“Para não dizer que não falei das flores”: a atuação das mulheres na luta contra a ditadura militar no Brasil

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Por: Caroline | 26 Mai 2014

“A militância das mulheres revolucionou os costumes, questionou o papel do casamento na sociedade, a virgindade e estabeleceu uma dinâmica de vida clandestina que alterou as práticas afetivo-sexuais. Mesmo que essas mulheres não tenham colocado em discussão a transformação das relações de gênero, tiveram possibilidade de adquirir conhecimento político e ultrapassar o espaço privado e doméstico”, destaca Caroline Blum da equipe CJCIAS/CEPAT, em síntese elaborada da obra “Mulheres e Militância: Encontro e confrontos durante a ditadura militar”, apresentada no dia 22 de maio de 2014, como parte da programação do Projeto Abrindo o Livro.

Eis a síntese.

Para refletirmos sobre a ditadura militar no Brasil, é interessante pensar sobre contexto no qual ela se deu. Os anos 1960 foram o período auge do embate entre o socialismo e capitalismo, no qual, no Ocidente, era grande o medo dos “vermelhos”. Havia uma maciça veiculação de propaganda pró-capitalista, na qual promovia-se a difusão dos valores ligados ao “american way of life”. O mundo encontrava-se em um estado “efervescente”, pautado pelo desenvolvimento científico tecnológico com a corrida espacial, por exemplo, e o surgimento de novos estilos musicais. Também foi a época de mudanças de comportamentos: foram os anos das pílulas anticoncepcionais; florescimento do movimento feminista; dos hippies; dos Beatles e Rolling Stones; da Guerra do Vietnã. Nos EUA viu-se o surgimento do movimento pelos direitos civis dos negros com lideranças como Martin Luther King e Malcon X.

A Guerra Fria e seus confrontos políticos ideológicos inevitavelmente influenciaram a América Latina e o Brasil, e forneceram o substrato para o golpe de Estado e a instauração da ditadura militar a partir do golpe de 1964 – chamado de “revolução de 64” pelos conservadores – com decisivo apoio norte-americano.

É nesse quadro de ebulição política cultural que agiram as mulheres entrevistadas pelas pesquisadoras de “Mulheres Militância: encontros e confrontos durante a ditadura militar” livro que, de antemão, traz contribuições interessantes por tratar de um tema tabu, tanto para o público em geral quanto para as próprias mulheres militantes, de forma que são histórias que ainda permanecem apagadas da história da repressão no Brasil. O livro também traz contribuições, como as próprias autoras indicam, para o conceito de “Identidade Social”, na medida em que objetiva-se a capturar os diversos movimentos inerentes ao processo de construção da sua identidade. Está presente também a questão da “memória social” visto que as autoras buscam recompor um dado momento histórico a partir das lembranças das militantes.

No que se refere à socialização política das entrevistadas, não se pode deixar de notar a importância de alguns homens em suas trajetórias, destacando-se o pai e o namorado. Constatou-se que muitos deles eram pró-feministas, incentivando comportamentos que, na época, eram tidos como de vanguarda. Ao contrário, as mães esforçavam-se ao máximo para evitar estimular comportamentos contestadores da ordem e da hierarquia de gênero, cumprindo às expectativas conservadoras relacionadas ao papel materno. De acordo com as militantes entrevistadas a entrada na vida universitária é apontada como o fator mais importante para a sua socialização política, não tanto pelos professores, mas pela participação em organizações estudantis.

Todavia mesmo na vivência interna das organizações de esquerda foi evidenciada a cultura autoritária presente nas relações de gênero, “o autoritarismo se projetava de tal modo nas organizações de esquerda que o partido chegava a regular as relações amorosas (...) [e] as estratégias para a fuga, no caso de ameaça pelos órgãos de repressão, só existia concretamente para os dirigentes, que não por acaso eram homens” (p.20). Os desejos relacionados ao casamento e a constituição de uma família também não eram bem vistos no interior das organizações, pois eram identificados como costumes e valores tradicionais, que deveriam ser refutados. Por outro lado, as próprias militantes indicavam sua busca para a contestação dos valores burgueses, enfrentando as pressões familiares na busca de alternativas para uma “vida convencional” e esperada.

O livro busca reconstituir a trajetória de nove mulheres que se engajaram em movimentos de oposição ao regime militar no estado do Espírito Santo, com a proposta de uma análise no âmbito psicossocial sobre questões vinculadas às relações de gênero, em sua interlocução com o campo político da história corrente do país. E desse modo (re)constroem uma perspectiva sobre a militância política de mulheres, durante o regime da ditadura militar no Brasil, no qual essas jovens assumiram um papel inédito, tanto no campo da política, quanto nas próprias relações de gênero, rompendo com os códigos da sua época.

A segunda metade do século XX foi o período de uma mobilização que deu intenso vigor a vida estudantil no país quando, nos anos de 1962 e 1964, no final do período populista, o movimento estudantil universitário se inseriu nas campanhas reformistas. Com o golpe de 64 iniciou-se uma fase de silenciamento forçado dos movimentos de massa, de maneira que, a partir de então, as lutas estudantis ressugiram em resistência ao projeto de reforma educacional da ditadura e na luta contra a repressão policial-militar por ela fomentada. O ano de 1968 foi conhecido como o “ano dos estudantes”, em que os interesses do movimento já não estavam mais voltados apenas para as causas educacionais. A situação interna do país fez com que estes se aproximassem dos mais diversos grupos que também questionavam o regime militar. De modo geral, os anos 60 foram de uma intensa movimentação de renovação cultural, que passou a abordar alguns dos problemas sociais e políticos do país difundidos pela esquerda em diversos campos como música, o Cinema Novo, o teatro, a literatura.

O ano de 1968 teve um grande marco com “o golpe dentro do golpe”, isto é, o Ato Institucional nº5, o AI-5, que tornou-se um divisor de águas para o período considerado como os “anos de chumbo”, pois decretou a suspensão de todas as garantiras individuais e dos direitos políticos.  Porém, ao mesmo tempo em que os anos 70 foram de intensa perseguição a qualquer militante considerado ligado aos líderes desses movimentos, tidos como subversivos, foi uma época que, para alguns segmentos, particularmente a classe média, representou um “melhora de vida” pois, “coincidentemente”, a exacerbação do autoritarismo foi acompanhado pelo “milagre econômico” que ampliou  as oportunidades de trabalho em diversos setores, no qual alargou-se as bases de consumo, permitiu-se a ascensão social dos setores médios e concentrou a renda de maneira que ampliou-se a distância entre os extremos da pirâmide social. Assim a classe média passou a viver um conflito, pois concomitante a sua ascensão social, tinham seus filhos mortos e perseguidos pelo mesmo regime. Nessa época o Movimento Estudantil se esvaziou e deu lugar a outro, que buscava afrontar o conservadorismo do regime no plano dos costumes, o movimento da “contracultura”. É nesse mesmo contexto que nasce o “feminismo”.

Voltando aos participantes do Movimento Estudantil, formado em grande parte por jovens universitários, é importante pontuar que nesse processo de luta pela ampla democratização da educação, eles eram pouco mais de 200 mil, isto é, representavam menos de 0,5% da população brasileira e, quase todos, eram filhos de classe média.

No início da década de 70 as mulheres já constituíam metade da população estudantil do ensino médio, sendo presença majoritária no Curso Normal, tida como uma escolha tipicamente feminina. Entretanto a geração que entrou para a universidade nos anos 60, foi protagonista de um conjunto de mudanças econômicas, políticas, de códigos de comportamento, assim como nas relações entre os gêneros. E, como se pôde observar através da trajetória das mulheres entrevistadas, esse contexto de interação social entre espaços masculinos e femininos é um campo de permanente transformação da identidade dos indivíduos. Essa interação oferece um campo de possibilidades das quais os atores sociais dispõe, para elaborar e executar seus projetos individuais e coletivos, havendo um potencial de negociação e transformação da realidade social, assim como das identidades sociais, em especial a de gênero. Assim, junto ao projeto de derrubar o regime, também estava o de revolucionar os costumes, valores e relações sociais e afetivas, que deveriam ser mais igualitárias.

A participação feminina nas organizações militantes pode ser vista como um indicador das rupturas iniciais que ocorriam em papéis tradicionais de gênero. A participação feminina era minoritária. Dados dos 695 processos apresentados pelo projeto “Brasil: Nunca Mais” demonstram que 88% dos acusados eram do sexo masculino e 12% do sexo feminino. A participação minoritária também era observada na ocupação de lugares de comando nas organizações, todavia diversos pesquisadores e as falas das próprias entrevistadas indicam que “integrantes das denominadas camadas médicas intelectualizadas tinham, possivelmente, condições para desempenhar papéis mais destacados nas formulações políticas. Portanto, embora as mulheres tivessem condições intelectuais, faltava a elas condições de gênero”. (p.44)

Em diversos âmbitos o engajamento no projeto revolucionário de esquerda se deu pelo fato das mulheres acreditarem que através dele haveria a possibilidade de transformação da realidade de seu país, mesmo que em um contexto condicionado pela queda do regime militar. Nesse contexto, encontravam a necessidade da redefinição de suas identidades e suas autoimagens, pois ao longo de todo esse período passaram de agentes de transformação social à vítimas das estratégias de repressão militar, principalmente entre os anos de 1968 a 1970.

A pesquisa, também feita por mulheres, compreendeu dois grupos de militantes: o primeiro formado por mulheres que militaram juntas até 1968 e um segundo grupo composto por mulheres que militaram juntas em 1971, o segundo grupo foi indicado por mulheres do primeiro. A escolha das entrevistadas se deu na proposta de buscar mulheres que participaram de organizações que possuíram claramente uma posição de resistência ao regime militar, no período de 1964 e 1985, priorizando sujeitos que atuaram na militância no estado do Espírito Santo, em um total de mulheres.

Do primeiro grupo, formado por quatro mulheres, três delas pertenciam à mesma organização e a quarta a um partido clandestino. Na época todas estavam ligadas a militância e ao movimento estudantil universitário. Antes de se inserirem ao meio universitário, todas haviam se engajado na militância política através de movimentos religiosos e estudantis secundaristas. O segundo grupo foi formado por cinco mulheres, também universitárias, e que pertenceram ao mesmo partido que atuava no momento estudantil. Estas iniciaram a militância entre o primeiro e segundo anos da faculdade, com uma média de 19 anos, filiando-se a um partido político clandestino via movimento estudantil. A origem das mulheres variava: duas de origem urbana de classe baixa; duas de origem urbana de classe média; duas de origem rural de classe média; e três de origem rural de classe baixa.

Em geral observou-se que as mulheres receberam incentivos de seus pais para estudar, fato fundamental para a participação no ensino superior e, a partir deste, adentraram em atividades associadas ao mundo público, em especial a militância política. Foi esta militância que deu condições para atuarem na busca da ruptura dos papéis estabelecidos pela divisão sexual do trabalho e para às transformações nos comportamentos relacionados ao namoro e casamento, abalando a dicotomia presente entre as normas sexuais diferenciadas entre homens e mulheres.

Essas mulheres, que puderam gozar da possibilidade de ascensão social e estudos, também apontaram o importante papel da religião, associada à educação formal em colégios religiosos. Contudo ao mesmo tempo em que esses pregavam valores como a justiça social, também se empenhavam na manutenção dos valores destinados às “moças de família” das classes abastadas. A entrada dessas mulheres na universidade possibilitou a abertura para projetos pessoais que não haviam sido colocados para suas mães. Assim é interessante observar que, ao mesmo tempo em que a prática era de estímulo às mulheres ao estudo e questionamento de padrões morais, conservadores, estigmatizantes e segregadores, em relação à hierarquização de gênero, isso era vivenciado como algo que entrava em conflito com as representações dominantes sobre o masculino e feminino (p.239).

Assim um ponto comum entre as mulheres é o fato de que circularam em contextos universitários, culturais e artísticos, com debates de ideias, em um momento de questionamento da ordem política, social e cultural. E, dessa forma, tiveram a oportunidade de construir uma visão de mundo que valorizava a autonomia e a igualdade através do respeito às diferenças, incluindo aquelas relacionadas às esferas afetivo-sexuais.

Assim o tipo de sociabilidade que vivenciaram, vinculado aos pensamentos de esquerda, às bases filosóficas existencialistas e às discussões em torno de uma nova base filosófica cristã, representava também uma mudança para os padrões da época, não apenas no que diz respeito às relações entre homens e mulheres, mas também sobre as noções de hierarquia, que foram abaladas em toda a rede social e familiar. Todavia a introdução de um código de sociabilidade de gênero no meio estudantil, ainda que tenha trazido mudanças, não alterou grande parte dos valores e práticas sociais voltados para a diferença de gênero, isto é, o machismo, observado pelas militantes nas práticas existentes no interior das próprias organizações de esquerda. A ideia que predominava era a de que mulheres e homens eram iguais na luta e que as diferenças se davam por causa do sistema. Assim as reivindicações mais especificamente femininas eram vistas como “pequeno burguesas”. Uma das entrevistadas indica que o partido considerava que as tarefas de menor importância eram obrigações das mulheres.

A partir do endurecimento do regime, a opção pela militância política geralmente acabou implicando no rompimento com as expectativas familiares, seja sobre o casamento ou a constituição de uma carreira profissional, afinal o projeto pessoal acabava por se transformar no projeto político, o que acarretou na possibilidade de prisão, clandestinidade ou exílio. Contudo podemos pensar, também a partir da fala das entrevistadas, as constantes contradições com as quais as militantes se defrontavam ao aderir ao projeto coletivo de militância política, pois mesmo que o projeto coletivo implicasse na capacidade de potencializar a ação e abrir possibilidades de escolha, isso não significa que não produzisse dilemas subjetivos e objetivos.

“O ‘ser militante’ exigia das mulheres a negação de sua individualidade em prol do partido e se aproximava do modelo tradicional de papéis masculinos e femininos, no qual a mulher é considerada hierarquicamente inferior aos maridos na família. Muitas vezes, a funções das mulheres restringiam-se a servir de fachada para os homens em ações, passando-se por namoradas ou sendo esposa de militantes, estando impedidas de participar mais efetivamente por terem que se ocupar da vida doméstica e dos filhos”. (p.293)

A militância das mulheres revolucionou os costumes, questionou o papel do casamento na sociedade, a virgindade e estabeleceu uma dinâmica de vida clandestina que alterou as práticas afetivo-sexuais. Mesmo que essas mulheres não tenham colocado em discussão a transformação das relações de gênero, tiveram possibilidade de adquirir conhecimento político e ultrapassar o espaço privado e doméstico.

Os relatos de tortura deixam transparecer o efeito da presença feminina e a sua condição nesse quadro político, é destacado o duplo papel transgressor que as mulheres desempenharam nesse período: o de agente político, que atuava contra o regime, e o de gênero, subvertendo o padrão de comportamento esperado das mulheres.

A prisão foi a última etapa da experiência das militantes, antes de retornarem a vida legal, período no qual vivenciaram um estado permanente de “suspensão”. A percepção da duração dessas situações que vão desde a prisão, clandestinidade ou exílio, é observada de diferentes maneiras pelas militantes, causando uma “transitoriedade”, ou seja, alterações na própria percepção do tempo, que também favoreceram a desconstrução/ reestruturação da identidade e reinserção ao convívio social.

Esse processo de reinserção foi agravado pelo fato de que apenas recentemente o Estado brasileiro admitiu sua responsabilidade, causando um redimensionamento oficial do papel dos grupos protagonistas da história daquele período, a situação de criminalização dessas militantes durante um longo período de tempo e durante grande parte de sua própria trajetória, acabou por favorecer a despolitização da memória do período, pois sem o reconhecimento do sofrimento e das perdas vivenciadas, suas experiências traumáticas ficaram relegadas às esferas privada e pessoal, não permitindo, portanto, que fossem confrontadas. Esse não reconhecimento acaba por tornar tal experiência difícil de ser partilhada com a família ou mesmo com seus pares.

Ao fim, para todas as mulheres entrevistadas, a militância foi reconhecida como fator essencial em sua formação pessoal, em sua trajetória de vida. Todavia, a vivência interna nas organizações de esquerda fez com que reavaliassem as reais propostas das mesmas (nas quais, muitas vezes, o discurso e a prática distanciavam-se). Não encontraram em tais organizações o espaço para vivenciarem a transformações de seus anseios (ligados, por exemplo, ao desejo pela maternidade).  Assim, após o retorno dessas mulheres à sociedade como cidadãs legais perante o Estado, todas redimensionaram a sua vida, se engajaram em projetos pessoais e afastaram-se de tal militância, mesmo mantendo seus anseios na construção de um país melhor.

Referência bibliográfica

NASCIMENTO, Ingrid Faria Gianordoli. TINDADE, Zeidi Araujo. SANTOS, Maria de Fátima de Souza. Mulheres e Militância: Encontro e confrontos durante a ditadura militar. Belo Horizonte: UFMG, 2012.

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