Papa Francisco e o desafio de beleza. Entrevista com Julián Carrón

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15 Mai 2014

Eles falam a mesma língua, mesmo que um seja espanhol de Estremadura, e o outro seja argentino. Nessa segunda, no Salão do Livro de Turim, o padre Julián Carrón, 64 anos, desde 2005 o sucessor do padre Luigi Giussani à frente do Comunhão e Libertação, apresenta La bellezza educherà il mondo (Ed. Emi, 64 páginas), uma coleção de discursos do então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio.

A reportagem é de Michele Brambilla, publicada no jornal La Stampa, 12-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Será uma oportunidade para fazer o balanço da Igreja a um ano de distância de um conclave que parece tê-la revolucionado. "A primeira pergunta", diz-me Carrón, com quem eu me encontro na sede do Comunhão e Libertação em Milão, "é a imponência de um fato que a todos nos surpreendeu".

Estamos sentados ao redor de uma mesinha. Às suas costas, pende um retrato do padre Giussani, o "Gius", como ainda o chamam os seus, enquanto Carrón, que, apesar do excelente italiano, não consegue não trair o sotaque castelhano, parece que o chama de "Iussani". É um homem gentil, sempre sorrindo.

Eis a entrevista.

Padre Carrón, qual é o primeiro resultado, se assim se pode dizer, do papado de Bergoglio?

Em pouco tempo, o Papa Francisco conseguiu, com os seus gestos, colocar-se como testemunha desarmada do poder da fé.

Por que desarmado?

Por que ele só se apoia no poder do testemunho. Não se apoia em uma política de hegemonia. Francisco acredita que o testemunho tem em si um poder que pode ser entendido por todos. Sabe como dialogar, com a sua simplicidade, com o coração de todo homem.

As pessoas o percebem como alguém sincero?

Parece-me evidente que sim, percebem-no como sincero. As pessoas entenderam que os seus gestos não são chamativos, mas trazem dentro a ênfase da verdade. O coração do homem é capaz de interceptar a verdade. Portanto, ele logo entendeu que Francisco não representa, que ele é realmente assim. Seriam muitas as coisas para representar!

O senhor já o conhecia antes que ele se tornasse papa?

Não, nunca tivera contatos com ele. Sei que na Argentina ele havia apresentado alguns livros de Giussani. Mas nós sentimos com ele uma sintonia particular, uma forte sintonia. Primeiro, pela centralidade de Cristo na qual o papa insistiu tanto nesses meses. Pelo seu grande desejo de que o anúncio de Cristo chegue a cada homem. E depois Francisco destaca aquelas que ele chama de periferias existenciais. Nós nascemos nos ambientes, por assim dizer, "normais" da vida, na cotidianidade em que se joga a vida. Nós desejamos ver que a fé é capaz de entrar na realidade de todas as coisas e de mostrar todo o seu poder de mudança.

E lhe parece que esse papa também insiste em tal "centralidade"?

Mas é claro! A sua insistência no fato de que é essencial anunciar Cristo indica um método para a Igreja. Neste momento, ele considera crucial que todos os homens possam ser alcançados pelo abraço de Cristo.

O senhor está dizendo: como Giussani, Bergoglio também anuncia o cristianismo não como uma moral, mas como um fato.

Exato. De todas as coisas das quais se pode começar, ele escolheu uma que me parece crucial. O anúncio do cristianismo como um fato que aconteceu e que acontece sempre foi uma característica nossa. Mas atenção: não estou dizendo que este papa segue o Comunhão e Libertação. Ao contrário, digo que nós sentimos Francisco como um forte chamado à conversão, a nos fazer viver cada vez mais essa essencialidade que este é Cristo.

É verdade que Francisco agrada muito também aos não crentes?

Sim, é um fato novo, que fala da necessidade que as pessoas têm de encontrar, no momento histórico que estamos vendo, uma pessoa que desperte uma esperança.

Alguns católicos críticos dizem: ele agrada o mundo porque o compraz.

Não me parece que ele tente agradar o mundo comprazendo-o.

Eles dizem: ele reduziu a figura do pontífice, não conserva mais as distâncias com o povo.

Mas Jesus não conservava as distâncias! Ele esteve no meio da rixa! Se há um Deus não distante é o Deus da Encarnação. Ele se fez homem para se tornar como nós e para estar no meio de nós.

Outra crítica: ele é pauperista para obter o aplauso do mundo progressista.

Francisco tem gestos de ruptura e de pobreza. Mas não é uma atitude: ele é assim. Ele sempre viveu no meio das pessoas, nas periferias.

Na Igreja há a necessidade de limpeza?

Eu não sei como as coisas realmente estão. Mas é fato que há um desejo de mudança para colocar aquela grande estrutura que é a Igreja a serviço da evangelização. Por outro lado, a Igreja é, por definição, semper reformanda.

O senhor não acha que nós, da mídia, estamos banalizando o Papa Francisco?

O risco de reduzir o porte de uma figura assim sempre está à espreita. Mas eu acho que o fato que estamos assistindo é muito mais importante do que qualquer estratégia jornalística seria capaz de produzir.

Padre Carrón, há apenas duas semanas, em Roma, dois papas santificaram outros dois papas. Pareceu um momento triunfal. No entanto, muitos católicos observam que esse triunfo cobre uma mediocridade, um cansaço na vida de todos os dias da Igreja.

Sim, pode haver mediocridade e cansaço. Mas a situação atual não é menos favorável ao anúncio cristão a uma humanidade que está "ferida", como disse Francisco. Tudo vai depender se nós acolheremos o dom que Cristo nos deu com esse papa, para poder segui-lo e oferecer uma esperança a muitas pessoas que estão esperando uma luz na escuridão.

Última pergunta, padre Carrón. O senhor alguma vez pensou em estar em uma Igreja com dois papas?

A renúncia de Bento XVI também foi um choque, é inútil negar isso. Mas a coexistência entre dois papas, que parecia que podia ser um perigo, ao contrário, se revelou como um testemunho de comunhão que surpreendeu, espantou a todos. Não só pela discrição de Bento XVI, mas também pela forma como Francisco o encorajou a participar da vida da Igreja. O resultado é algo que sempre traremos nos olhos e que documenta uma grande liberdade.

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