Manifesto do jesuíta chileno José Aldunate

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Por: Jonas | 28 Outubro 2014

“Se alguém diz sua opinião não é por isso que é rebelde, porque as opiniões não são rebeldes, mas, sim, diferentes. Essas pessoas que falam de padre rebelde provavelmente são muito atrasadas. São pessoas que continuam acreditando que a Igreja é apenas mandato e obediência”, escreve o sacerdote jesuíta José Aldunate (foto), em artigo biográfico publicado por sítio Reflexion y Liberación, 19-10-2014. A tradução é do Cepat.

 

Nota da IHU On-Line: Juntamente com mais dois padres chilenos, José Aldunate foi destaque na imprensa chilena por ter sido denunciado à Congregação da Doutrina da Fé, conforme pode ser lido no portal do IHU.

 
Fonte: http://goo.gl/2zW98j  

Eis o artigo.

Não penso muito na morte. Acredito que é um evento a respeito do qual não resolve muito pensar, preparar seja lá o que for. Virá e não tenho medo algum dela. Pelo contrário, é bem-vinda, porque não gosto da ideia de chegar aos 100 anos. Tenho 97, está tudo muito perto. Bom, que outra saída eu posso ter. Dizem-me que tenho uma arritmia no coração, nesse sentido, pode ser ou parece que tive, ainda que não esteja convencido, um começo de derrame. Parece que tenho o cérebro um pouco bichado, mas não se nota. Bom... de algum lado deverá haver saída para não chegar aos cem.

Há 35 anos que corro. Acostumei-me a isso e desenvolvi uma boa corrida, que nada cansava e que podia durar meia hora, uma hora inteira. Como perdi a visão, já não posso sair à rua. Antes ia ao Passeio Bulnes e corria até o fundo, até o Parque Almagro. Dali retornava. Incomodava um pouco os pernilongos vistos pela manhã. Agora, faço isso em um aparelho que se movimenta e que me permite correr no mesmo lugar. Às 7 da manhã, levanto-me. Ninguém me ajuda. Corro meia hora, entre várias coisas: bicicleta e pesos. Todos os dias, faço um pouco de tudo.

Da minha infância, se há algo que me marcou, isso foi a inglesa. Estivemos desde pequenos sob a férula da tutora, a miss... não sei o quanto, porque ia se transformando. Havia uma distância com os pais, porque ela exigia full charge, plena responsabilidade, daí dizer a mamãe “não se meta muito, porque eu estou aqui”. Houve certa distância entre os pais e nós, o que acredito que foi negativo. À noite nos despedíamos com um beijo, mas o beijo não era da mamãe, era da inglesa. A mamãe estava um pouquinho ausente. Eu sei que ela sofreu um pouco com isso, mas era muito forte e não queria atrapalhar uma educação inglesa. Estava convencida que a melhor educação do mundo era essa e queria oferecê-la a seus filhos. Nesse momento, para mim era normal, mas depois descobri que em outras famílias é muito diferente. Não me dava conta. Estava acostumado com essa disciplina.

Eu tinha um projeto alternativo ao do sacerdócio. Gostava muito das matemáticas. Ia estudar engenharia. Na prática já estava admitido, tanto na Católica como na Chile. Havia tirado boas notas, e era a alternativa que tinha: ser padre ou engenheiro. Era muito desprendido da riqueza. Meu papai, naquele nesse tempo, tinha dois fundos, ele os administrava e me olhava como aquele que poderia retomar a administração, aliviá-lo um pouco. Meu irmão, que era meu exemplo a seguir, já era padre, e se eu fosse padre também, a família ficaria sem homem. Essa foi minha preocupação. Porém, não me interessava ter coisas, encontrava-me sem atrativo verdadeiro, sem perspectiva.

Procurei ser compreensivo para com os tempos atuais. Acredito que pude acolher as mudanças ocorridas, sem maior problema. Por outro lado, senti que outras pessoas ficaram para trás.

É justo que o celibato para os sacerdotes seja totalmente livre, a escolha. Os sacerdotes celibatários não bastam para o que se requer. Do ponto de vista ético, acredito que é necessário que casados também possam ser ordenados. Eu amei meu celibato, voltaria a escolhê-lo, mas acredito que entrei sem conhecer muito a fundo o que eu renunciava. Eu renunciava a mulher e é conveniente que aquele que renuncia algo saiba o que renuncia. Deveria ter tido um pouco mais de conhecimento do que é a mulher, do que pode ser sua companhia e isso me faltou quando entrei aos 15 anos. Conhecia a mulher somente por intermédio de minhas irmãs e um pouco distante por algumas primas que tinha, mas um conhecimento maior não possuía.

Estamos diante de uma segunda revolução mundial. A primeira foi a revolução industrial, que mudou o mundo e a sociedade inteira, que teve que se refazer. Porém, a segunda grande mudança mundial, a revolução na qual hoje estamos metidos, é a das comunicações. Eu cheguei tarde por causa da minha visão. Não posso ter nem meu próprio computador, mas me surpreende e me maravilho de todas as formas. Eu usei máquinas de escrever, mas quando a visão me falhou tampouco pude continuar escrevendo. De qualquer forma, continuo produzindo artigos. Interessa-me muito isso: poder expressar meus pensamentos. Nestes dois últimos anos, escrevi mais artigos do que em toda a minha vida, porque uso o fonógrafo. Gravo, faço alguns cassetes e isso sai nestas questões de internet, que não compreendo. Tiki... Tuiki... Twitter!, Facebook. Tudo isso. Para mim, significa lançar sementes ao vento e me dizem que prendem e que são lidos.

Tenho uma boa opinião de Bachelet. Em geral, tem boas intenções, ainda que seja crítico em alguns aspectos, por exemplo, a política exterior. Ela está muito próxima do militarismo e o militarismo não faz sentido no mundo de hoje. Continuar com os gastos militares que o Chile possui, que são tremendamente grandes... Além disso, para a política latino-americana é muito importante que Chile não seja considerado o país mais armado da América Latina e, de certa forma, o mais dominante. O Chile precisa cultivar mais a diplomacia, a amizade, a união. Oxalá que a América Latina pudesse ser uma grande federação, como é a Europa.

O Papa teria que dispensar todos os núncios. Os núncios por todo o mundo não faz falta para a Igreja, com gastos tão grandes. Acredito que a Igreja teria que sair de Roma, e ir viver em um lugar, talvez, na África e, a partir dali, interessar-se pelo que acontece no mundo. O Papa não tem que ser o poderoso, aquele que manda, aquele que dispõe de todas as coisas. Precisa ser o servidor do povo. João Paulo II, o próprio Ratzinger, os dois últimos antes do atual Papa foram muito aficionados por seus poderes. Não os culpo, porque um Papa se sente muito responsável e, às vezes, quando uma pessoa que tem poder se sente muito responsável, então se transforma em um ditador, que acredita que deve se meter em tudo, fazer tudo.

É falso que eu seja um padre rebelde. Tenho opiniões e essas opiniões, agora menos do que antes, ainda podem ser taxadas de problemáticas, porque são opiniões que a própria Igreja coloca sob o tapete. Por exemplo, os homossexuais, o matrimônio. Se alguém diz sua opinião não é por isso que é rebelde, porque as opiniões não são rebeldes, mas, sim, diferentes. Essas pessoas que falam de padre rebelde provavelmente são muito atrasadas. São pessoas que continuam acreditando que a Igreja é apenas mandato e obediência.

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