela fé, e mais surpreendente ainda, lutar pela justiça. Assim o exigia a realidade e assim o disse a Congregação Geral XXXII (D 2. 2). Sua morte confirmou o que a mesma Congregação havia previsto lucidamente: “Não trabalharemos na promoção da justiça sem que paguemos um preço” (D. 4, 46).

Os mártires da UCA o fizeram cada um segundo seus talentos, e é bom recordá-lo para que todos nós possamos sentir-nos questionados e animados. Permitam-me detalhá-lo minimamente.

Ellacuría, 59 anos, filósofo e teólogo, reitor. Repensou a universidade desde e para os povos crucificados. Pôs todo o seu peso para combater a opressão e repressão, e para conseguir uma paz negociada.

Segundo Montes, 56 anos, sociólogo, fundador do Instituto de Direitos Humanos. Concentrou-se no drama dos refugiados dentro do país e, sobretudo dos que tinham que abandoná-lo, os emigrantes, que então fugiam da repressão violenta e agora da fome e da falta de trabalho. Visitava-os nos campos de refugiados em Honduras.

Ignacio Martín-Baró, 44 anos, psicólogo social, pioneiro da psicologia da libertação, fundador do Instituto de Opinião Pública da UCA, para facilitar que se conhecesse a verdade e dificultar que esta ficasse oprimida pela injustiça. Cada fim de semana visitava comunidades suburbanas e camponesas com as quais celebrava a eucaristia.

Juan Ramón Moreno, 56 anos, professor de teologia, mestre de noviços e mestre do espírito, acompanhante de comunidades religiosas. Na Nicarágua participou da campanha de alfabetização.

Amando López, 53 anos, professor de teologia, antigo reitor do seminário de San Salvador e da UCA de Manágua. Em ambos os países defendeu perseguidos por regimes criminais, às vezes escondendo-os em sua própria habitação.

Por último, Joaquín López y López, 71 anos, o único salvadorenho de nascimento, homem simples e de temperamento popular. Trabalhou no colégio e foi o primeiro secretário da UCA em 1965. Depois fundou Fé e Alegria, instituição de escolas populares para os mais pobres.

Foram muito distintos, mas todos eles foram seguidores de Jesus e jesuítas. É o que nos deixam. Neles podemos olhar-nos para saber o que devemos ser e fazer. Digamos uma palavra sobre o que foi mais seu.

Seguidores de Jesus. Reproduziram de forma real, não intencional ou devocionalmente, a vida de Jesus. Seu olhar dirigiu-se aos pobres reais, aqueles que vivem e morrem submetidos à opressão da fome, da injustiça, do desprezo, e à repressão de torturas, desaparecimentos, assassinatos, muitas vezes com grande crueldade. E se moveram à compaixão. “Fizeram milagres”, pondo ciência, talentos, tempo e descanso, a serviço da verdade e da justiça. E “expulsaram demônios”.

Certamente lutaram contra os demônios de fora, os opressores, oligarcas, governos, forças armadas, e deles defenderam os pobres. Não lhes faltaram modelos, Rutilio Grande e Monsenhor Romero. E foram fiéis até o final, em meio a bombas e ameaças, com misericórdia conseqüente. Morreram como Jesus, e engrossaram uma nuvem de testemunhos, cristãos, religiosos, também agnósticos, que deram sua vida pela justiça. Estes são os “mártires jesuânicos”, referente essencial para os cristãos e para qualquer pessoa que queira viver humana e decentemente em nosso mundo. Seu batismo foi de Espírito de sangue e seguiram Jesus.

Com o espírito de Santo Inácio. Neste ponto vou deter-me um pouco mais, pois hoje se fala muito de espiritualidade inaciana. Creio que pode ajudar-nos a historicisar Santo Inácio corretamente no terceiro mundo e torná-lo útil para melhor compreender a Jesus.

O outro Ignacio, Ellacuría, fez uma releitura dos Exercícios a partir da realidade do terceiro mundo. Três pontos me parecem fundamentais, e podem atuar como pressupostos inacianos da opção pelos pobres e da luta pela justiça.

1)  Encarar a realidade de nosso mundo e captá-la como “povos que estão crucificados”. Diante deles a reação fundamental – sem necessidade de discernimento – é “fazer redenção”.

2)  Ser honrados conosco mesmos, jesuítas, e perguntar-nos “o quê temos feito para que esses povos estejam crucificados e o que vamos fazer para baixá-los da cruz”.

3)  Levar a sério – quiçá o mais difícil e menos freqüente – que há dois modos de caminhar na vida, de ser jesuítas, construir a sociedade e a universidade.

São caminhos opostos e estão em pugna. Um é o caminho da pobreza, que leva a opróbrios e menosprezos; hoje diríamos humilhações, difamações, ameaças; e daí à humildade, à profundeza do humano, à verdadeira vida. O outro é o caminho da riqueza, que leva às honras mundanas e vãs; hoje diríamos ao prestígio entre os grandes deste mundo; e dali à arrogância, a uma vida falseada, pessoal e institucional. Em resumo, uma conduz à salvação – humanização – e o outro à perdição – desumanização. Trata-se de ganhar ou perder a vida, como diz Jesus. E de estar dispostos a pagar o preço.

Em termos de estruturas, Ellacuría insistia em que é preciso escolher entre uma civilização da pobreza – afim a uma civilização do trabalho – e uma civilização da riqueza – afim a uma civilização do capital. Esta, que predomina no mundo, tem gerado uma civilização gravemente enferma. Aquela, a que é preciso construir, pode reverter a história e sanar a civilização.

Estes três pontos: povo crucificado, necessidade de libertação, caminho da pobreza – mais a honradez conosco mesmos – são, em minha opinião, o que mais resplandece na inacianidade dos mártires da UCA e o que melhor explica por que acabaram como acabaram. Na tradição de santo Inácio certamente há muitas outras coisas importantes a ter em conta: o “magis”, “a maior glória de Deus”, “em tudo amar e servir”, “o bem quanto mais universal mais divino” – tudo o que se menciona com mais frequência na explosão ambiental de inacianidade que hoje existe.

Os três pontos que temos mencionado são mais facilmente compreensíveis, também pelos não iniciados em inacianidade, e certamente pelos pobres. E em minha opinião correm menos perigo de perder-se no âmbito do conceitual e intencional. Expressam realidades claramente históricas e verificáveis.

Neste contexto me parece oportuno recordar um fato singular: os mártires da UCA nunca discerniram se era vontade de Deus permanecer no país, com riscos, ameaças e perseguições, ou sair. Não se lhes ocorreu. Para ver quanto de explicitamente inaciano havia nesse proceder, penso que é preciso ir ao primeiro tempo de fazer escolha: “sem duvidar nem poder duvidar” (Exercícios, n. 175). É preciso perguntar-se “o que perseguia e atraía a vontade. Se era “Deus nosso Senhor” comunicando-se à alma, como na formulação de Santo Inácio, ou se eram realidades históricas: “o sofrimento do povo”, que não deixava viver em paz; “a vergonha que dava abandonar o povo”; “a força coercitiva da comunidade”; “a recordação enriquecedora de Monsenhor Romero, de nove sacerdotes e quatro religiosas assassinadas”; inclusive o “ter-se acostumado à perseguição”. Penso que tudo isso movia a vontade e iluminava as decisões e o caminho a seguir. Na linguagem dos exercícios, nisso e através disso Deus estava realmente causando o sem duvidar nem poder duvidar. Mas Deus não atuava através de qualquer coisa, senão das que temos mencionado.

O Espírito de Deus move a caminhar, mas sua força passava através do povo sofredor. Assim parafraseou Pedro Casaldáliga o conhecido poema de Antonio Machado: Camino que uno es,/ que uno hace al andar./ Para que los atascados / se puedan reanimar./ Haz del canto de tu pueblo/ el ritmo de tu marchar. [Caminho que alguém é/ que alguém faz ao andar / Para que os atolados / possam se reanimar. Faz do canto de teu povo / O ritmo de teu marchar].

Assim, penso eu, discerniram os jesuítas da UCA. Deixaram-se atrair e levar pela realidade. É a sinergia de Deus e do povo sofredor. E não me ocorre outra maneira de explicar por que ficaram.

Quisera terminar esta reflexão sobre os jesuítas recordando que “morreram em comunidade”. Podia não ter sido assim, e podia ter sido assassinado somente Ellacuría, o principal inimigo. Mas, há uma verdade importante – providencial, - caso se queira -, em que sua morte fosse “em comunidade”. Assim havia sido sua vida e seu trabalho, com alegrias e tensões, com virtudes e pecados, mas seguindo uma só linha bem traçada. E assim expressaram que a Companhia está feita de “todos”. É “corpo”, não soma de indivíduos, alguns deles geniais, outros normais.

Esta comunidade de seis jesuítas se integrou numa comunidade maior, o corpo da Companhia universal. 49 são os jesuítas que morreram no terceiro mundo, assassinados de uma ou outra forma, depois da CG XXXII. Entre eles se contam três estadunidenses. Francis Louis Martiseck, 66 anos, nascido em Export, Pensilvânia, morto por arma de fogo em Mokame, Índia, 1979; Raymond Adams, 54 anos, nascido em Nova York, morto por arma de fogo em Cape Coast, Gana, 1989; Thomas Gafney, 65 anos, nascido em Cleveland, Ohio, assassinado em Katmandu, Nepal, 1997.

Não é infreqüente recordar “as glórias da Companhia”, as reduções do Paraguai, Mateo Ricci na China... Hoje, estes mártires, uns mais famosos, outros menos, são a gloria da Companhia. E, sobretudo, são eles que mantêm a Companhia com vida. Uma semana depois do assassinato do Padre Rutilio Grande, o padre Arrupe escreveu:

“Estes são os jesuítas de que necessita o mundo e a Igreja. Homens impulsionados pelo amor de Cristo, que sirvam seus irmãos sem distinção de raça ou de classe. Homens que sejam identificados com os que sofrem, viver com eles até dar sua vida em sua ajuda. Homens valentes que saibam defender os direitos humanos, até o sacrifício da vida, se for necessário” (19 de março, 1977).

+ A graça dos mártires

Temos recordado mártires. Sua vida e sua morte são de grande dureza, e por isso minhas palavras podem soar fortes. Mas também é verdade que a eles se dirigem as bem-aventuranças de Jesus. E que para nós são – podem ser – uma bênção: elas nos animam a nos entregarmos aos demais e a termos esperança, ânimo que não se encontra, com essa força, em nenhuma outra parte, nem na liturgia, nem na atividade da academia.

No natal dizemos que em Jesus de Nazaré “apareceu a benignidade de Deus”. Na semana santa escutamos na boca de Pilatos que esse Jesus é “o homem verdadeiro”, “o que carregou com a realidade por amor aos pequenos”. Daí o “ecce homo”. Ambas as coisas, a aparição de Deus e do humano num mundo em obscuridade é uma boa notícia.

Isto é o que celebramos neste ato universitário. Os seis jesuítas da UCA nos levam em sua fé, da qual podemos ter alguma notícia, embora seja caminhando em silêncio e na ponta dos pés. Julia Elba e Celina nos levam na sua, mas de maneira distintas. Eu, pelo menos, não posso entrar até o fundo em seu mistério. Mas Deus sim, os conhece – Deus sabe como – nos levam a Deus.

E, contra toda ciência e prudência, os mártires geram esperança. Milhares de camponeses pobres, com familiares mortos, se juntam na véspera de 16 de novembro na UCA para celebrar uns com os outros, rezar e cantar. Jürgen Moltmann o teorizou muito bem: “nem toda vida é ocasião de esperança, mas o é, sim, a vida de Jesus, quem, por amor, tomou sobre si a cruz”.

Termino. Quero agradecer muito sinceramente à Universidade de Santa Clara pela oportunidade que me deu de dirigir-lhes estas palavras. Permitiram-me tornar presente de algum modo o sofrimento e a esperança de um povo admirável e a memória de meus irmãos e irmãs da UCA. Também quero agradecer-lhes a honra pessoal que me fazem. Me remete ao carinho que me mostraram faz vinte anos. E o interpreto como símbolo de solidariedade desta Universidade com a  UCA e com todo o povo salvadorenho.

+ Minhas palavras finais são as que escrevi aqui faz vinte anos.

Descansem em paz Ignacio Ellacuría, Segundo Montes, Ignacio Martín-Baró, Amando López, Juan Ramón Moreno, Joaquín López y López, companheiros de Jesus. Descansem em paz Julia Elba e Celina, filhas muito queridas de Deus. Que sua paz nos transmita aos vivos a esperança, e que sua recordação não nos deixe descansar em paz.

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