Sínodo sobre a família: a Igreja em trabalho e em labuta. Artigo de Giacomo Costa

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10 Outubro 2014

A densidade de significado humano e cristão das sínteses tradicionais em matéria familiar precisa se confrontar profundamente com essas novidades, a fim de conseguir repropor de modo adequado toda a sua própria riqueza. A sua simples repetição, de fato, está condenada a torná-las progressivamente insignificantes.

A análise é do jesuíta Giacomo Costa, diretor da revista Aggiornamenti Sociali e presidente da Fundação Cultural San Fedele. O artigo foi publicado na edição de agosto-setembro de 2014 da mesma revista. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 5 de outubro, abriram-se os trabalhos da III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos, dedicada ao tema "Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização". Trata-se de um evento de grande importância para toda a Igreja, que está fazendo um longo percurso de reflexão sobre um assunto ao qual, desde o início do pontificado, o Papa Francisco declarou que queria dedicar uma atenção prioritária.

Em vista dessa Assembleia, no dia 26 de junho passado, foi publicado o relativo Instrumentum laboris, um documento articulado e pesado, cujo gênero literário consegue expressar plenamente a magnitude do que está em jogo: de fato, labor, em latim, não significa apenas trabalho, mas também esforço, fadiga, labuta, assim como zelo, operosidade, diligência, empreendimento.

Tal riqueza semântica transmite bem o porte do investimento que a Igreja está fazendo e também a complexidade do desafio que ela irá enfrentar: construir – segundo a vontade do próprio Papa Francisco – um percurso compartilhado (esse é o significado etimológico do termo sínodo) sobre um tema crucial que, a partir de um olhar de misericórdia e "longe de qualquer moralismo, confirma e descerra horizontes na vida cristã, independentemente dos limites que pudemos experimentar e dos pecados que tivermos cometido" (Instrumentum laboris, Premissa).

A Assembleia e o Instrumentum, de fato, fazem parte de um percurso que começou há um ano com a predisposição de um Documento preparatório, divulgado em novembro de 2013 (disponível em www.vatican.va), que terminava com um questionário de 38 perguntas sobre os temas do matrimônio e da família, voltadas a todas as Conferências Episcopais do mundo, para favorecer uma ampla consulta também da "base" da Igreja.

Como muitos assinalaram, trata-se de uma novidade que concretiza a ideia de Papa Francesco de uma real sinodalidade do processo com que a Igreja toma as decisões, na consciência de que "dar espaço à escuta também significa correr riscos", como lembrou o secretário especial do Sínodo, Dom Bruno Forte (www.lavoce.it/per-il-sinodo-sulla-famiglia-2014-2015-si-richiede-il-parere-ditutti); ele mesmo especifica que o método desse percurso "não é decidir por maioria. Mas certamente ignorar que uma grande parte consistente da opinião pública tem uma demanda seria equivocado".

A segunda etapa desse percurso foi o Consistório de 20 de fevereiro de 2014, durante o qual o discurso feito pelo cardeal Walter Kasper (publicado sob o título Il Vangelo della famiglia, Bréscia: Queriniana, 2014) foi objeto de acesos, para não dizer ásperos, debates, que ofereceram um "aperitivo" das dificuldades internas que esperam pela Igreja todas as vezes em que ela decide abordar esses temas.

A terceira etapa será, portanto, a Assembleia Geral Extraordinária deste outubro, convocada para avaliar e aprofundar as respostas dadas pelas Igrejas particulares ao questionário enviado um ano antes e recolhidas no Instrumentum laboris, em que foram justapostas posições até mesmo muito diferentes sobre pontos específicos individuais, como é lógico de se esperar de um texto que se apresenta como instrumento para um posterior trabalho de aprofundamento e discernimento.

A tarefa da Assembleia de outubro não é, portanto, elaborar propostas concretas, nem se limitar a reiterar a doutrina oficial, mas sim elaborar uma síntese equilibrada dos desafios que a Igreja tem pela frente em relação ao tema da família, depois de ouvir a vida concreta dos fiéis de todo o mundo. Os frutos desse trabalho, depois, serão retomados em chave pastoral pela Assembleia Geral Ordinária do Sínodo, prevista para outubro de 2015, com o título "Jesus Cristo revela o mistério e a vocação da família", quarta etapa de um percurso que só vai se concluir com a exortação pós-sinodal do Papa Francisco, que não será divulgada antes de 2016.

Quase se poderia dizer que está em andamento em uma espécie de "mini-Concílio", uma definição certamente apropriada em relação à delicadeza e à importância do tema, mesmo que nem sempre a mídia e a opinião pública pareçam ter consciência da importância e da especificidade das etapas individuais.

Através de uma leitura do Instrumentum laboris, atenta mais às perspectivas de fundo do que às questões específicas abordadas – sobre as quais o documento não tem medo de deixar emergir as tensões e as contradições que a Igreja universal vive hoje no seu próprio interior –, propomos algumas reflexões que evidenciam a importância do caminho empreendido. O desafio é se concentrar no verdadeiro labor: à luz da fé de sempre, dar voz a uma nova compreensão da realidade da vida conjugal e familiar, que saiba ser boa notícia e motivo de alegria para as mulheres e para os homens do nosso mundo e do nosso tempo.

Um labor em vários níveis

O último documento da Igreja universal sobre a família é a exortação apostólica Familiaris consortio, de João Paulo II, que remonta há 33 anos e é fruto do Sínodo Ordinário de 1980 Algumas das problemáticas abordadas pelo Instrumentum laboris já estavam sobre a mesa da época: o papel da mulher, o controle de natalidade, os casais de fato, os divorciados em segunda união, as relações sexuais pré-matrimoniais e fora do matrimônio. Outras emergiram mais recentemente e, provavelmente por isso, despertam contraposições ainda mais acesas: reprodução assistida, casais homossexuais, poligamia.

Ao lado desses problemas, que pertencem ao âmbito, por assim dizer, "clássico" da moral sexual e conjugal, não se podem ignorar os efeitos sobre a família das dinâmicas sociais: migrações, empobrecimento, flexibilidade e precariedade do trabalho crescentes, mudanças demográficas etc.

Essas problemáticas tão díspares estão ligadas entre si por uma questão de fundo: as mudanças em curso na sociedade permitem e às vezes obrigam as pessoas a experimentarem a vida conjugal e familiar com modalidades novas, interrogando em profundidade as sínteses tradicionais que, dessas experiências, expressavam o significado antropológico de fundo.

Por exemplo, a queda dos nascimentos e o envelhecimento da população inverteram as relações, até mesmo numéricas, entre jovens (antigamente numerosos) e idosos dentro das famílias; a contracepção permite a cisão entre sexualidade e generatividade; a reprodução assistida rompe a identidade entre "gerar" e "ser genitor"; as famílias "reconstituídas" trazem à existência laços e papéis parentais para os quais não dispomos nem mesmo de um léxico, enquanto o tema dos casais de fato, nas suas diversas facetas, repropõe de vários modos a questão da institucionalização social das relações de casal.

A densidade de significado humano e cristão das sínteses tradicionais em matéria familiar precisa se confrontar profundamente com essas novidades, a fim de conseguir repropor de modo adequado toda a sua própria riqueza. A sua simples repetição, de fato, está condenada a torná-las progressivamente insignificantes.

Uma novidade fundamental que emerge do Instrumentum laboris é precisamente a consciência da necessidade para a Igreja de se pôr em discussão, sem se limitar a estigmatizar os males da sociedade contemporânea; como já lembrava o cardeal Kasper: "A Igreja, que compartilha as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens (Gaudium et spes, n. 1) é desafiada por essa situação" (Il Vangelo della famiglia, p. 8).

Trata-se claramente de uma retomada das dinâmicas do Concílio, em que, abordando a exigência de um "aggiornamento" [atualização] pastoral, descobriu-se que a dinâmica do "aggiornamento" é constitutiva da própria Igreja.

Pôr-se em discussão é sinal de vida e vitalidade, e abre à possibilidade de descobrir os lugares em que, mesmo nas dificuldades sociais, culturais e concretas que as famílias e os casais experimentam, o Espírito também hoje está em ação e disponibiliza os seus próprios sinais para o discernimento.

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Sínodo sobre a família: a Igreja em trabalho e em labuta. Artigo de Giacomo Costa - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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