Os arquivos da pedofilia nos EUA: ''Álcool, abusos e festas''

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10 Novembro 2014

"O Pe. Thomas Kelly teria abusado de B.G. forçando-o a ser objeto de sexo oral em várias ocasiões, em um período de idade entre os 11 e os 16 anos. A vítima também denuncia que muitas vezes teria passado a noite na casa paroquial, que o padre Kelly o levava regularmente ao cinema ou para jantar, e que também o fazia consumir álcool".

A reportagem é de Angela Vitaliano, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 08-11-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

São leituras difíceis não só pela quantidade, mais de 15 mil páginas. Os documentos tornados públicos pela arquidiocese de Chicago são referentes às denúncias por atos de pedofilia contra 36 padres, que, ao menos em uma ocasião, foram responsabilizados por abusos sexuais contra menores.

Os arquivos publicados "voluntariamente", como é esclarecido no site da arquidiocese de Chicago, devem se somar aos já publicados em janeiro e referentes aos outros 30 religiosos identificados em novembro de 2014.

Ainda não foram publicados os papéis relativos aos padres Daniel J. McCormack e Edward J. Maloney, sobre os quais ainda há atualmente processos em andamento para esclarecer com precisão as respectivas responsabilidades.

A publicação dos documentos foi decidida pelo cardeal Francis George, que teve que administrar, de maneira nem sempre cristalina, um dos maiores escândalos de pedofilia, que foi um verdadeiro terremoto para a Igreja Católica nos Estados Unidos.

"Não apagar o passado, mas restaurar a confiança"

George, já próximo da aposentadoria, tendo estado no cargo desde 1997, declarou em um comunicado de imprensa que "não podemos mudar o passado, mas esperamos reconstruir a confiança através do diálogo honesto e aberto".

A publicação dos atos faz parte de um acordo alcançado com o procurador-geral de Chicago, Jeff Anderson, que incluía também o pagamento de 130 milhões de dólares de indenização às famílias das 352 crianças vítimas de assédio sexual desde 1950 até o ano passado.

"Por mais de 10 anos, fui um paroquiano ativo na paróquia Saints Faith, Hope and Charity, de Winnetka – escreve um homem em nome dos outros pais em uma nota enviada à arquidiocese para denunciar as enormes dificuldades criadas pela presença do padre Thomas Swade, um dos sacerdotes acusados de pedofilia, nos lugares frequentados pelas crianças –, e se o Pe. Swade ainda quer vir à nossa paróquia, depois de ter percebido o impacto que apenas a sua presença produz sobre as nossas crianças, então eu questiono o seu valor de cristão. E rezo para que vocês não permitam que tudo isso continue, porque certamente vocês não querem que eu questione também a fé de vocês."

Transferências de religiosos para "calar"

Os documentos também mostram com extrema clareza como os padres acusados de abuso sexual e de atos de pedofilia eram regularmente transferidos de uma paróquia para outra, com o único propósito de "calar" os boatos a respeito deles.

Muitos dos sacerdotes, na verdade, até conseguiram chegar à aposentadoria e morreram sem nunca ter que responder por atos que, a partir dos documentos, parecem absolutamente intoleráveis e imorais.

"O Pe. Russell Romano foi acusado de fazer gestos inapropriados e de molestar a vítima E.J.", afirma-se, por exemplo, em um dos arquivos.

Aprofundamentos sobre essa indicação revelaram depois que o padre Romano tinha levado a vítima a um "drive-in" para assistir a um filme pornográfico, tinha lhe fornecido álcool durante esta e muitas outras ocasiões. A vítima tinha acordado, depois, nua ao lado de Romano, que estava igualmente nu. Outro incidente semelhante ocorreu quando a vítima tinha completado 18 anos e era maior.

Os detalhes relativos aos atos de pedofilia cometidos pelo padre Russell em detrimento das suas vítimas incluem também a partilha de revistas pornográficas, a prática do sexo oral e de masturbação.

Crimes contra crianças e meninas menores

Naturalmente, também há meninas que denunciam atos de assédio, como aqueles contra William John O'Brien, que, de acordo com o relato da vítima, "encontrou-a, cumprimentou-a e beijou-a nos lábios. Também lhe perguntou que tipo de calcinha usava. Quando a vítima tinha 17 anos, o padre O'Brien a levou para a sua cama no seu quarto na paróquia, fez com que ela se deitasse e se deitou sobre ela, começando depois a se masturbar até ejacular sobre todo o seu corpo".

Os documentos permitem entender de maneira dolorosa a profunda sensação de raiva que ainda acompanha as vítimas desses relatos atrozes e que não estão, hoje, nada "impressionadas" com o gesto da arquidiocese.

"A arquidiocese está se comportando como se estivesse fazendo algo muito grandioso, mas a minha pergunta é: por que demoraram tanto tempo? O seu sigilo permitiu a perpetuação do crime com a consequência de que muitas outras crianças foram violentadas", diz Peggy Hough, de Evanston, que sofreu abusos do Pe. Eugene Burns desde os oito anos de idade.

A partir dos arquivos relacionados a Burns, sabe-se que o padre foi transferido repetidamente até se retirar, para depois morrer em 2005.

"Cinco meses atrás, por erro, abri uma carta não endereçada a mim, mas a uma das meninas do dormitório. A carta estava assinada 'com amor, Rick', mas era claramente escrita pelo Pe. Richard Theisen". Isso é o que se lê em uma carta enviada ao bispo O'Donnell, de uma pessoa que tinha "descoberto" a relação entre o padre e uma menina da escola.

O'Donnell respondeu que a troca de cartas havia sido de "providência divina" e que ele tinha falado com o "jovem padre" convencendo-o a pôr um fim imediatamente ao seu comportamento.

Confissões de homossexualidade "muito ativa"

"Segundo a vítima I.G., o padre David Braun abusou sexualmente dele quando ele tinha 13 anos. No dia 2 de novembro de 1963, um policial chamou na central para avisar que o Pe. David Braun tinha sido detido por atos obscenos contra um menino. O padre confirmou, sem fornecer explicações. Braun contou que tinha dado uma carona para o rapaz, oferecendo-lhe um copo de uísque e uma cerveja, mas que não o tocou."

O Pe. Braun, segundo os documentos, confessou mais tarde, após outro "incidente", que era homossexual e "extremamente ativo" com jovens que ele "pegava" na rua, com o pretexto de uma carona.

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