Nos assuntos de sexo e dinheiro, Papa Francisco define seu curso

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17 Julho 2014

Como é de conhecimento de qualquer pessoa que tenha prestado atenção nas aulas de história, quando o explorador espanhol Hernán Cortés desembarcou no que é hoje o México, em 1519, ele prontamente afundou seus navios, deixando assim seus homens sem escolha a não ser avançar na conquista do império asteca. Durante séculos, esse ato arrojado foi considerado como uma lição de compromisso total.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal The Boston Globe, 12-07-2014. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Na semana passada, o Papa Francisco afundou alguns navios, em duas frentes que têm sido fontes de escândalo e sofrimento para a Igreja Católica: sexo e dinheiro.

Na segunda-feira, Francisco teve o seu primeiro encontro com vítimas de abuso sexual clerical. Dois dias depois, o Vaticano anunciou uma extensa reforma financeira, incluindo uma nova liderança e um papel fortemente limitado para o conturbado banco vaticano.

Existe uma ansiedade no mundo para acreditar que Francisco está trabalhando a sério, e é tentador confundir o anúncio de um plano de reforma com a sua real implementação. Para ser claro, o que aconteceu na semana passada não foi uma reforma - foi mais como um prelúdio para a ação, uma tentativa de criar as condições para que algo de bom aconteça.

Em ambos os casos, o efeito principal foi comprometer o Papa Francisco definitivamente a seguir um determinado curso de ação.

Na questão do abuso, o fato de que Francisco tenha se reunido com vítimas não foi nenhuma novidade, já que Bento XVI realizou tais encontros seis vezes. Da mesma forma, não houve avanço em seu pedido de perdão, uma vez que tais desculpas remontam a 1993, quando João Paulo II expressou tristeza pelos pecados de "alguns ministros do altar". Elas se tornaram mais nítidas com Bento XVI, que usou pela primeira vez as palavras mágicas "Eu peço desculpas", na Austrália, em 2008.

Nem a promessa de Francisco de tolerância zero é uma novidade. A declaração papal clássica vem de um discurso de abril de 2002 feito por João Paulo II aos cardeais norte-americanos: "Não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para aqueles que possam causar dano aos jovens".

No entanto, a reunião de 7 de julho não foi de todo antiga, porque Francisco teve algo de inovador a dizer sobre a prestação de contas. Aqui está a frase: "Todos os bispos devem desempenhar o seu ministério pastoral com o maior cuidado, a fim de ajudar a promover a proteção dos menores, e eles vão ter que prestar contas".

Quando papas e autoridades do Vaticano eram questionados sobre a prestação de contas no passado, eles quase sempre respondiam em termos de punição para clérigos que abusam, em vez de bispos que falham em agir.

A maioria das pessoas diria que uma verdadeira prestação de contas significa consequências não apenas pelo crime, mas pelo encobrimento, e Francisco já prometeu que vai fazer isso.

Esse é um navio afundado: se as pessoas não veem o pontífice fazer os bispos prestarem contas, ele não vai ter para onde desviar a culpa.

No plano das finanças, o Vaticano revelou alterações na quarta-feira passada que incluem a nomeação do empresário francês Jean-Baptiste De Franssu como o novo presidente do banco vaticano; a criação de um escritório de "gestão de ativos" para coordenar vários bilhões de dólares em investimentos dispersos por vários departamentos; o lançamento de painéis de estudo para pensões e operações de mídia; e a atribuição à nova Secretaria de Economia do controle sobre compras e recursos humanos.

Vários aspectos da estratégia parecem claros, inclusive a quebra do monopólio italiano sobre a gestão do dinheiro, trazendo especialistas internacionais e injetando uma dose saudável de leigos naquela que tem sido até agora uma estrutura de governo principalmente clerical.

Em termos políticos, no entanto, a clara lição é de que a Secretaria de Economia sob a direção do cardeal australiano George Pell é o novo "gorila" de 400 quilos do Vaticano. Ela absorveu uma porção chave da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica, ou APSA; o novo escritório de gestão de ativos presta contas a Pell, e De Franssu, no banco vaticano, é um aliado de Pell.

Sim, há pesos e contrapesos. Sim, como Pell insiste, os especialistas em finanças que agora se sentam nos conselhos não são mais suscetíveis a apenas carimbar tudo o que é colocado na frente deles.

A unidade contra a lavagem de dinheiro do Vaticano sob a direção do advogado suíço Renè Bruelhart também permanece independente. O seu novo conselho diretivo inclui um ex-funcionário do governo Bush, Juan Zarate, que literalmente escreveu um livro sobre o combate contra o crime financeiro, uma obra de 2013 intitulada "Treasury's War" [Guerra do tesouro] e essas figuras provavelmente não estarão inclinadas a arriscar suas reputações.

Dito isso, não há dúvida também sobre quem está no comando, e seu nome é George Pell.

Uma prova disso é que não há nenhum papel na nova estrutura para a Secretaria de Estado, que, tradicionalmente, tem exercido autoridade quase inquestionável sobre a gestão interna. Sobre o poder da bolsa [de dinheiro], o papa tem se posicionado em favor da equipe de Pell.

Esse é o outro navio afundado: Francisco agora comprometeu-se totalmente à Secretaria de Economia como seu motor de reforma. Se as coisas não derem certo, não haverá nenhuma maneira de dissociá-lo do resultado.

Em uma entrevista com o The Boston Globe, Pell disse que o objetivo da operação de limpeza é tirar o Vaticano das "páginas de fofocas" devido a escândalos financeiros, tornando-o "enfadonhamente bem-sucedido".

O tempo dirá se isso vai acontecer, da mesma forma se o papa vai fazer cabeças episcopais rolarem devido aos escândalos de abuso. O que não cabe mais discutir é se esses são os padrões corretos para avaliar o sucesso, porque o papa mesmo já estabeleceu a medida.

Como Cortés e seus homens há cinco séculos atrás, depois dessa semana, Francisco colocou a si mesmo numa situação sem uma estratégia de retirada.

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