Francisco convida israelenses e palestinos para se reunirem

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26 Maio 2014

O primeiro papa da história chamado Francisco, na sequência do amante da paz São Francisco de Assis, obviamente irá se ver com um proponente da paz. E neste domingo, 25-05-2014, ele desempenhou este papel, convidando líderes israelenses e palestinos para irem ao Vaticano participar de uma oração comum pela paz.

“Nós todos (...) temos a obrigação de nos tornarmos instrumentos e artesãos da paz, em especial através de nossas orações”, disse o papa no final de uma missa pública em Belém.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada pelo jornal The Boston Globe, 25-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Hoje, um porta-voz do Vaticano chamou o ato de um “convite aberto” do qual tanto o presidente palestino Mahmoud Abbas quanto o presidente israelense Shimon Peres estão cientes, e disse que o Vaticano deseja que o momento venha a “acontecer num curto espaço de tempo”.

“Trata-se de um sinal de criatividade e coragem do Papa Francisco”, disse o Pe. Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano.

No domingo, os escritórios dos respectivos presidentes anunciaram ter aceito o convite do papa.

No último mês de setembro Francisco convocou todos os católicos do mundo para um dia de oração e jejum pela paz na Síria, mas esta é a primeira vez que o pontífice convidou líderes de Estado envolvidos em conflito a irem ao Vaticano rezar juntos.

Foi o gesto mais inovador de uma excursão ao Oriente Médio em que o Papa e o Vaticano estão tentando dar o seu melhor na realização de um ato harmonizador, reconhecendo as preocupações de ambos os lados do conflito entre Israel e Palestina.

Ao se reunir no domingo pela manhã com o presidente palestino Mahmoud Abbas, a quem o papa descreveu como um “homem de paz e pacificador”, Francisco instou uma resolução para o conflito na região.

“Chegou a hora de colocar um ponto final nesta situação que, cada vez mais, se torna inaceitável”, disse o papa, acrescentando que estava “expressando minha proximidade àqueles que mais sofrem com o conflito” – uma referência que, no contexto, pode ser interpretada como dizendo: o fardo carregado pelos palestinos é maior.

O papa também se referiu à comunidade católica “do país”, um reconhecimento aparentemente claro da soberania palestina.

Francisco também manifestou “profunda esperança de que todos irão se abster de iniciativas e ações que contradizem o desejo firmado de alcançar um verdadeiro acordo”, referência que soou como crítica à política israelense de assentamento.

Francisco parou brevemente junto ao muro entre Israel e Cisjordânia, que os palestinos frequentemente retratam como um símbolo de sua opressão. O papa colocou suas mãos sobre dois traçados de grafite suplicando justiça e encostou sua cabeça ao muro, parando para um momento de oração.

Após celebrar uma missa a céu aberto em Belém, local em que Cristo teria nascido segundo os cristãos, o papa foi levado a visitar o acampamento Dheisheh para refugiados palestinos estabelecido em 1949 e que, atualmente, é o lar de 9 a 13 mil pessoas.

No domingo, Francisco fez uma rápida viagem ao aeroporto Bem Gurion, de Tel Aviv, onde foi recebido pelo presidente israelense Shimon Peres e pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

Ele chega 50 anos depois que o primeiro pontífice a visitar a Terra Santa, Paulo VI, cuidadosamente evitou até mesmo usar a palavra “Israel”, embora hoje os dois Estados desfrutam de relações diplomáticas plenas e que os papas não mais se sentem tímidos em invocar o país pelo nome.

Na segunda-feira, Francisco irá visitar o memorial do holocausto Yad Vashem e, entre outras coisas, irá presumivelmente renovar o compromisso da Igreja Católica na luta pelo antissemitismo.

Também na segunda-feira Francisco irá se tornar o primeiro papa a jogar uma coroa de flores na sepultura de Theodor Herzl, fundador do sionismo e considerado o pai do moderno Estado de Israel. Trata-se de um sinal claro para com as sensibilidades israelenses, tanto mais quando um porta-voz do Vaticano definiu a iniciativa como um “reconhecimento dos sacrifícios dos israelenses na construção de seu país”.

No todo, a mensagem do papa durante estes dois dias tem um pouco de cada coisa para cada um. De onde vem esta busca pelo equilíbrio?

De um lado, há um cálculo humanitário genuíno em Roma de que ambos os lados neste longo conflito merecem compaixão. Erguendo-se das cinzas do holocausto, os judeus construíram um país próspero que se coloca como a única democracia verdadeira no Oriente Médio, ainda que com falhas, no mesmo passo em que os palestinos sofreram o que chamam de Nakba, a “catástrofe” da expulsão indiscriminada de seus lares, e muitos são ainda forçados a viver em condições degradantes de ocupação.

Entretanto, há também uma Realpolitik para os objetivos do Vaticano: a forças contrárias atirando para diferentes direções que produzem uma espécie de equilíbrio tempestuoso.

Do lado israelense, o Vaticano está bem ciente de que a Igreja Católica carrega uma parcela de culpa pelo antissemitismo teológico e cultural na Europa, o que ajudou a pavimentar o caminho para o holocausto. De certa forma, o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel em 1993 teve um grande impacto tanto para a credibilidade moral do Vaticano quanto para a de Israel.

Mais recentemente o aumento da coorte de bispos mais conservadores nos anos de João Paulo II e Bento XVI, especialmente nos EUA e na Europa, resultou líderes eclesiais mais inclinados aos valores das raízes bíblicas que o cristianismo tem no judaísmo bem como rendeu líderes politicamente mais simpáticos a Israel.

Esta tendência ampliou-se com os ataques terroristas de 11 de setembro e com aumento do islamismo radical como uma ameaça global aberta, e mais recentemente com a atenção cada vez maior para com a perseguição anticristã violenta que ocorre em alguns países muçulmanos.

Do lado palestino, o fato fundamental é que a imensa maioria da população católica na Terra Santa é árabe e palestina, o que significa que os gerentes do Vaticano e suas bases na região torcem, bastante, pela causa palestina. O último patriarca latino de Jerusalém, Michele Sabbah, era palestino e o atual, Fouad Twal, é jordano com uma profunda afinidade para com a experiência palestina.

Além disso, o Vaticano continua sendo profundamente europeu em termos de sua cultura e psicologia, e o seu corpo diplomático tende a refletir a mesma mentalidade dos diplomatas seculares. A postura muito menos favorável a Israel por parte da União Europeia, em comparação com o forte apoio dado a ele pelos Estados Unidos, há muito tem sido uma configuração predeterminada.

Mais recentemente, um número de prelados católicos da América Latina, Ásia e África tem ganhado destaque dentro e nos arredores do Vaticano, e estes trazem consigo as visões a respeito do conflito israelo-palestino que tendem a ser aquela difundida nos países em desenvolvimento, onde a simpatia pelos palestinos e o ceticismo por Israel é, muitas vezes, senso comum.

A eleição do primeiro papa vindo do mundo em desenvolvimento, ainda que tenha uma genuína simpatia pelo judaísmo, pode reforçar esta tendência.

Somemos todos estes elementos juntos e nos veremos prestes a explicar as razões por que o Vaticano sempre tenta se posicionar próximo do meio daquilo que uma vez um diplomata vaticano chamou de “a mãe de todas as crises”.

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