O Sínodo é um esforço para restaurar a confiança e caminhar com o povo. Entrevista com o presidente da Conferência dos Bispos dos EUA

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13 Outubro 2014

O arcebispo norte-americano que representa os católicos dos Estados Unidos no encontro mundial de bispos sobre questões familiares, no Vaticano, disse que espera que o evento possa ajudar a apoiar a instituição do casamento e transmitir "a beleza dos ensinamentos de Jesus".

josephkurtzEm entrevista ao NCR, o presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, arcebispo Joseph Kurtz (foto), disse que foi para a reunião, conhecida como sínodo, "com o profundo desejo de restaurar a confiança do povo".

A reportagem é de Joshua J. McElwee, publicada no sítio National Catholic Reporter, 09-10-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

"Muitas pessoas me disseram: 'Nós não temos confiança. Estamos lendo essas estatísticas, elas estão nos dizendo que as nossas chances não são boas de ter um casamento frutífero", disse Kurtz, que está à frente da arquidiocese de Louisville no Kentucky.

"E as pessoas não querem ficar à mercê de uma estatística", continuou ele. "Elas não querem ser uma estatística".

O sínodo, o primeiro dos dois convocados pelo Papa Francisco para 2014 e 2015, sobre as questões da vida familiar, está sendo realizado de 5 a 19 de outubro e dele participam cerca de 190 prelados do mundo todo. Kurtz é um dos quatro norte-americanos no grupo, juntamente com os cardeais Raymond Burke, Timothy Dolan e Donald Wuerl.

Ao contrário de sínodos anteriores, os textos das intervençõees dos prelados não estão sendo divulgados. Delineando alguns dos temas do Sínodo até agora, Kurtz disse que os bispos estão à procura de "novas maneiras de transmitir a doutrina consagrada ao longo do tempo" pela Igreja.

Referindo-se ao tema do "gradualismo" - o conceito de que os católicos podem, por vezes, crescer em direção à adesão da doutrina da Igreja ao longo de suas vidas - mencionado nas coletivas de imprensa como um tema que vários prelados têm utilizado em suas palestras - Kurtz disse que algumas pessoas "desejam afastar-se do que é destrutivo em suas vidas, mas elas precisam de assistência, ajuda e paciência".

"Estamos todos de acordo sobre o que é certo ou errado", continuou ele. "A questão é como acompanhar, como faz um bom pastor, as pessoas enquanto elas adotam e fazem do dom do gradualismo um bom hábito?".

O arcebispo também disse que usar essa noção "não quer dizer, 'está tudo bem comigo e está tudo bem com você'".

Dizendo isso, continuou: "realmente é uma distorção do chamado de Jesus: 'convertei-vos e crede no evangelho'".

"Toda vez que recebo as cinzas, lembro-me que sou chamado ao arrependimento", disse Kurtz. "Mas é um chamado feito a cada um de nós em conjunto na Igreja. Portanto, há uma certa humildade nesse Sínodo".

Entre outros temas, Kurtz mencionou em sua entrevista:
• Um desejo entre os bispos para falar de forma positiva e de encontrar "formas pelas quais nós não humilhemos as pessoas";
• Ajudar as pessoas a "entender e apreciar os ensinamentos da Igreja";
• A proposta de Francisco para "olhar onde a graça de Deus, a graça de Cristo, já está viva e move os corações".

Kutz falou ao NCR no Pontifício Colégio Norte-Americano, o seminário dos Estados Unidos em Roma. A seguir, publicamos a entrevista de 15 minutos, editada levemente para o contexto.

Eis a entrevista.

Como é estar no Sínodo? O que está acontecendo?

Esse é o meu segundo Sínodo. E por isso é perigoso quando eu começo a comparar os sínodos, quando houve tantos deles, na verdade, 15 sínodos.

No entanto, posso dizer apenas isso como uma forma de reclamação: minha ideia de ar condicionado e a do resto do mundo nem é sempre a mesma. Então, eu estou ciente disso - que a sala pode ficar um pouco abafada.

Fora isso, o Santo Padre chega cedo e cumprimenta as pessoas. Começamos com uma bela oração e terminamos com uma oração. Eles conseguiram organizar algo muito interessante, eu acho que você está lendo a respeito: aqueles testemunhos de casais. E é excelente poder ser capaz de refletir e ouvir os testemunhos de casais. Eles têm bons tradutores, então eu consigo ouvir muito bem em todas as línguas, e isso faz com que seja muito bom.

Eu acho que tem sido muito bom. Eu me preocupo [que], porque tivemos três semanas da última vez, que pode levar-nos um tempão para chegarmos a algum ponto, mas acho que ele está progredindo bem. Você leu, eu tenho certeza, a apresentação inicial do cardeal [Pedro] Erdö a partir da qual estamos baseando muito a nossa conversa.

E eu acho que o cardeal [Lorenzo] Baldisseri colocou muito bem, que as conversas dessa semana vão ajudar o cardeal Erdö e esse pequeno grupo que o auxilia na preparação de um documento ainda mais refinado que vamos usar em nossos pequenos grupos.

Da última vez, eu gostei muito do trabalho de "arregaçar as mangas" realizado nos pequenos grupos. Eu estava em um grupo de língua inglesa. Fui eleito o relator naquela época, o que significa ser o secretário, e eu gostei disso. Eu não vou me candidatar dessa vez - eu não me candidatei daquela vez também - mas eu estou ansioso por isso.

Existem certos temas que o senhor está ouvindo como sendo recorrentes?

Claro, você tende a refletir sobre as coisas baseado no que você está buscando - eu sou o primeiro a admitir isso. Eu vim com algumas esperanças. Eu vim com o profundo desejo de restaurar a confiança das pessoas. Muitas pessoas já me disseram: "Nós não temos confiança. Estamos lendo essas estatísticas, elas estão nos dizendo que as nossas chances não são boas de ter um casamento frutífero".

E as pessoas não querem ficar à mercê de uma estatística. Eles não querem ser uma estatística. Estou percebendo que é sobre confiança que as pessoas estão falando. Eu também estou ouvindo muito sobre a beleza dos ensinamentos de Jesus que precisa ser transmitida. E como em todas as épocas, estamos sempre à procura de novas maneiras de transmitir a doutrina consagrada ao longo do tempo, e que vai ser uma das tarefas a serem propostas.

Eu acho que vamos ver isso com o desenrolar do tempo. E nós vamos ter um ano inteiro para poder fazer isso. Mas eu acho que, de certa forma, a Igreja já não fez isso? Eu falo de São Tomás de Aquino e da filosofia escolástica, olhando para trás, na Idade Média, em novas formas de apresentar os ensinamentos fundamentais de Jesus e os ensinamentos de nossa Igreja.

Isso é o que eu estou esperando acontecer. Há conversas - na verdade, eu fui um dos que falou - conversas sobre a necessidade de propor palavras positivas para os ensinamentos de Nosso Senhor e realmente começar a partir da beleza do "sim" da criação e do plano de Deus para cada pessoa em suas vidas - e a beleza de um homem e uma mulher no matrimônio, o dom da amizade, o fato de que cada ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus. Essas são as crenças centrais sobre as quais não há desejo da parte de ninguém de mudar.

Tem se falado muito sobre a indissolubilidade do matrimônio. Eu diria que a outra palavra que tem se usado muito, uma palavra que o Santo Padre tem usado muito, é "acompanhar", acompanhar as pessoas. Essa é a minha palavra, mas eu a vi também na apresentação do cardeal Erdö - ele falou sobre peregrinação. E um dos delegados, quando ele estava dando a sua apresentação disse: "Você sabem, nós não temos tanta necessidade de explicar, mas sim de mostrar".

Eu logo pensei que é isso que os pais fazem. Os pais falam sobre mostrar às pessoas - seus filhos ou seus vizinhos - as coisas, não apenas explicando de uma forma racional. Eu gostei da ideia. Acho que isso dá lugar à noção de ser um testemunho autêntico.

Em Louisville, nós continuamos tentando desenvolver programas de tutoria para casais, não só enquanto eles se preparam para o casamento, mas na forma de acompanhá-los ao longo de seu caminho. E eu gosto do fato de que o cardeal Erdö tenha usado a palavra "peregrinação"; isso é algo que atrai as pessoas.

Um tema que foi mencionado tanto pelo cardeal Vincent Nichols e depois pelo arcebispo Victor Fernández foi o da "gradualidade". O que isso significa para o senhor?

Bem, o meu entendimento disso vem a partir da Familiaris consortio. O Papa João Paulo II, quando ele reafirmou, obviamente, os ensinamentos da Igreja, ele disse: "Como bons pastores, nós acompanhamos as pessoas". Ele também tinha essa noção.

Ele disse, como falaria um bom pastor, que há pessoas que desejam converter-se. Elas desejam afastar-se do que é destrutivo em suas vidas, mas elas precisam de assistência, ajuda e paciência.

E eu acho que esse é o meu entendimento, que o princípio, se quiser, ou a direção da gradualidade, é dizer que não há gradualidade em termos de doutrina ou em termos de princípios morais.

Estamos todos de acordo sobre o que é certo ou errado. A questão é como acompanhar, como faz um bom pastor, as pessoas enquanto elas adotam e fazem do dom do gradualismo um bom hábito?

Você sabe onde mais isso aparece? Lembrei-me disto: existe o vade mecum - é como uma espécie de manual - em 1997, havia um manual para os sacerdotes que eram confessores, e as regras estavam todas lá. Nele, era mencionado que, quando alguém chega até você, especialmente quem tem um hábito que é muito difícil de mudar, você conduz essa pessoa no processo de conversão para uma compreensão mais profunda da luz de Cristo - e, em certo sentido, a uma maior confiança.

Eu tenho dito que nós vivemos em uma sociedade muito viciante, e o vício, por sua própria natureza, significa habituação. E quando você forma esse hábito é difícil deixá-lo.

Eu acho que o outro lado disso é que a conversão faz parte da peregrinação a qual pedimos às pessoas que nos acompanhem. Quando eu vou confessar, durante o sacramento da reconciliação, eu sempre digo aos penitentes: "Eu confessei-me recentemente". Essa noção de que eu caminho junto é uma grande parte do que estamos falando. Nós não estamos posicionados à distância apontando o dedo para alguém, mas nós estamos dizendo: "Ande com a gente".

Não é isso que Jesus fez nos Evangelhos?

Os relatórios dos porta-vozes que estão no sínodo dizem que uma coisa que os bispos falaram é de abster-se de usar uma linguagem dura. Em particular, eles mencionaram as frases "viver em pecado" e "intrinsecamente desordenado".

O que é interessante é que eu acho que a Familiaris consortio não usa o termo "viver em pecado". Eu acho que existem maneiras positivas de nós não humilharmos as pessoas. Eu não quero ser humilhado. Em outras palavras, se eu for à confissão, eu quero alguém que me acolha.

Fazer isso não nega a realidade do pecado e da destruição do pecado. A maioria das pessoas - vamos voltar ao exemplo que usamos sobre os vícios. As pessoas que são viciadas sabem bem disso. Mas, em muitos aspectos, acho que a linguagem positiva é uma forma de permitir que alguém ande na estrada da conversão.

Não quer dizer, "Está tudo bem comigo e está tudo bem com você". Em outras palavras, "Eu não tenho que mudar, você não tem que mudar", que realmente é uma distorção do chamado de Jesus: "Convertei-vos e crede no evangelho".

Toda vez que recebo as cinzas, lembro-me de que sou chamado ao arrependimento. Mas é um convite feito a cada um de nós em conjunto na Igreja. Portanto, há uma certa humildade nesse Sínodo.

Estou curioso, particularmente sobre esse assunto: como o senhor vai levar isso para a Igreja dos Estados Unidos quando for de volta?

Será que isso está tão ausente? Vou lhe contar uma pequena história. Temos um conselho de sacerdotes, que se reúne a cada mês. E uma das melhores reuniões com o conselho dos padres que eu já tive aconteceu logo após o último sínodo. Eu voltei e disse aos sacerdotes: "O que significa ter um coração pastoral?".

E eu fiquei encantado com os exemplos que os padres começaram a dar um depois do outro. Nós não fazemos isso o suficiente. Nós não suscitamos as pessoas a falar sobre o seu coração pastoral e como elas já estão indo ao encontro dos outros.

Assim, "levar de volta" é um termo um pouco forte. Eu acho que vou voltar e talvez reconhecer e celebrar as coisas que já estão acontecendo. Duas semanas atrás, encontrei-me com um grupo de casais que são mentores de outros casais - casais que se reunem com as pessoas que estão se preparando para casar - e eles tentam acompanhar os casais - e o que me surpreendeu foi que havia alguns que estavam fazendo isso há 20 anos.

Esses são os tipos de ministérios que estão na Igreja que precisamos reconhecer e destacar, e precisamos preparar as pessoas que estão nesses ministérios para entender a plenitude dos ensinamentos da Igreja e sobre o que significa ter um coração pastoral.

É permitir que eles compreendam e apreciem os ensinamentos da Igreja, para que à medida que eles mostram isso aos outros, possam conduzi-los à plenitude da verdade de Cristo.

Se estou recordando o cronograma corretamente, no final da semana, no sínodo, os senhores vão começar a trabalhar em pequenos grupos. Enquanto o processo avança, quais são as suas expectativas? Como a coisa vai parar no papel?

Bem, a tinta já está no papel. O documento, que foi apresentado pelo cardeal Erdö é o documento fundamental a partir do qual nós trabalhamos. E esse documento será revisto esta semana, e será esse documento revisado que então se tornará o trabalho dos pequenos grupos.

No final desses pequenos grupos, haverá uma nova revisão, pelo menos é assim que eu entendo. E então algum ato de colegialidade entre os delegados vai acontecer para apoiar esse documento que vai para a frente como foi, em certo sentido, o documento inicial, conhecido como Lineamenta, para o próximo Sínodo.

O meu entendimento é que, no passado, teríamos proposições a serem votadas, dessa vez, não teremos. Será a Lineamenta; ela vai para a frente. Haverá níveis de consulta. Eu estou animado a respeito disso.

Obviamente, nós estamos olhando não apenas para essa semana, mas também para mais um ano de preparativos para o próximo Sínodo. Neste momento, o que o senhor está esperando a mais de todo este processo?

Bem, lembre-se de Marshall McLuhan sobre "o meio é a mensagem". De certa forma, se esta é uma peregrinação, então o trabalho do Sínodo já começou. A fecundidade do Sínodo já pode acontecer.

Só o fato de você e eu conversarmos sobre o que já se destaca e o que já está acontecendo nos Estados Unidos. Há algumas coisas maravilhosas. Dei uma palestra em Cincinnati, pouco antes de eu vir para cá, para cerca de 650 pessoas que estão envolvidas com a teologia do corpo, e esses são jovens muito vivos e com o fogo do Espírito.

Eu não estou descontando o fato de que há muito mais jovens do que 650 no mundo, mas por isso mesmo, acho que a mensagem do Sínodo é um princípio bom do trabalho social: construir sobre o bem que você já tem e olhar para o que já está acontecendo.

Olhe para onde a graça de Deus, a graça de Cristo, já está viva e move os corações. E aumente isso. E eu acho que essa é a mensagem do Papa Francisco, não é?

A de aumentar o bem que nós temos?
Exatamente.

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