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Por: Jonas | 19 Mai 2014

"A esquerda anticapitalista deveria ter considerado seriamente esta oportunidade de ouro que vinha das filas do cristianismo. Porque o que lhe era oferecido de bandeja não era apenas o conceito mais interessante da reflexão ética do século XX. Estava sendo oferecida a possibilidade de uma mobilização massiva capaz de fundir a energia popular do cristianismo com um plano político para enfrentar as estruturas mais profundas do capitalismo", avaliam Carlos Fernández Liria e Luiz Alegre Zahonero, em artigo publicado pela Revista Êxodo e reproduzido por Rebelión, 15-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A verdade é que a ideia de que a pequena propriedade evolui para o capitalismo é um retrato exato do que praticamente nunca acontece (...). O capitalismo é um monstro que cresce nos desertos. (G. K. Chesterton)

No último dia 22 de março, chegaram a Madri as chamadas “marchas da dignidade”, proporcionando uma das maiores concentrações cidadãs da história da democracia. Não resta dúvida de que esse clamor popular reivindicava, antes de qualquer coisa, um canal político que, no entanto, não se encontrou. Acumula-se a indignação, a raiva e o desespero. Muita energia à procura de um procedimento para se converter em alguma realidade capaz de mudar esse panorama político de pesadelo. A FRENTE CÍVICA e PODEMOS têm tentado. Não sabemos o que ocorrerá com estas iniciativas ou com outras semelhantes. Cedo ou tarde, alguma delas irá coalhar e mudará radicalmente o espectro político do bipartidarismo. Seria melhor mais cedo do que tarde, porque, do contrário, o fascismo poderá tomar a dianteira e fazer da sua maneira o que a esquerda não soube fazer.

Sinceramente, eu não tenho nenhuma boa ideia (1). Estas linhas não podem ter outro sentido a não ser o de demonstrar minha admiração e meu agradecimento por todas e todos os que estão entregando a vida nessa tentativa. A solução não cairá do céu. Aqueles que estão tentando articular uma resposta política sólida e eficaz podem se equivocar e podem fracassar um e mil vezes, mas estão fazendo o que é preciso fazer.

Gostaria apenas de destacar duas peculiaridades da encruzilhada política na qual nos encontramos. Trata-se de um momento crítico muito peculiar, no qual, por um lado, é o mais difícil de todos e, por outro lado, o mais fácil.

Comecemos pelo mais difícil. Consideramos difícil porque, desde os anos 1980 e mais ainda agora, com a crise econômica, os poderosos mais ricos do planeta passaram à ofensiva e empreenderam uma revolução. Sim, agora os revolucionários são eles; são eles os que estão dispostos a acabar com todas as instituições que sustentam a vida humana dentro de alguns canais normais de decência e dignidade. Nem o niilismo anarquista mais radical havia chegado tão longe. Com o objetivo de salvar os interesses de um capitalismo financeiro de cassino, estão dispostos a converter este planeta em um deserto, a matar de fome a metade da população mundial, especulando no mercado dos alimentos mais básicos, a demolir todas e cada uma das conquistas que as lutas revolucionárias dos dois séculos foram efetivando, nisso que se chama o Estado de Direito (que não é algo que ninguém nos presenteou, mas, sim, é algo que, sem dúvida, apesar de muito precário e muito imperfeito, foi arrancado dos poderosos com muita luta, muito sangue e muitos mortos). Em suma, a revolução dos ricos contra os pobres está ameaçando tudo o que poderíamos chamar de “civilização”. E temos isso, portanto, como muito difícil, porque – como dizia o magnata Warren Buffet – estes selvagens revolucionários vão ganhando e poderíamos dizer que vão ganhando de goleada.

No entanto, ao mesmo tempo, é o momento mais fácil de todos. E esta é nossa grande oportunidade. Porque agora que os revolucionários suicidas, niilistas e selvagens são eles, agora que são eles os terroristas, nós podemos começar a defender coisas de muito sentido comum. As marchas da dignidade se aproximaram de Madri com reivindicações muito elementares e compreensíveis: NÃO AO PAGAMENTO DA DÍVIDA; PÃO, TRABALHO E TETO; NEM UM CORTE A MAIS.

E mais: nesta situação revolucionária na qual nos encontramos, inclusive, nós podemos aproveitar para nos tornarmos muito conservadores. O homem não pode se rebelar se não é conservador – dizia Chesterton -, ao menos “conservador o suficiente para ter conservado alguma razão para se rebelar”. Mudar sempre é um risco e as mudanças revolucionárias são, para a maior parte das pessoas, um risco muito grande. Por isso, para a esquerda sempre foi muito difícil estender sua hegemonia entre a população.

Contudo, agora que os revolucionários são os ricos mais poderosos, a esquerda pode muito bem trabalhar pelo sentido comum. Vale a pena conservar a escola pública, a saúde pública, o direito a uma aposentadoria, a uma moradia, a um trabalho. Podemos, acima de tudo, insistir em que “há coisas neste mundo muito merecedoras de ser conservadas”. Por exemplo, há uma coisa que é preciso conservar a qualquer preço, uma coisa que é tão importante que vale mais do que a própria vida: a DIGNIDADE. Porque sem dignidade não vale a pena viver. Os homens não querem conservar a vida a qualquer preço. Acima da vida, querem, primeiramente, conservar aquilo que torna a vida digna de ser vivida. Por isso, as marchas da dignidade não poderiam ter encontrado um nome melhor.

Isto deve nos fazer lembrar que na esquerda, sejamos comunistas, anarquistas, anarco-sindicalistas, trotskistas, maoístas ou da frente judaico de libertação, em primeiro lugar sempre fomos lutadores por uma ordem política da dignidade: o que a filosofia chamou uma ordem republicana, na qual os indivíduos sejam livres, iguais e fraternos. Quer dizer, cidadãos independentes civilmente, que não tenham que pedir permissão a ninguém para viver com dignidade. Sendo assim, para cumprir este último requisito - que é justamente o que a ideia de fraternidade exigia, já que se tratava de deixar de depender de qualquer tipo de “pai”, “amo” ou “senhor” -, são necessárias condições materiais de existência, exatamente as condições materiais que o capitalismo destruiu e impossibilitou, ao expropriar a população de seus meios de produção (2). Daí que, segundo alguns de nós pensamos (3), qualquer projeto politicamente republicano se vê inevitavelmente forçado a ser anticapitalista. E então, com efeito, a radicalidade dos meios contrasta com a possível moderação dos objetivos. Somos antissistema para salvar um sistema, o sistema republicano do sentido comum político mais elementar. Somos radicais anticapitalistas para poder ser conservadores e reformistas.

Assinalamos, anteriormente, PODEMOS e FRENTE CÍVICA porque acreditamos que são duas iniciativas políticas que entenderam perfeitamente o problema. Poderíamos dizer, inclusive, que o tempo demonstrou que, na realidade, quem sempre teve razão, já há três décadas, foi Julio Anguita, o único político de esquerda, por certo, que neste país teve a real possibilidade de vencer uma eleição (ainda que insistissem em impedi-lo, a partir do grupo PRISA). Não é preciso inventar a pólvora, dizia-nos Anguita, já nos anos 1980. Para nós, esquerdas, bastaria que obrigássemos que a Constituição fosse cumprida. Não recordamos o que sempre se respondia, no PP e o PSOE? “Eu não acredito que a Constituição diga o que o senhor Julio Anguita diz... porque, você sabe, né? Se ela dissesse o que ele diz, então, sim, penso que seria preciso mudá-la”. Sim, com efeito, por final, mudaram-na, e fizeram isso durante o mês de agosto de 2012, com obscuridade e deslealdade, em um pacto de criminosos entre o PP e o PSOE, que estabeleceu o pagamento da dívida acima de qualquer decisão soberana da democracia.

As potencialidades desta “nova aliança” da esquerda com o sentido comum são imensas. Entre outras coisas, porque isso permite repensar um diálogo que eu sempre considerei fundamental: o diálogo com o cristianismo e, sobretudo, com o catolicismo. É assombroso o modo como a esquerda sempre ofereceu suas melhores armas para o inimigo. Luis Alegre e eu insistimos muito nisso. O maior erro do marxismo foi se empenhar para que o direito, a cidadania, a divisão de poderes, o parlamentarismo, etc., todo o arcabouço, em suma, do que chamamos Estado Moderno, se transformasse em não outra coisa a não ser a outra face da moeda daquilo que pretendia combater: o capitalismo. Assim, toda a constelação política e conceitual do projeto republicano se tornou uma realidade superestrutural necessariamente ligada ao pensamento burguês ou pequeno-burguês. Um negócio bárbaro, pois, deste modo, presenteava-se o inimigo com o corpo conceitual politicamente mais irrenunciável da história da humanidade, e o marxismo se esforçava, por outro lado, em inventar a pólvora, instituindo algo melhor do que a cidadania, algo mais imaginativo do que o parlamentarismo, algo mais autêntico do que a democracia, algo mais criativo do que o direito. Por fim, ao invés de uma república de cidadãos, sempre tínhamos algo parecido a um regime de camaradas, supostos “homens novos”, atletas morais militantes do Partido. Agora, não me interessa comentar – como já fiz tantas vezes – o desastre político em que sempre consiste este experimento. O direito é a única escada inventada pelo ser humano para se elevar acima da religião. Caso se pretenda dar um passo além, subindo um degrau acima do direito, você cai com o nariz no chão. O culto à personalidade, uma nova religião artificial, foi o resultado inevitável.

Entre os incríveis patrimônios com os quais a esquerda presenteou tão alegremente o inimigo, destaca-se, sobretudo, um muito especial: o cristianismo. Uma vez que acabaram inventando uma religião puramente voluntarista e artificial, a questão é se não teria sido mais sensato que tivessem feito uma séria aliança com uma autêntica religião. O direito é racional, mas a razão não mobiliza as pessoas. A religião talvez seja irracional, mas é capaz de mover montanhas. Este dilema já foi levantado, em 1795, pelos jovens Hegel, Schelling e Hölderlin, no famoso escrito conjunto conhecido com o título de “Programa”.

Enquanto a razão não for mitológica não terá nenhum interesse para o povo. Enquanto a mitologia não for racional, o filósofo terá que se envergonhar dela. Necessitamos – diziam – de uma “mitologia da razão” ou de uma “razão mitológica”. Sendo assim, este “programa” político pode ser interpretado de formas muito diferentes e não me estenderei agora em seus muitos perigos (4). Em todo caso, esse diagnóstico do problema responde a uma realidade: o povo não se mobiliza com razoamentos, mas, sim, com mitos.

Nesse sentido, a direita deve ter esfregado as mãos, satisfeita, ao ver que a esquerda lhe presenteava, tão alegremente, com a arma mais poderosa que jamais se inventou para mobilizar a população. Poder-se-ia ser de direita e conservar sua religião. À esquerda se pedia, ao contrário, algo muito mais difícil: mobilizar as pessoas a partir do ateísmo.

A coisa é ainda mais insensata, quando se pensa concretamente no cristianismo, que é uma religião que, por fim, ajustava-se muito fácil tanto com a esquerda, como com a Ilustração em geral. Além disso, o fato de que Jesus fosse caracterizado como o “logos feito carne” já poderia ser lido como um pacto originário com qualquer forma de Ilustração. A própria figura de Jesus nos evangelhos resulta muito mais simpática para o pensamento de esquerda. O fato é que Jesus, ao resumir todos os mandamentos no “amarás ao próximo como a ti mesmo”, coincidiu com o que poderíamos considerar uma versão mitológica da própria forma da razão. Trabalhe sempre considerando a ti mesmo como se fosse qualquer outro.

A Verdade nos obriga a reconhecer que aquilo que estamos dizendo, também diríamos se fôssemos outro, pois o teorema de Pitágoras não é diferente para escravos e cidadãos, para gregos e persas. A Justiça nos obriga a reconhecer que o que pretendemos fazer, faríamos da mesma forma se fôssemos outro, pois não o fazemos por sermos ricos ou pobres, homens ou mulheres, atenienses ou persas, mas, sim, porque é justo. Diante da Beleza sentimos que estamos sentindo o mesmo que o outro, que qualquer outra pessoa. Por isso, não nos conformamos em dizer que gostamos, mas, sim, dizemos com espetacular ousadia, “que é belo”, falando assim, não de nós, mas, sim, da própria coisa. Verdade, Justiça e Beleza nos situam no lugar de qualquer outra pessoa.

Diante da verdade, sabemos que somos iguais, porque não podemos evitar que um escravo deduza o teorema de Pitágoras da mesma forma como nós. Diante da Justiça, sabemos que somos livres, porque sabemos que nosso ato não é imputável, não é um mero efeito das circunstâncias, não se limita a depender de que sejamos ricos ou pobres, homens ou mulheres, gregos ou persas. Um ato que não depende de nada é, precisamente, um ato livre. Diante da Beleza nos sentimos fraternos, porque sentimos que estamos sentindo o mesmo que o outro, algo parecido com o momento em que fazemos amor, que não sabemos se sentimos em nosso corpo ou no corpo do outro. Diante de um pôr do sol, é um pouco como se estivéssemos fazendo amor com a humanidade inteira.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade são, portanto, a consequência política inevitável de uma conhecida tríade platônica que, em resumidas contas, não faz outra coisa a não ser despejar essa incógnita a que chamamos “razão”. Não é fácil saber o que é a razão. Será, em tudo isso, esse lugar a partir do qual se veem as coisas à luz da Verdade, da Justiça e da Beleza. Porém, assim iluminado, o mundo se estremece e se agita inevitavelmente com três tensões políticas: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Podemos falar, atuar e sentir a partir do lugar de qualquer outra pessoa. Esta é a origem do impulso de qualquer possível Ilustração da humanidade. E, consequentemente, de qualquer programa político que lute por essa ordem política irrenunciável – ao qual chamamos república – na qual os legislados sejam ao mesmo tempo os legisladores.

Forçoso é reconhecer que o cristianismo nos havia colocado a questão bastante fácil para dotar de carne e de sangue este projeto. Ao apresentar uma encarnação do “lugar de qualquer outro”, sob o sinal do amor, pode-se dizer que o cristianismo prestava à razão toda a energia da religião. Sempre houve quem o entendeu assim, é claro.

No entanto, não foram os que venceram a batalha nas hierarquias da Igreja católica. Também houve marxistas que enxergaram isso com clareza, já no século XX. Além disso, existiu e existe uma coisa que se chama teologia da libertação. A melhor prova de que aí estava acontecendo algo muito importante foi que a CIA precisou dedicar recursos incomensuráveis para financiar e potencializar o evangelismo, em uma tentativa desesperada – que finalmente, infelizmente foi exitosa – de resistir o auge impressionante da chamada “igreja dos pobres”. A própria hierarquia da Igreja católica – aliada com os poderes financeiros mundiais – também teve que agir para extirpar de seu seio este germe de cristianismo tão comprometido politicamente. O papa Wojtyla e o futuro Bento XVI (o cardeal Ratzinger) foram implacáveis nesta cruzada “antimarxista” (ou, talvez, poder-se-ia dizer, simplesmente “anticristã”, porque os caminhos do Anticristo também são inescrutáveis).

Isto, é claro, não significa que a esquerda deveria ter estabelecido uma aliança com as altas hierarquias católicas. Mas, sim, que não deveria ter aberto mão deste campo de batalha. Teria que ter se colocado no próprio interior da Igreja. É uma insensatez ter presenteado o inimigo com a maior organização de massas da história da humanidade ocidental.

O potencial proselitista do cristianismo é, além disso, impressionante. Algo que deveria ter se demonstrado muito interessante para o marxismo. Não estou certo do potencial proselitista de outras religiões, como, por exemplo, o islã, mas sempre me pareceu que o cristianismo tinha tática, que – poderíamos dizer – apostava forte. Os missionários, ao pregar um mandamento que diz “amarás o próximo como a ti mesmo” não estavam expondo nenhum conteúdo confessional: estavam pregando a própria forma da razão. E qualquer povo da terra pretende ter razão. De modo que, ao pretender tê-la, todos os povos no fundo davam, a priori, razão ao missionário (sempre que não viesse acompanhado, naturalmente, do traficante de escravos). As conversas massivas estavam garantidas, sem necessidade da espada (é melhor dizer que aconteciam, muitas vezes, apesar da espada). Assim, pois, resulta muito fácil se tornar cristão (o difícil é ser um bom cristão).

Isto era ainda mais certo em virtude da imensa receptividade politeísta do catolicismo, que, ataviado com uma legião de santos para todos os gostos, era virtualmente capaz de qualquer sincretismo religioso. As comunidades indígenas latino-americanas, por exemplo, escolheram à la carte seu santo padroeiro, fundindo seus deuses ancestrais com o santoral católico. A sensatez da teologia da libertação a esse respeito deveria valer como uma lição de primeira ordem para a esquerda. Os párocos, os sacerdotes e os cristãos de base compreenderam perfeitamente que o menos importante eram os símbolos em torno dos quais os povos se mobilizavam, desde que os princípios estivessem sempre claros. Com efeito, a grande plasticidade do catolicismo para a construção de identidades contrasta com a rígida inflexibilidade sectária da esquerda.

O que, no meu entender, iniciativas políticas como PODEMOS ou como a FRENTE CÍVICA tentaram fazer, seja qual for ao afinal o resultado, é o que era necessário fazer. A esquerda não tem que pedir o impossível, como rezava o famoso lema de maio de 1968. O que é impossível é que possamos continuar aguentando este mundo absurdo e criminoso, no qual, por exemplo, despejam-se famílias de suas casas, ao mesmo tempo em que se mantêm milhões de casas vazias. O que é impossível de suportar é viver em um mundo no qual o capital financeiro pode especular com os preços dos alimentos – como antes especulou com a moradia – criando uma bolha que matará de fome milhões de famílias. O que é impossível, inclusive, é que o equilíbrio ecológico deste planeta possa resistir a um ritmo de crescimento como o exigido pelo capitalismo. Frente à utopia suicida do capitalismo, o que é preciso reivindicar é um pouco de sensatez. Basta, com efeito, colocar a Declaração de direitos humanos sobre a mesa e perguntar com suficiente energia pelas condições materiais que seria preciso colocar em jogo para que se cumpra. São os capitalistas e seus espadachins pagos os que hoje pedem a Lua, não nós.

Na verdade, o lema da “imaginação ao poder” significa, hoje em dia, o contrário do que se concebeu em 1968. Podemos parar um momento para refletir sobre o assunto, se trazemos agrupado o conceito de “desnível prometeico” de Gunther Anders. Este grande filósofo utilizou esta expressão, “desnível prometeico”, para nomear a enorme desproporção que existe atualmente entre o que podemos fazer tecnicamente e o que somos capazes de imaginar e de viver emocionalmente. Esta desproporção já é tão grande que entre nossa vontade e nossos atos se abre um abismo sem fundo.

Parafraseando a Anders: na atualidade é impossível saber o que você está fazendo quando faz o que faz. O fato de usar o celular ter alguma obscura e misteriosa relação com o tráfico de coltan no centro africano e com uma guerra genocida que provocou mais de uma dezena de milhões de mortos, implica em pensar numa série causal que a imaginação humana, simplesmente, é incapaz de recorrer. Nas palavras de Anders, nestas condições, é como se o homem tivesse se convertido em um analfabeto emocional. A imaginação é incapaz de se tornar responsável pelo que a complexidade técnica do mundo coloca em jogo. Estritamente falando, em um sentido kantiano, o problema é tão grave que exigiria, para fazer justiça a uma reformulação contemporânea do imperativo categórico, reescrever a Crítica da Razão Prática sobre a base de que toda a “típica do juízo prático” tivesse se tornado impossível. Pois, com efeito, aí onde a imaginação fracassa, o que fica impossível é o esquematismo da razão prática, ou seja, a possibilidade mesma de exemplificar os mandatos morais. É claro, este problema é também o que verdadeiramente está no fundo da questão arendtiana da “banalidade do mal”.

Assim, pois, poderíamos desembocar em um naufrágio inevitável e definitivo da razão prática nas condições técnicas contemporâneas, mas não fora, pois, como corajosamente defende Anders, é possível reformular o imperativo categórico no sentido seguinte: trabalhe de tal maneira que a tua imaginação não fracasse. Trata-se, na realidade, de uma reformulação surpreendente e inesperada do famoso lema de 1968, da “imaginação ao poder”. Se é preciso dar o poder à imaginação não é, neste sentido, pelo que esta faculdade tem de transbordante criatividade ilimitada, mas, muito pelo contrário: porque sua teimosa limitação, sua esquálida finitude, corresponde politicamente muito melhor com os limites da condição humana que nos propomos preservar. Frente a um mundo transbordante que, como diria Lacan, “tudo é possível”, a imaginação humana tem que ser uma âncora e uma inércia: a possibilidade de um mundo à medida da finitude do ser humano. “Não faça nada que transborde os limites do que a sua imaginação é capaz de conceber” é o mesmo que se comprometer com um mundo que seja feito à medida desse ser finito e modesto, que é – de acordo com os trabalhos etnográficos que corroboram – o ser humano.

Apesar de que eu diria que, ainda melhor do que Gunther Anders ou Hannah Arendt, a teologia da libertação acertou de cheio no alvo ao criar o conceito de “pecado estrutural”.

Vivemos em um mundo no qual as estruturas matam com muito maior eficácia e crueldade do que as pessoas. É absurdo, portanto, colocar o acento na maldade ou no pecado como um assunto exclusivamente pessoal. Por muito complexo que se tenha tornado, neste mundo, distinguir o bem do mal, há uma coisa que garanto que é mal: “o próprio fato de que exista um mundo assim”. Se vivemos em um mundo em que “é impossível saber o que realmente você está fazendo quando faz o que faz”, então, é porque vivemos em um mundo muito mal. O lema dos movimentos antiglobalização – “outro mundo é possível”, “outro mundo tem que ser possível” – converte-se, então, em um imperativo ético inevitável. É insuportável viver em um mundo em que basta meter as poupanças em um fundo de pensões para ter que se perguntar com quantas ignomínias e matanças se colabora sem saber.

Como já disse outras vezes (5), acredito que o conceito mais interessante que se forjou na reflexão ética e moral do século XX foi o conceito de “pecado estrutural”. É preciso recordar que, enquanto um bom punhado de padres e religiosas lançavam suas vidas lutando contra ditaduras terríveis e tentando mudar este mundo injusto, a filosofia acadêmica estava tentando decifrar Derrida ou dando voltas e voltas ao insondável mistério que eles chamavam “o dilema do prisioneiro”, algo assim como se todo mundo se comportasse como um autêntico filho de puta, de qualquer modo, o resultado, incompreensivelmente, não é o melhor dos possíveis.

A teologia da libertação, ao contrário, enfrentou um problema de primeira ordem: neste mundo, as estruturas são piores do que as pessoas. Por mais que um indivíduo se empenhe em fazer o mal, sempre resultará em um patético Fu Manchu se comparado com o cotidiano e rotineiro genocídio estrutural da globalização. Quando as estruturas são imorais, a questão moral é “qual a responsabilidade que temos em relação às estruturas”.

Em um mundo em que as estruturas violam os mandamentos com uma eficácia colossal e ininterrupta, é imoral se limitar a respeitar os mandamentos... e as estruturas. Resumia isto assim no citado artigo: “A verdadeira questão moral é qual a responsabilidade que temos para que determinadas estruturas perdurem e o que estaria em nossas mãos fazer para substitui-las por outras. É óbvio que isso passa pela ação política organizada e não pelo voluntarismo moral que tenta inutilmente se afastar da maquinaria do sistema. Não é a força de não mover as peças ou de movê-las o menos possível, como quando se para de jogar o xadrez, se é isso o que se pretende. Para deixar de jogar xadrez e começar a jogar parchis é preciso mudar o tabuleiro. Caso contrário, a única coisa que se consegue é perder o jogo, e o jogo de xadrez, não o de parchis. Não sei se você capta a mensagem: vivemos em um mundo tão imoral que não tem soluções morais, aqui nada mais vale a não ser soluções políticas e econômicas muito radicais. E a única questão moral relevante que ainda temos sobre a mesa é a de que teríamos a obrigação de estar agindo politicamente para que o mundo deixasse de jogar neste tabuleiro econômico genocida. A questão não se refere a se eu posso usar menos o celular para participar o menos possível da matança centro-africana que o tráfico de coltan provocou. A questão é como e de que maneira atacar os centros de poder que a geram. Minha responsabilidade na matança não é a de utilizar o celular. Minha responsabilidade é a de aceitar viver em um mundo em que utilizar o celular está relacionado a não sei com que guerras do continente africano. É o mundo que é intolerável, não nós. Sim, é intolerável que aceitemos de braços cruzados um mundo intolerável”.

Acredito que a esquerda anticapitalista deveria ter considerado seriamente esta oportunidade de ouro que vinha das fileiras do cristianismo. Porque o que lhe era oferecido de bandeja não era apenas o conceito mais interessante da reflexão ética do século XX. Estava sendo oferecida a possibilidade de uma mobilização massiva capaz de fundir a energia popular do cristianismo com um plano político para enfrentar as estruturas mais profundas do capitalismo.

Como eu não sou especialmente cristão, não insistirei muito nisso. Porém, acredito que deveria se formar algo como um “Círculo Cristão de PODEMOS”, capaz de explicar à população que se este mundo é intolerável para a razão, por maior motivo também o é para o cristianismo.

Notas

1. Este artigo, pensado e elaborado pelos dois autores citados, está redigido em primeira pessoa por Carlos Fernández Liria por uma questão meramente retórica.

2. Ocupei-me do assunto da fraternidade em meu livro: “Para qué servimos los filósofos?”, La Catarata, 2013. Para uma leitura republicana de Marx, cf. Fernández Liria, C. e Alegre Zahonero, L.: “El orden de El Capital”, Akal, 2012.

3. Cf. esta mesma revista, em meu artigo “Comunismo para a cidadania” (Êxodo, n. 119, junho 2013).

4. Ocupei-me disso em vários lugares, por exemplo, em “Geometría y Tragedia” (Hiru, 2002), no capítulo intitulado “A lógica do extermínio”.

5. Cf. “Los diez mandamentos del siglo XXI”, El viejo Topo, n. 251, dezembro de 2008.

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