Na Itália, sem os imigrantes, os aposentados ganhariam menos. Entrevista com o sociólogo Maurizio Ambrosini

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Por: Jonas | 14 Maio 2014

Com a chegada em território italiano, na semana passada, de 4.362 imigrantes provenientes do norte da África, segundo informou a operação naval de resgate Mare Nostrum, muitos italianos se perguntam se este êxodo terá fim e quando a União Europeia (UE), da qual esperam novas medidas desde o ano passado, passará à ação. Depois das eleições para o Parlamento Europeu, no final de maio, o panorama político poderá ser mais claro e talvez o tema imigração passe a estar entre as prioridades. Fala-se de mais de 20.000 expatriados do norte da África, que chegaram à Itália desde janeiro, e o ministro do Interior, Angelino Alfano (centro-direita), afirmou recentemente que entre 300 e 600.000 imigrantes estão prontos para partir da Líbia.

Muitas das coisas que são ditas e publicadas na Itália, na Europa e no mundo, no entanto, são o resultado de uma mistificação do problema, sem bases reais, ou de um uso político e midiático, explicou ao jornal Página/12, o sociólogo especialista em migrações Maurizio Ambrosini.

Ambrosini é professor da Universidade de Milão, diretor da revista Mondi Migranti e acaba de publicar um livro relacionado a este tema: “Imigrazione irregolare e welfare invisibile”.

A entrevista é de Elena Llorente, publicada por Página/12, 10-05-2014. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O fluxo migratório do norte da África será interrompido, em algum momento, ou está destinado a crescer?

É preciso colocar o problema dentro de um contexto mais amplo, que é o da Itália como país que recebeu de 4,4 a 5,3 milhões de imigrantes nas últimas décadas. No ano passado, entraram cerca de 400.000, muitos convocados por seus familiares que vivem no país, mas também por outros motivos. O que na realidade é necessário distinguir entre o drama das chegadas, as tragédias no mar e o efeito midiático, é o real impacto demográfico e econômico dessas chegadas do norte da África, que são uma gota em comparação com os números totais da imigração na Itália. A imigração está muito mais radicada na sociedade do que se quer acreditar. O problema é que, por exemplo, a mulher imigrante, que trabalha em uma família italiana, mesmo que irregular, não é percebida como tal, é uma irregularidade tolerada. O interessante é que no debate público se fala muito dos desembarques e dos refugiados, mas não enxergamos o fenômeno maior. É como se nos concentrássemos em ver a árvore, mas não vemos a floresta.

Você não acredita que a impressão causada pela chegada de tantas barcaças cheias de imigrantes tem um efeito importante na opinião pública e até poderia mudar o voto na Europa?

É preciso diferenciar entre os meios de comunicação, a política e a opinião pública. Por certo, a opinião pública está muito impressionada pelas chegadas que vê, via mar, através dos meios de comunicação e pelas histórias que todas têm por trás. A política procurou enfrentar o problema e lançou (a operação de resgate) a Mare Nostrum, que evitou novas tragédias.  Porém, tudo isto se presta a muitas especulações políticas e eleitorais.

Alguns criticam a Mare Nostrum porque dizem que agora os imigrantes viajam mais tranquilos, pois sabem que serão resgatados.

Sim, as críticas são em parte verdade, porque eles sabem que serão ajudados. Porém, não se deve esquecer que no dramático 2013 (morreram dezenas de imigrantes) vimos que chegavam a mesma quantidade, ainda que não houvesse ajuda. Um país democrático não pode deixar as pessoas morrerem no mar. Acredito que a Mare Nostrum é uma obrigação humanitária, que não podemos evitar. Talvez se devesse pensar em novas formas para que os imigrantes pudessem apresentar um requerimento de asilo, em seus próprios países, antes de se lançar ao mar. Quem disse que para apresentar um pedido de asilo é preciso chegar à ilha Lampedusa? É que de alguma maneira nós os obrigamos a atuar assim.

Critica-se muito a União Europeia por não tomar certas medidas para ajudar a Itália...

A Alemanha, em 2013, recebeu mais de 100.000 refugiados e tem radicados 560.000; a Itália recebeu 28.000 pedidos e tem radicados 60.000. A maior parte dos imigrantes quer ir para outros países. A Alemanha, França, Noruega, Suécia, Turquia, para dizer alguns, tiveram mais pedidos de asilo do que nós, razão pela qual é outro conto aquele que diz que a Europa vira o rosto, não ajuda, não se importa com o que acontece na Itália. Na Europa são acolhidos muito mais refugiados do que na Itália. Muitos dos que chegam à Itália não apresentam um pedido de asilo político aqui, e com a benigna tolerância de nossas autoridades, atravessam os Alpes para ir apresentá-lo em outros países. Há uma análise equivocada na Itália, acredita-se que há um desequilíbrio em matéria de recepção de refugiados, que Itália está em desvantagem. Para dizer verdade é o oposto disso.

O que a União Europeia poderia fazer concretamente?

Em nível europeu, o ponto que se deve discutir são as regras de Dublin, a Convenção de Dublin de 2003. Nela se estabelece que aquele que pede asilo é obrigado a apresentar o requerimento no primeiro país da União em que pisa. Regra não por acaso, mas, sim, imposta pelos países do norte da Europa para obrigar os países do sul da Europa, incluindo a Itália, a fazer sua parte. É necessário rever Dublin, fazer uma política europeia para os imigrantes e esboçar políticas de reinserção.

No entanto, há muita gente que escapa do próprio país por razões econômicas. Eles não preenchem os requisitos para ser refugiados, para o qual se exige ser um perseguido político. O que aconteceria com eles, então?

Cerca de 80% dos que chegam pelo mar tem o direito de pedir asilo porque vêm de países em guerra. A maior parte dos imigrantes econômicos chega a Europa com um visto turístico. Há muitas outras vias, mas a mais comum é a permissão turística. Porém, é preciso enfatizar que diminuíram muito, nos últimos anos, as chegadas desses imigrantes por causa da crise.

Quanto os imigrantes têm contribuído à economia italiana?

A avaliação é mais ou menos assim: os imigrantes já chegam aqui formados, razão pela qual não há custos de pediatria, nem de educação. Não são idosos, razão pela qual os custos de saúde são contidos. São jovens adultos que, em sua maioria, trabalham. Às vezes, possuem um nível de ocupação mais alto do que a população nacional, na Espanha e na Itália, por exemplo. São jovens adultos trabalhadores, razão pela qual é muito mais o que pagam para o Estado em impostos do que o que tiram. Se os imigrantes na Itália hoje são 10% dos ocupados, quer dizer que contribuem 7/8% com as aposentadorias que são pagas. Sem os imigrantes, os aposentados ganhariam 7/8% menos.

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Na Itália, sem os imigrantes, os aposentados ganhariam menos. Entrevista com o sociólogo Maurizio Ambrosini - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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