José 'Pepe' Mujica: um líder singular

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08 Maio 2014

Durante muito tempo, ele teve o costume de dormir cedo ouvindo as formigas lhe falarem no ouvido. Às vezes, ele conversava com uma ou várias rãs. Com os ratos, ele dividia seu naco de pão.

A reportagem é de Nicolas Bourcier e Christine Legrand, publicada pelo jornal Le Monde e reproduzida pelo Portal Uol, 07-05-2014.

José "Pepe" Mujica é o sobrevivente de um mundo que ele mesmo varreu do mapa. Preso durante treze anos nos cárceres da ditadura militar no Uruguai (1973-1985), torturado e enclausurado por dois anos no fundo de um poço, esse ex-líder dos Tupamaros, a principal guerrilha urbana do país, virou a página e foi trabalhando passo-a-passo pelo retorno da democracia.

Essa ascensão a partir das trevas culminou em novembro de 2009, com sua eleição à presidência, obtendo 53% dos votos. "Eu quase enlouqueci quando estive preso", ele diz. "Hoje, sou prisioneiro de minha liberdade de pensar e de decidir. Eu a cultivo e luto por ela. Posso me enganar, até redondamente, mas uma de minhas raras virtudes é dizer o que penso."

É um personagem singular. Aos 78 anos de idade, acomodado em sua cadeira de madeira, cercado por livros e silêncio, com um par de sandálias nos pés e um busto de Che Guevara como espelho, José Mujica remete à imagem de um Diógenes latino, um patriarca benevolente, um último homem, evidentemente indignado. Um dos raros a terem conhecido o nada.

"O melhor líder do mundo"

Ele se define como um "humilde camponês", ao nos receber em sua pequena fazenda cravada no meio do campo, a meia hora da capital Montevidéu. Ele fala de si e de seu Uruguai natal na primeira pessoa do plural: "Somos uma voz republicana para o mundo".

Compreender um possível futuro, um caminho a se seguir para o bem comum, por mais modesto que seja, com a política como ética e a honestidade como viático.

"Eu estou relendo Platão para buscar chaves de compreensão, pois absolutamente nada é novo.", diz. É uma maneira muito pessoal de lembrar seu famoso alerta pronunciado na assembleia geral da ONU, em setembro de 2013: "A política, eterna mãe da existência humana, permaneceu limitada à economia e às leis do mercado."

Para a imprensa internacional, ele é o "político mais incrível", "o dirigente dos sonhos" ou simplesmente "o melhor líder do mundo", como acaba de afirmar a revista britânica "Monocle".

Às vezes seu nome é cogitado para o próximo Nobel. Mujica é também considerado como "o presidente mais pobre do mundo", porque ele reverte 87% de seus rendimentos a organizações de moradia social. É uma expressão que não lhe agrada: "Minha definição de pobreza é a mesma de Sêneca: pobre é aquele que precisa de muito, pois nada pode satisfazê-lo."

Não surpreende que ele tenha despertado uma "Mujicamania", chegando a fazer com que alguns de seus adversários se esquecessem de seu passado de guerrilheiro dentro de um grupo que sequestrou indivíduos e atacou bancos. Além disso, é preciso procurar entre esses ex-combatentes e aliados seus para ouvir críticas ácidas contra seu ex-companheiro, incapaz de retirar a imprescritibilidade dos crimes dos torturadores cometidos durante a ditadura.

Não importa. A revista norte-americana "Foreign Policy" o incluiu em sua lista dos cem intelectuais mais importantes do mundo por redefinir a esquerda latinoamericana. "Com a morte do presidente venezuelano Hugo Chávez", diz a revista, "muitos acreditaram que o movimento crescente da esquerda na América Latina ia morrer junto com seu populismo de camisas vermelhas. Mas as iniciativas e as escolhas controversas de Mujica provocaram novos debates, criando uma alternativa possível entre o antiamericanismo radical de um Chávez e o profundo conservadorismo social latino-americano."

"Temos um espírito inovador"

É preciso ver Mujica em campanha. Em nenhum momento da corrida presidencial ele emitiu a ideia de interromper seu programa em nome de uma conciliação ou de um eventual desejo de "governabilidade".

Ele não cedeu uma única vez a qualquer discurso destinado a seduzir o eleitorado da oposição, como ressalta a publicação semanal brasileira "Carta Capital". "Mesmo durante as cúpulas com os poderosos do mundo", ele conta, "os líderes me dizem que tenho razão. Mas nada acontece. É por isso que sempre repito a mesma coisa. É preciso insistir, tentar convencer." E diz ainda, com um leve sorriso: "Tenho a coragem agressiva de dizer as coisas. Isso é mal visto no mundo atual, onde as pessoas dissimulam e maquiam suas declarações. Talvez seja isso que chame a atenção em mim."

Dois anos após sua posse, Mujica descriminalizou o aborto até o terceiro mês de gestação. Mesmo com grandes restrições, a lei é única na América do Sul. Menos de um ano depois, ele conseguiu a aprovação do casamento gay, lembrando na ocasião que seu país havia legalizado o divórcio desde 1913.

"Sim, temos um espírito inovador, profundamente enraizado em nossa história", ele afirma. "Somos uma terra de imigrantes, de perseguidos e de anarquistas do mundo inteiro. Isso resultou no país mais laico da América Latina, com uma separação clara entre Igreja e Estado. Eu mesmo sou presidente e não acredito em Deus". São palavras impossíveis de se ouvir em qualquer outro país vizinho, o que não o impediu de ser recebido em junho de 2013 pelo papa Francisco, que o chamou de "personagem admirável."

O ponto culminante ocorreu no dia 20 de junho de 2012. Nesse dia, o governo anunciou em uma coletiva de imprensa dedicada à "segurança pública e ao bem-estar comum" que o Estado assumiria a produção e a venda da maconha, legalizada e regulada.

A medida é tão avançada em comparação com experiências conduzidas nos Estados norte-americanos do Colorado e de Washington, na Holanda e na Espanha, que o público no início acreditou que fosse somente palavreado, ou até mesmo uma piada. O texto, pelo qual Mujica tanto batalhou, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2013 e entrará em vigor no dia 6 de maio de 2014.

Até o final do ano, quando a erva terá crescido e o mercado se organizado, o usuário uruguaio que for maior de idade e registrado junto às autoridades poderá comprar na farmácia até 40 gramas de maconha por mês, a US$ 1 o grama, produzido e comercializado sob controle do Estado. Ele também autoriza o consumidor a cultivar sua própria erva em uma cooperativa de bairro ou em sua casa, dentro do limite de seis plantas por lar. Talvez Mujica seja isso. Um homem que diz nunca ter fumado um baseado e que sabe que 62% dos uruguaios são contra a legalização da maconha, mas que não hesita em implantar a primeira produção estatal de maconha do planeta. É uma medida de segurança pública, segundo ele, ao querer separar os usuários dos traficantes, e a maconha das outras drogas.

"Um pouco como François Mitterrand"

O narcotráfico vem assumindo proporções alarmantes na América Latina, mas ainda poupa o Uruguai, que possui um índice de consumo até baixo. Não importa. "Temos aqui um ditado entre os camponeses," responde o presidente. "Quando você vê a barba do seu vizinho em chamas, você mergulha a sua na água". Ele sorri.

"Essa lei é um teste, não significa que tenhamos a solução definitiva. Mas nossos vizinhos deverão dar uma olhada em nosso pequeno país, que poderia ser o laboratório perfeito para essa experiência." Ele recua em sua cadeira. "Minha única certeza é que a política de combate às drogas iniciada há décadas é um fracasso retumbante. Estou contente por ter bagunçado o coreto!"

Seus aliados reconhecem que o assunto não lhe interessava até alguns anos atrás, mas se apressam em acrescentar que Mujica leu e trabalhou incessantemente no assunto, muitas vezes sozinho, antes de tomar sua decisão, alinhado com alguns poucos membros de seu governo.

"Só uma personalidade como ele para se comprometer com uma decisão tão impopular como essa", afirma o jovem deputado Sebastián Sabini, um dos autores da lei. "Agora Mujica é uma figura histórica e não tem medo, um pouco como François Mitterrand com a abolição da pena de morte", diz o analista político Adolfo Garce, lembrando também esse quê de cultura transgressiva própria dos tupamaros, "ainda meio obcecados com essa vontade de chocar a burguesia". Não foi ele que acabou de oferecer acolhida no Uruguai, a pedido de Barack Obama, a cinco prisioneiros de Guantánamo?

No fundo, Mujica se diz anarquista, "mas tenho minhas contradições". Depois ele desabafa, em um fôlego só: "Acho que o reconhecimento do casamento gay, o aborto e a lei de regulamentação da maconha são progressos. Mas eles só os serão de maneira definitiva no dia em que houver menos distância entre os pobres, os indigentes e os mais ricos". Ele se levanta. O telefone fixo sobre sua escrivaninha, assim como seu celular, não tocaram nenhuma vez em duas horas. "As pessoas sabem que não gosto disso, então me ligam pouco", ele conta antes de sair ao ar livre.

Vendo-o em pé, posando para a foto ao lado de sua cachorra sem uma pata e seus dois Fuscas azuis, estacionados atrás de sua casa rodeada por crisântemos que ele rega todas as manhãs, vem à mente a frase provocadora do jornalista Graziano Pascale. Comentarista político e notório opositor, ele disse um dia que Mujica era "aquele tio velho meio maluco que todos têm na família".

Meio maluco, pode ser, mas cativante e sobretudo um espécime único entre os dirigentes do mundo. Ele nos cumprimenta e dirige o olhar para sua cadeira de madeira, fazendo menção de querer retomar o curso de sua surpreendente história, cercada de livros e de silêncio. "Sabe o que é envelhecer? Não ter mais vontade de sair de casa."

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