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Por: André | 24 Agosto 2014

A reportagem é de Jean-Claude Guillebaud, jornalista, escritor e ensaísta, e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 31-07-2014. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Nestes tempos de turbulência, em que a nossa esperança pode vacilar, é o momento para nos lembrar da oração que Etty Hillesum, uma jovem judia de Amsterdã, escreveu em julho de 1942, 14 meses antes de ser deportada para Auschwitz, onde ela morreu com a sua família. Nesse texto de fé, um dos mais belos já escrito, ela murmurava que Deus tinha necessidade de nós. Hoje, acrescentou ela, "somos nós que devemos Te ajudar, e desse modo ajudamos a nós mesmos". Ao repelir o mimetismo do ódio, ao resistir até o fim ao desespero, ela contribuiu – junto com outros – para salvar Deus dos fanatismos que O negam ou, pior ainda, O instrumentalizam.

É em sua memória que agora nós reenviamos esses "objetores" que, em cada campo, se recusam a seguir uma ou outra dessas matilhas que alistam Deus em suas violências. Penso que esses rabinos, esses imãs, estes pastores ou padres que têm a coragem de dizer não aos ódios religiosos que ameaçam Deus de "apagar-se em nós", com mais certeza ainda que o ateísmo. Se os tempos são mais atormentados do que nunca, é principalmente por causa dos pretensos crentes que se servem novamente de seu Deus para matar, caçar e colocar em desespero seus inimigos.

Em Mosul, no Iraque, os cristãos são expulsos em nome de Alá. Tanto em Gaza como em Israel, invoca-se Deus – em ambas as trincheiras – para bombardear indiscriminadamente mulheres e crianças. Este recrutamento é ainda mais obsceno quando se sabe que na sua origem o conflito israelense-palestino – dois povos que disputam a mesma terra – não era de forma alguma um conflito "religioso" entre o islamismo e o judaísmo. Nos anos 1970 e 1980, a Organização para a Libertação da Palestina foi o mais secular de todos os movimentos árabes. Quanto à sociedade israelense da época, estimava-se que tinha uma minoria (menos de 10%) de crentes judeus.

Os "objetores" que agem com coragem têm o sentimento de uma urgência absoluta. Senão vejamos: em Gaza, os palestinos bêbados de ódio lançam seus mísseis sobre as cidades de Israel, gritando "Allahu akbar!"; em Jerusalém, os rabinos israelenses citam sem hesitação o Deuteronômio (20,4) para justificar a "luta até a vitória." O rabino-chefe David Lau chega a falar em "guerra santa". Encoraja-se, ao mesmo tempo, os jovens estudantes israelenses a pintar orações sobre os projéteis de artilharia que serão lançados contra Gaza. Quer sejam judeus, palestinos ou cristãos, os objetores de consciência dizem não a estes absurdos. Ao se interpor para "ajudar a Deus", eles agem muito bem, como o fizeram, em 1938, os católicos François Mauriac e Georges Bernanos, ao denunciarem com horror os bispos espanhóis que abençoaram os tanques de Franco. Ao mesmo tempo, uma prestigiada "objetora", Simone Weil, embora tivesse envolvimento com as Brigadas Internacionais, não hesitou em desafiar os seus para condenar as atrocidades cometidas por alguns republicanos contra os católicos.

Quando a tristeza nos assalta, pensemos em todas essas sentinelas que protegem Deus dos fanáticos e nos ajudam a colocar a "menina esperança" ao abrigo da carnificina.

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