''Não sou cristão, mas o cristianismo é uma bússola para mim.'' Entrevista com Emmanuel Carrère

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02 Setembro 2014

"Quem foi Jesus, que rosto tinha, que características? Tudo o que se pode dizer é que a força das suas palavras, esse esplendor e essa evidência imediatamente identificáveis são tão diferentes do que se escrevia naquela época a ponto de tornar indiscutível a sua autenticidade", afirma o escritor francês.

A reportagem é de Sabine Audrerie e Bruno Bouvet, publicada no jornal La Croix, 28-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Depois de escrever Le Royaume (O Reino), você tem a sensação de ter definitivamente arquivado o "dossiê cristão" na sua vida?

Não, e não posso dizer em que ponto estarei em 20 anos, nem como verei este livro. Considerar que o dossiê esteja fechado seria presunçoso. Hoje, se certos fatos referidos me são lembrados, como os milagres de Jesus, a imaculada concepção etc., posso dizer: "Não acredito". Mas isso não me impede de me sentir muito próximo do mundo cristão, ao qual eu sinto constantemente a necessidade de me referir. Como uma bússola mais segura do que muitos outros valores, que me parece essencial e vital.

Como você abordou isso, trabalhando sete anos nesse livro?

Havia dois acessos para mim. De um lado, uma experiência pessoal estranha, a da minha fé passada, quase neurótica, que eu tinha vontade de ir ver mais de perto, ainda mais que eu tinha à disposição escritos que mostravam o meu estado de espírito daquele período, que tornavam ainda mais inquietante aquela tentativa de reconstituição em que eu pensava há muito tempo. E, de outro, havia o desejo de um relato sobre o modo pelo qual é possível que os Evangelhos tenham sido escritos. Eu queria tentar compreender aquele momento histórico, como nasceu essa história em que todos nós estamos envolvidos, quer sejamos felizes ou não. Eu tinha essa ideia em mente há muito tempo, até há 20 anos, quando escrevera a biografia de Philip K. Dick.

Esse livro o envolveu mais do que os anteriores?

Eu tenho a impressão de que cheguei ao que eu aspirava confusamente há cerca de 15 anos: falar, a partir de mim, de algo diferente de mim e encontrar pouco a pouco uma forma hesitante em que eu me encontro.

Um ponto muito importante de Le Royaume fala do medo de São Paulo de perder a fé, e você conta isso como um espelho das suas inquietações e incertezas pessoais.

Com efeito, é preciso dizer algo que seja ao mesmo tempo sedutor e inquietante: se eu não sou mais o mesmo que tinha a fé há 20 anos, o que me diz que as minhas opções presentes não serão totalmente invalidadas em 20 anos? A frase de Paulo que escreve aos Gálatas é significativa! Ele lhes diz: "Mesmo que eu tenha vindo aqui para dizer uma coisa diferente daquilo que eu lhes disse, não deverão acreditar em mim". É uma frase de uma força e de uma inquietação terrível, que, a meu ver, não tem equivalente no pensamento antigo.

O seu amigo Hervé, então, lhe diz: "É de você que você fala".

Sim, e eu concordo. No entanto, não me vejo voltando a ser aquele jovem muito voluntariamente devoto que eu pude ser em um dado momento. É inquietante esse sentimento de instabilidade, daquilo que se é, daquilo que se sente e daquilo que se pensa. É muito difícil concluir. Não há uma síntese possível.

Há 20 anos, você escrevia: "Acredito que Cristo seja a Verdade e a Vida". O que você pode me dizer sobre a sua busca pela verdade?

Sim, Jesus diz: "Eu sou a Verdade e a Vida". Platão diz: "O que é a verdade?". Há também a frase de Kafka, da qual eu não conheço exatamente a proveniência: "Embora eu seja muito ignorante, a verdade existe, no entanto". Eu continuo pensando que o fato de que não tenhamos acesso não descarta que existe uma verdade.

Por que você escolheu Lucas e Paulo como guias? O que lhe atraiu para essas duas figuras?

Eu parti da ideia de não ir diretamente aos Evangelhos, mas aos evangelistas, de deter-me nos escritores que os produziram. Lucas tinha a vantagem de ter escrito os Atos, que é um livro de história, um cronista, e esse aspecto me agradava muito. Além disso, Lucas vem de fora e se dirige a leitores externos, posição na qual eu também me sinto. Tentar imaginar quem era esse homem, ao qual se deve um grande número de escritos do Novo Testamento, era algo muito estimulante. Ele tem achados de romancista e de organizador extraordinários, criações literárias magníficas, como os evangelhos da infância, ou a história do filho pródigo.

Com Lucas, você traça um paralelo, uma cumplicidade, de escritores...

É verdade que eu fiz um Lucas um pouco "à minha imagem". Eu tinha a impressão de conhecer esse Lucas bastante bem, de me sentir perto dele, de poder falar com ele. Parecem-me plausíveis as hipóteses de que ele escreveu cartas atribuídas a outros no Novo Testamento. Mas, quando se trata de chegar ao cerne da questão, isto é, à figura de Cristo, eu, como retratista, me rendo e prefiro delegar a minha confusão ao outro retratista que é Lucas.

E Paulo?

Paulo, ao contrário de Lucas, é um grande herói de romance. É uma figura grandiosa. E, acima de tudo, dispomos das suas cartas, dos escritos de uma pessoa que se expressa em sentido absolutamente moderno, como poderia fazer Montaigne, uma personalidade com um relevo inédito para melhor e às vezes para pior, que pode ser odioso na grandeza. Fiquei contente de ter tanto Paulo quanto Lucas, uma dupla, o herói e o biógrafo. Como Sherlock Holmes e Watson: funciona porque existem ambos.

Ao contrário, Jesus está pouco presente...

Eu teria sido incapaz de fazer um conto romancesco, como existem, e de grande qualidade, sobre a vida e sobre o personagem de Jesus. Eu não acho que seja por respeito religioso, mas porque há algo da figura de Jesus que se subtrai, como se tudo o que se pudesse dizer se encontrasse nos Evangelhos. Qualquer paráfrase ou bordado me pareciam destoados. E sobre Jesus não se sabe nada diretamente. Quem foi Jesus, que rosto tinha, que características? Tudo o que se pode dizer é que a força das suas palavras, esse esplendor e essa evidência imediatamente identificáveis são tão diferentes do que se escrevia naquela época a ponto de tornar indiscutível a sua autenticidade.

Como você gostaria que os fiéis lessem o seu livro?

É uma boa pergunta! É claro que não é minha intenção ofender ninguém. No entanto, não acho que o meu livro se dirija a cristãos fundamentalistas. Em vez disso, parece-me que possa tocar e interessar aqueles, entre os cristãos – e acho que são muitos –, que não se sentem desconfortáveis diante de uma leitura historicista. Gostaria que o vissem como escrito por um homem que, mesmo sem ser crente, tem uma relação de proximidade e de amizade com o cristianismo. É difícil ser coerente sobre isso. Eu não me sinto coerente, porque sei que não se pode levar essa religião a uma leitura puramente historicista. Há em mim uma espécie de resíduo que eu não consigo esclarecer completamente. Uma posição de ateu coerente seria muito mais lógica e sustentável do que a minha. Posso dizer "não sou crente", mas não posso jogar fora o bebê junto com a água suja. Para mim, esse livro tem mais a ver com uma perturbação, com uma turbulência, com uma perplexidade.

Você escreve: "Fiz este livro para não abundar no meu senso".

De fato, eu não gostaria que Le Royaume fosse percebido como o de um católico que ignora que o é. É um livro em que eu tento dialogar com duas coisas de importância totalmente diferente: com o "eu" de 20 anos atrás, com a sua fé e também com uma coisa de uma importância considerável que se poderia chamar de gênio do cristianismo, e o que isso representa para mim, apesar do fato de eu não crer. O livro gira em torno da minha parte de ignorância do impacto que tudo isso tem sobre mim.

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