A esquerda que ousou, errou e se acabou. A luta armada contra os golpistas no Brasil

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Por: Jonas | 27 Outubro 2014

“Com a sua obra, Gorender deixa para a história da esquerda brasileira um legado imprescindível, que certamente deve ser lido e analisado criticamente, pois a ousadia e a coragem de pessoas que foram torturadas ou morreram em prol de seus ideais, conjugadas com seus erros e imperfeições abrem brechas para que, atualmente, novos caminhos sejam trilhados, referendados naquilo que não deve ser e naquilo que a esquerda deve fazer em prol de uma nova sociedade, de um novo mundo”, escreve o cientista social Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT, em síntese da obra “Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada”, apresentada na noite de quinta-feira, 23-10-2014, como parte da programação do Projeto Abrindo o Livro, que neste ano estuda os anos da ditadura civil-militar brasileira.

Eis a síntese.

Percorrer os caminhos da esquerda armada nos anos da ditadura civil-militar no Brasil a partir da rica interpretação de um militante de esquerda, envolvido com os fatos, é de fundamental importância para a releitura daqueles anos de total institucionalização da repressão e da violência no Estado brasileiro. Homem de caráter irreparável, comunista e intelectual autodidata, Jacob Gorender não se exime de uma dura avaliação dos caminhos traçados pela esquerda naqueles anos, a partir de uma leitura historiográfica e também de suas próprias memórias.

"Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada" é, portanto, uma crítica da esquerda pela esquerda, uma dura avaliação dos erros de grupos armados muito determinados, mas pouco aptos para lidar com a forte repressão institucionalizada no Estado brasileiro. Aqui, entende-se por esquerda todos os movimentos e ideias compromissadas com o projeto de transformação social a favor das classes oprimidas e exploradas.

Para Gorender, o golpe militar de 1964 foi o resultado da crise do populismo, inaugurado por Getúlio Vargas, que imprimiu no país a ideia de um Estado paternalista, conciliador dos interesses de patrões e empregados, principalmente por meio do projeto de industrialização, mas que, no início dos anos 1960, já carecia de bases para continuar se legitimando.

A crise em tais bases de sustentação não foi corretamente interpretada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), não enxergando as alterações nas relações de forças dentro do país e permanecendo preso a uma falsa ideia de burguesia brasileira nacionalista, que nesse momento já estava fortemente vinculada ao imperialismo. Os desajustes na linha política do PCB ficaram evidenciados principalmente em sua insistência por uma revolução nacional democrático-burguesa, que seria uma etapa crucial para se chegar à revolução socialista. Visão etapista que foi criticada por Gorender e seu amigo de militância, Mário Alves, a quem dedica sua obra. Desde então, ainda como membros do PCB, acenavam para o caráter dúplice e conciliador da burguesia nacional.

Gorender reconhece que de 1963 a 1964, o país contou com uma situação pré-revolucionária. Naquele momento, um grande conjunto de forças sociais estava aglutinado em prol das reformas de base. Entretanto, a esquerda perdeu a chance histórica de se valer das forças populares para uma revolução. Fatores como a hegemonia da nada transparente liderança nacionalista burguesa, a fragmentação das diversas correntes de esquerda, a competição entre chefias personalistas, as insuficiências organizativas, os grosseiros erros acumulados, entre outros, tiraram o foco desse caminho.

A imensa fragmentação da esquerda, nas mais diversas siglas partidárias e de agrupamentos, valeu à obra de Gorender a necessidade de um considerável glossário de siglas. Por exemplo, da cisão do PCB, surge o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em 1962, que rompendo com a então União Soviética, acaba se aproximando do Partido Comunista da China.

Da crítica sistemática ao PCB também surgiu a Organização Revolucionária Marxista (1961), responsável pelo jornal Política Operária e, por isso, passando a ser conhecida como POLOP, uma organização fortemente crítica ao reformismo e ao nacionalismo e da qual também derivaram muitas outras organizações.

Do meio dos estudantes católicos surge a Ação Popular (AP), em 1962, que concebia a luta pelo socialismo a partir do movimento de massas. Sua vantagem em relação a outras organizações é que contava com uma forte presença em diversas entidades setoriais.

Fundado em 1953, o Partido Operário Revolucionário (Trotskista) - POR (T) defendia que a tarefa revolucionária era para o presente e não para o futuro.  No campo, as chamadas Ligas Camponesas foram as primeiras a defender o papel do campesinato na revolução socialista. Já o Partido Socialista Brasileiro (1947), na frente parlamentar nacionalista, era tido como reformista e moderado, e atuava pelas reformas de base. E, por fim, a figura de Leonel Brizola liderava o que se poderia chamar de corrente nacionalista pequeno-burguês.

Quando veio o golpe, interrompeu-se o que Gorender considera “uma fase de excepcional florescimento da cultura brasileira”. As massas eram politizadas, com iniciativas de cultura popular, alfabetização de adultos, desenvolvimento da música popular, teatro e literatura, etc.

Perdida a chance histórica da revolução pela esquerda, nas vésperas do golpe, por fatores já aqui demonstrados, Gorender considera que a luta armada da esquerda brasileira nos anos subsequentes será uma violência retardada, ou seja, não travada em março-abril de 1964 contra o golpe militar direitista, portanto, perdendo as condições históricas a seu favor.

Diferente da ideia de um partido fascista, o regime político (1964-1985) instalado no Brasil passa a ser marcado pelo comando ostensivo do Estado pelas Forças Armadas. Tem-se, assim, uma instituição estatal permanente e detentora do exercício superior da coerção monopolizando o Estado.

O engodo do populismo, enfim, havia sido desmascarado. Para Octavio Ianni, em “O colapso do populismo no Brasil”, a esquerda não havia praticado uma “política de classes”, mas, sim, uma “política de massas”, própria do populismo e integrada a uma proposta de reformas do capitalismo subdesenvolvido. A partir do golpe, a esquerda passou a criticar de vez a ilusão do caminho pacífico para a revolução, sendo muito influenciada pelas vitórias das revoluções cubana (1959) e argelina (1954-1962), pela guerra travada pelo Vietnã contra os Estados Unidos (1955-1975) e pela Revolução Cultural Chinesa. Nesse contexto, ganha vulto uma forte proliferação de siglas advenientes de antecedentes partidários e doutrinários, as influências teóricas de origem nacional e internacional, pressões de países socialistas, limitações regionais, etc.

As ações de luta armada, no seio da esquerda, serão fortemente influenciadas pela teoria oficial da Revolução Cubana: o chamado foquismo. Seu ponto de partida era a afirmação de que a América Latina vivia condições objetivas amadurecidas para um triunfo revolucionário em seus países. Assim como em Cuba, acreditava-se na possibilidade de que um punhado de homens entre os camponeses, em uma região apropriada para se defender contra os ataques do Exército, poderia fazer acontecer a revolução. Assim, o foquismo apresentava a ideia da primazia do fator militar sobre o fator político, da prioridade do foco guerrilheiro sobre o partido. Gorender enxerga na ideia de que a revolução cubana se iniciou do nada, a partir do zero, o mito do movimento revolucionário mundial naqueles anos.

Tais perspectivas revolucionárias influenciarão fortemente na constituição de organizações esquerdistas militaristas, que passam a adotar formas de luta e de propaganda armada, desprezando as formas de luta de massas. Expulsos do PCB, Carlos Marighella e Câmara Ferreira passam a ser a principal força de uma nova organização de esquerda chamada Ação Libertadora Nacional (ALN), em 1967. Os princípios norteadores da ALN defendiam a ação por si mesma como responsável pelo desenvolvimento da organização. “Ação significa violência revolucionária, luta armada, guerrilha. A ação cria tudo do nada, do zero”. A ALN passa a ser a organização preferencial das lideranças cubanas, que passa a treinar seus efetivos.

Jacob Gorender, também expulso do PCB, junto com outros companheiros, entre eles Mário Alves, fundou o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), em 1968. Tal partido se esforçou para relacionar a tradição doutrinária marxista com a forte pressão pela luta armada imediata e incondicionada proveniente dos grupos de esquerda. O PCBR apregoava que a revolução não poderia ser democrático-burguesa, mas, sim, popular. A grande questão para o PCBR era saber como conjugar a luta armada com o ritmo próprio das lutas de massas.

O PCdoB, vendo o recrudescimento das manifestações de massa nas grandes cidades, desafiou-se na organização dos movimentos armados no campo. Dele se aproximaria, nesses anos, a AP, que também passa a assimilar o maoísmo em suas diretrizes. O Partido Comunista Chinês dava ao PCdoB o status de partido comunista, ao passo que considerava a AP como uma organização antiimperialista.

Já o POR (T) recusou a luta armada imediata como resposta válida à ditadura militar, uma vez que em sua leitura, por faltar ao regime militar base social, a luta de massas poderia derrubá-lo. No chamado Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), agruparam-se adeptos de Brizola, sargentos, cabos e marinheiros excluídos das Forças Armadas, junto com antigos militantes das campanhas anti-imperialistas do pré-golpe. Ainda nesta grande irrupção de siglas de esquerda, surgiriam outras como o Comando de Libertação Nacional (COLINA) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), dissidentes da POLOP, etc. Também da fusão das mesmas nasce a chamada Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR – Palmares).

O forte fechamento da ditadura abateu-se sobre todas as formas de organização das massas, principalmente contra os sindicatos e estudantes. Atentados de autoria oculta, perpetrados pelo próprio Regime Militar, com a finalidade de incriminar aqueles que se rebelavam contra o regime, tornaram-se fato a partir de 1968. Só viriam a desaparecer em 1975, quando já estava oficializado o terrorismo de direita por meio do terrorismo de Estado, diretamente praticado pelas organizações militares institucionais.

Para esse endurecimento da repressão, no dia 29 de junho de 1969, fundou-se a Operação Bandeirantes (OBAN), de caráter extralegal, contando com a ajuda financeira de empresas brasileiras e multinacionais. Em 1970, o presidente Médici (1969-1974) integra a OBAN ao organograma legal sob a denominação de Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna do II Exército (DOI/CODI). Dirigida pelo major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, essa instituição sistematizou as operações de investigação, captura, interrogatório, análise de interrogatórios, fichário, cruzamento de informações, etc., sendo expandida para outros estados. Também ganha papel central a polícia política do famoso delegado Sérgio Paranhos Fleury, um assassino profissional, do esquadrão da morte, apoiado pelo Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), passando a ser delegado em um Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), em São Paulo.

Fortemente perseguidos, vivendo na total clandestinidade, nos chamados aparelhos, um dos grandes erros dos dirigentes revolucionários foi considerar que a justeza de sua causa, seus feitos e a propagação dos mesmos lhes garantiam o apoio das massas oprimidas. Além da não concretização dessa crença, também jogava contra eles o chamado “milagre brasileiro”, proveniente das altas taxas de crescimento do período de 1968-1974, que melhorou as condições de emprego para os setores de classe média e deu novo alento para os setores operários.

Fato de destaque na trajetória da esquerda armada foi o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Ellbrick, no dia 4 de setembro de 1969, somente liberado em troca da libertação de quinze presos políticos pelo regime militar. Contudo, a morte de Marighella, em novembro de 1969, deixaria uma profunda marca na esquerda. Nesse ponto, Gorender faz questão de se opor à teoria difundida por Frei Betto, que defende a teoria de que a CIA já havia se infiltrado na ALN e que o regime militar envolveu os freis dominicanos na emboscada contra Marighella apenas para comprometer a Igreja e a Ordem dos Dominicanos com o movimento subversivo.

Também foi muito duro para Gorender a morte de Mário Alves, em 1970, um amigo a quem sempre muito estimou. Ele já discordava do companheiro nas últimas conversas, pois Mário se mantinha otimista com as possibilidades da luta armada, ao passo que ele “manifestava objeções às formas que ela assumia, tendentes a distanciar cada vez mais a esquerda do apoio das massas”. Gorender alerta que a própria morte de Marighella já era um indício de que a esquerda armada sofria fortes baixas e que precisava parar os assaltos e atentados, caso quisesse evitar o desastre total.

Nesse período, o guerrilheiro urbano tinha vida ativa breve, em torno de um ano, chegando a ser preso com vida ou morrendo na luta. A Ala Vermelha, dissidência do PCdoB, foi o primeiro agrupamento a reconhecer em sua resolução intitulada Autocrítica, 1967-1974, o erro de ter feito da opção pela luta armada imediata a resposta oposta ao reformismo pacifista do PCB.

A guerrilha urbana deveria ser uma espécie de preparação para a guerrilha rural, mas, exceto o PCdoB, com sua experiência às margens esquerda do rio Araguaia, no Pará, a partir de 1967, nenhuma outra organização efetivamente chegou aos propósitos iniciais. O caso do Araguaia foi guardado em sigilo pelas Forças Armadas, temerosas de que esse tipo de ação pudesse despertar outras. Somente a partir de 1978 é que alguns meios de comunicação começam a recuperar sua história.

Para Gorender o drama do prisioneiro político é saber “que vai entregar companheiros aos tormentos e talvez à morte, se ceder informações exigidas. Estão em causa sua pessoa, seus companheiros, seu partido, a razão de sua luta” (p. 215). Aqui, Gorender nos apresenta alguns depoimentos pessoais. Primeiro, não participou de nenhuma ação armada. Segundo, nunca abandonou o país pedindo refúgio no exterior, pois não se eximiu de “pagar o mesmo preço que os companheiros estavam pagando” (p. 216). Terceiro, preso e torturado, dele nada tiraram que pudesse comprometer companheiros. Contudo, todos esses fatos não tira a humildade de Gorender, que também reconhece seus momentos de temor e desespero. De forma calculada e deliberada, o único ato incriminador que assumiu foi afirmar ser participante na fundação do PCBR.

Diante da verdadeira operação de guerra interna contra as organizações de esquerda, esta não foi vítima passiva. Nas palavras de Gorender: “Organizações de esquerda praticaram atos [...] sem subterfúgios: atentados a bombas e armas de fogo, assaltos a bancos, sequestros de diplomatas e de aviões, matança de vigilantes, policiais e elementos das Forças Armadas, justiçamento de inimigos, guerrilha urbana e rural” (p. 235). Contudo, é preciso ter claro que a violência original é a do opressor. A violência do oprimido veio como resposta a uma violência extremada da ditadura militar. Os justiçamentos, execução capital como ato de justiça revolucionária, só vão ocorrer a partir de 1971, quando tais organizações se encontram cada vez mais sufocadas pelo regime repressor.

Com sua obra, Gorender deixa para a história da esquerda brasileira um legado imprescindível, que certamente deve ser lido e analisado criticamente, pois a ousadia e a coragem de pessoas que foram torturadas ou morreram em prol de seus ideais, conjugadas com seus erros e imperfeições abrem brechas para que, atualmente, novos caminhos sejam trilhados, referendados naquilo que não deve ser e naquilo que a esquerda deve fazer em prol de uma nova sociedade, de um novo mundo.
 
Referência

GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. São Paulo: Ática, 1987.

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