Surpresa! Uma das questões sobre a família, na Igreja, é a poligamia

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12 Setembro 2014

Diga “questões de família” para a maioria dos americanos e europeus, e eles provavelmente irão associar com o divórcio ou com os desafios das famílias monoparentais, ou talvez com as relações homoafetivas e união matrimonial.

O que provavelmente não trarão é a questão da poligamia. No entanto, em muitas partes do mundo a poligamia é uma das principais características da vida familiar e, portanto, um grande desfio pastoral para a Igreja Católica.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 11-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

É provável que uma discussão sobre a poligamia venha à tona no Sínodo dos Bispos sobre a família a ocorrer no Vaticano entre os dias 5 e 19 de outubro. Este assunto poderá ser um fator importante no debate esperado a ser travado sobre se a proibição, imposta aos católicos divorciados e recasados, deve ser revisada.

O casamento poligâmico é muito praticado em várias regiões do mundo, em particular a África, o Oriente Médio e partes da Ásia.

Embora as estimativas variem, os sociólogos acreditam que dezenas de milhões de homens e mulheres, em todo o mundo, estejam envolvidos de alguma forma com casamentos poligâmicos. Por exemplo, no Senegal cerca de 47% dos casamentos envolvem múltiplos parceiros, segundo dados da ONU.

Frente a estas realidades, algumas igrejas na África tentaram incluir a poligamia dentro do entendimento cristão tradicional de casamento.

Em 1987, a 5ª Assembleia Geral da Conferência das Igrejas de Toda África, organismo protestante ecumênico, concluiu que “a atitude severa da igreja tem sido a causa dolorida porém real da desintegração de alguns casamentos e famílias, de certa forma, estáveis”.

Em 1988, a Conferência de Lambeth da Comunhão Anglicana decidiu admitir a poligamia sob certas circunstâncias, em resposta à pressão dos bispos do Quênia e de Uganda.

O catolicismo, no entanto, manteve-se firme. Falando para um congresso nos EUA em julho de 2007, o cardeal John Onaiyekan, de Abuja, Nigéria, disse sobre a poligamia: “A Igreja Católica é, neste particular, firme e consistente, não dando margem para dúvidas ou exceções”.

A posição firme da Igreja tem sido formatada não apenas na defesa da tradição, mas também pela impressão de que a poligamia é uma discriminação contra as mulheres. No fim da década de 1990, uma pesquisa sobre a teologia africana citou 23 teólogas católicas africanas que sustentam que as Escrituras não deveriam ser usadas para justificar o casamento poligâmico – visto serem a mutualidade e a equidade ideais bíblicos.

Por outro lado, alguns bispos e teólogos católicos apoiam uma maior flexibilidade pastoral na forma de lidar com as realidades complicadas da poligamia. O cardeal Peter Turkson, de Gana, apresentou este argumento no Sínodo dos Bispos no ano de 2005, no Vaticano.

“Não podemos dizer a um homem: deixe as outras esposas e fique só com a primeira”, disse Turkson. “Há uma questão de justiça. Não podemos pedir para que ele garanta a ela uma segurança permanente, criando um pequeno negócio para ela gerir, por exemplo”.

“Há também a necessidade das esposas por um parceiro sexual”, acrescentou. “Não podemos dizer a todo mundo para serem celibatários. (…) Não queremos expô-las a prostituição e assim por diante”.

Quando os cardeais de todo o mundo se encontraram em Roma em fevereiro em preparação para o Sínodo de outubro sobre a família, alguns prelados de culturas não ocidentais sugeriram que a poligamia poderia levá-los a se opor a qualquer mudança na proibição dos católicos divorciados e recasados de receberem os sacramentos.

O argumento era o seguinte: a Igreja Católica vem dizendo às pessoas envolvidas em casamentos poligâmicos que elas precisam mudar porque o casamento significa um homem e uma mulher, para a vida toda. Se a Igreja suavizar esta doutrina para os divorciados e recasados, ela poderá ser pressionada a fazer um acordo que incluía os polígamos também.

“Tivemos cardeais do Terceiro Mundo que se levantaram e disseram estar lidando com questões de poligamia, que eles não queriam ficar ouvindo sobre a questão do divórcio”, disse o cardeal Daniel DiNardo, de Houston, no Texas.

DiNardo parafraseou a mensagem de que “se tentarmos fazer algo nesse sentido, teremos consequências com a questão da poligamia”.

“Dizem que se a pessoa quer via à Igreja, então tem que escolher uma esposa”, disse DiNardo. “Se, de repente, mudarmos isso, as pessoas em casamentos poligâmicos não poderiam se perguntar: ‘Por que vocês não nos podem dar essa chance também?’”

O cardeal Vincent Nichols, de Westminster, Inglaterra, na época disse que era importante ouvir estas vozes.

“Pensar a Igreja apenas do ponto de vista europeu, a partir de nossas preocupações, não é ver a situação por inteiro”, declarou.

Nem todos os prelados africanos, no entanto, enxergam a poligamia como um impedimento para se repensar proibição da comunhão.

“Não creio que considerar a questão dos divorciados e recasados iria criar algum problema para o ministério na África”, falou Turkson em março de 2014, em entrevista ao The Boston Globe.

Pelo contrário, o religioso disse que espera ver do Sínodo dos Bispos uma ampliação do debate na Igreja que vá além do modelo ocidental, de uma família nuclear com pai e mãe, e trazer à discussão a experiência africana dos clãs.

“Para nós, ‘família’ muitas vezes significa relações estendidas dentro de um clã, compostas de várias unidades familiares menores juntas que dão apoio umas às outras e que estabelecem regras para a vida familiar”, disse.

Uma ênfase exclusiva nos problemas ocidentais tais como o divórcio e coabitação, sustentou Turkson, corre o risco de ignorar a África e sua realidade.

Independentemente do impacto que a poligamia tiver no debate sobre o divórcio, parece claro que este tema estará no ar quando os bispos falarem sobre as questões de família em outubro próximo.

Caso tudo isso soe estranho a alguns católicos na Europa e na América do Norte, considerem o debate como uma lição sobre as realidades de uma igreja global. Dois terços dos 1,2 bilhão de católicos no mundo vivem fora deste eixo, e as suas prioridades devem, cada vez mais, estabelecer a agenda mundial.

Noutras palavras, os ocidentais provavelmente precisarão se acostumar a ver o assunto poligamia nas listas das tarefas da Igreja sobre “questões de família”.

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