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05 Agosto 2014

"Para sabermos tudo, precisamos conhecer todas as perguntas, o que é claramente impossível", escreve Marcelo Gleiser, professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, 03-08-2014.

Segundo ele, "seremos sempre parcialmente míopes para o que de fato ocorre".

Eis o artigo.

Na Semana passada, o jornalista George Johnson, que escreve ocasionalmente sobre ciência para o "New York Times", publicou um ensaio em que comparava dois livros relativamente recentes que oferecem pontos de vista opostos à natureza da realidade. Dado que esse é o tema de meu livro mais recente, "A Ilha do Conhecimento", revejo alguns dos pontos dessas obras, contrastando-os com minha posição.

De um lado, temos o famoso filósofo Thomas Nagel, que argumentou em seu livro de 2012, "Mente e Cosmo", que o materialismo mais simples, conforme é entendido hoje e usado na formulação das ciências físicas e biológicas, não é capaz de explicar alguns dos fenômenos naturais mais complexos, incluindo a origem e a evolução da vida e a natureza do consciente humano. Ele propõe que uma extensão das ideias atuais se faz necessária, ainda dentro do materialismo, mas utilizando modos ainda desconhecidos de se pensar sobre a matéria e sua relação com o espaço e o tempo. O interessante é que Nagel é ateu, limitando, portanto, essa extensão do materialismo e mais materialismo, se bem que engendrando o próprio Cosmo com forma de consciência.

De outro, temos o ultraplatonismo do físico Max Tegmark, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que no livro "Nosso Universo Matemático" propõe que a realidade física, o espaço, o tempo, a matéria e a energia, em todas as suas manifestações, originam-se de uma realidade puramente matemática.

A posição de Tegmark, que deixaria até Platão surpreso, é que essa realidade é a essência da natureza. Não é difícil extrapolar esse conceito a uma construção racional de Deus. Tegmark, assim como os que defendem a existência de um "domínio" de verdades matemáticas, onde mentes privilegiadas podem, ocasionalmente, vislumbrar a verdade, nos remete à uma religiosidade um tanto estranha, onde o racional é divinizado.

Como escreveu o matemático Edward Frenkel em sua resenha do livro de Tegmark, o autor se esqueceu de que a maior parte da matemática pura não tem qualquer relação com a natureza. É justamente essa liberdade que lhe fornece o seu poder especulativo. A maioria dos matemáticos puros consideram a realidade física um empecilho à beleza do pensamento.

Parece-me inocente, e criptorreligioso, achar que podemos ter conhecimento completo do mundo, seja ele através de um novo materialismo ou de uma realidade matemática completa. Primeiro, porque nossos instrumentos têm limites de alcance e precisão; segundo, porque a própria natureza oferece barreiras, como a velocidade da luz, a incerteza quântica e o crescimento da desordem (entropia). O mesmo com a matemática, como mostrou Gödel com seus teoremas da incompletude. Seremos sempre parcialmente míopes para o que de fato ocorre.

Daí a imagem da ilha do conhecimento, cercada pelo oceano do desconhecido, que os filósofos Nietzsche e Wittgenstein e os físicos John Wheeler e David Gross, dentre outros, compartilharam de formas variadas. Para sabermos tudo, precisamos conhecer todas as perguntas, o que é claramente impossível. Melhor assim, pois ficamos livres para continuar a perguntar, inspirados pelo que não sabemos. 

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