Viver num mundo de fantasia ou como escrever sobre a Palestina para os principais meios de comunicação

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Por: André | 02 Mai 2014

“Além de repetir palavra por palavra o que Kerry e outros funcionários dizem, nenhum destes relatórios explica na realidade algo substancial, deixando normalmente o leitor confuso e indiferente. De tal maneira que, baseados neste e, literalmente, em centenas de artigos semelhantes publicados durante várias décadas nos meios tradicionais, criaram um roteiro para aspirantes aos taquígrafos corporativos, perdão, jornalistas; particularmente, aqueles que desejam escrever sobre a Palestina e o chamado ‘conflito israelense-palestino’”.

 
Fonte: http://bit.ly/1iDTfcT  

A análise é de Roger Sheety, escritor e pesquisador independente, e publicada no sítio Rebelión, 19-04-2014. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Enquanto o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, corre de um país a outro numa tentativa (aparentemente) desesperada de último minuto para salvar a última rodada de falsas conversações de “paz” entre israelenses e palestinos a ponto de fracassar, os jornalistas dos meios de comunicação o estão seguindo devidamente, informando sobre cada uma das suas palavras, como se o destino do mundo dependesse disso. Por exemplo:

“As conversações entraram num beco sem saída, já que cada lado acusa o outro de má fé e coloca obstáculos no caminho de uma solução”, escrevem Michael Gordon e Isabel Kershner no New York Times. “Preocupado com o fato de que o processo se encontrava em perigo de colapsar, Kerry fez um apelo público aos líderes para que protagonizem e não permitam que o processo se deteriore mais ainda” (“Israel detém a libertação de prisioneiros enquanto as conversações entram num beco sem saída”).

“O Sr. Kerry andou para trás e para frente pelas negociações entre Israel e os palestinos nas últimas semanas”, suspirou a BBC. “No entanto, Washington expressou sua exasperação diante do que chama de ‘ações unilaterais inúteis’ adotadas por ambas as partes” (“Kerry apela à ‘realidade’ nas conversações de paz no Oriente Médio”). Pobre senhor Kerry, que há de fazer?

“Os Estados Unidos começaram, na sexta-feira, 19 de abril, uma nova e dolorosa avaliação após 15 meses de buscas de um acordo cujo fracasso, segundo disseram funcionários estadunidenses, pode provocar ações palestinas violentas contra a ocupação israelense, e novos apelos na Europa para um boicote econômico contra Israel”, escreveram Jay Solomon, Carol Lee e Nicolas Casey no Wall Street Journal (“A Casa Branca sinaliza pausa nas conversações no Oriente Médio”). (Sim, são necessárias três pessoas para escrever essa bobagem.)

No entanto, além de repetir palavra por palavra o que Kerry e outros funcionários dizem, nenhum destes relatórios explica na realidade algo substancial, deixando normalmente o leitor confuso e indiferente. De tal maneira que, baseados neste e, literalmente, em centenas de artigos semelhantes publicados durante várias décadas nos meios tradicionais, criaram um roteiro para aspirantes aos taquígrafos corporativos, perdão, jornalistas; particularmente, aqueles que desejam escrever sobre a Palestina e o chamado “conflito israelense-palestino”.

Em primeiro lugar, nunca falar da Nakba, a vigorosa destruição da Palestina em 1947-1948 pelos sionistas europeus. Embora esta seja a causa da raiz do “conflito”, é um tabu – dessa maneira não se fala disso. Nem mencionar a destruição dos mais de 630 povoados palestinos que foram repovoados e depois destruídos por essas mesmas forças sionistas. Também não se deve falar da limpeza étnica na Palestina, do uso dos massacres e do terror para despovoar as cidades palestinas, como Haifa, Akka (Acre), Safed, Jaffa, Jerusalém, Berseba, Lida e Ramle, por exemplo. Tampouco trazer à tona o Plano Dalet, que era o plano mestre sionista de limpeza étnica da Palestina da sua população indígena através de múltiplos massacres e do uso do terror.

Não deve relacionar o Plano Dalet ao Plano Allon, que era o plano para dominar o resto da Palestina, em 1967: Gaza, Leste de Jerusalém e Cisjordânia, além do roubo do Sinai do Egito e das Colinas de Golã da Síria. E não mencione os projetos do Plano Prawer, que é o atual regime israelense para desalojar à força os beduínos palestinos que ficam no Naqab (rebatizado de Negueb pelos sionistas) e roubar suas terras. Não falar destes planos, porque os israelenses nunca planejam roubar a terra de outros, tampouco matar e limpar etnicamente as populações indígenas árabes dali. Estas coisas acontecem. E são, além de tudo, uma “vizinhança difícil”.

Você pode fingir interesse pelos refugiados sírios e iraquianos, mas jamais dos refugiados palestinos, apesar de que foram despejados e que vivem em campos de refugiados no Líbano, Síria, Jordânia, Gaza e Cisjordânia há mais de seis décadas e meia. Não fale do seu direito inalienável de voltar às suas casas e suas terras roubadas, apesar de que este direito se baseie no direito internacional e é aplicável a todos os povos do mundo. Além disso, nunca fale com os refugiados palestinos. Ponto final.

Adotar termos israelenses/sionistas como próprios, embora sejam termos racistas e que você nunca usaria por decisão própria. Por exemplo, falar das crianças palestinas como “ameaças demográficas” e “bombas de tempo demográfico”. Evidentemente, não questionar quando os líderes dos Estados Unidos, como Barack Obama, Bill Clinton ou John Kerry, se referem às crianças palestinas como “bombas de tempo” e “ameaças à segurança de Israel”. Não pergunte, por exemplo: “O Sr. Kerry refere-se alguma vez aos estadunidenses latinos ou afroamericanos ou aos asiáticos na América como ameaças de bombas demográficas”? Ele não ia gostar.

Sempre se referem à agressão da resistência palestina como “terrorismo”. Os israelenses nunca são terroristas; eles, simplesmente, estão defendendo os seus interesses mediante a ocupação contínua e o roubo de mais terras palestinas, a demolição de casas palestinas, arrancando suas oliveiras, e matando ou prendendo todos aqueles que se interpuserem no seu caminho. Sempre denomine os palestinos que se negam a abandonar as suas casas e suas terras de “militantes”.

Culpe os palestinos cada vez que puder. Mas, caso se sentir generoso, utilize frases “equilibradas” que começam com “ambas as partes”. Por exemplo, “Ambas as partes são culpadas”, “Ambas as partes devem fazer concessões”, “Ambas as partes devem sentar-se à mesa”, “Ambas as partes estão sendo inúteis”, e assim por diante. Não trate de explicar como os palestinos também têm a culpa se tratam de defender suas casas, ou por levar Israel à Corte Internacional de Justiça, ou utilizar uma linguagem clara e concreta para explicar como estão roubando suas terras, exatamente diante deles. De qualquer modo, estas pessoas são militantes irracionais.

Utilize termos como “segurança de Israel” para encobrir o fato de que Israel se nega a definir suas fronteiras e, por sua vez, utiliza este fato para continuar roubando terras palestinas. Além disso, utilizar este mesmo termo para encobrir o fato de que Israel é o único Estado do Oriente Médio que, na realidade, tem armas nucleares, ameaçou utilizá-las no passado, e bem pode ameaçar usá-las novamente. Mas, se puder evitá-lo, não mencione o programa secreto de Israel, ilegal e que não permite inspeção alguma sobre suas armas nucleares. É um segredo.

Faça de conta que este é um conflito entre duas partes iguais. Utilize frases como “isto é complicado” ou “é complexo”, em vez dos fatos históricos estabelecidos. Não fale de colonialismo, despojo palestino, nem das leis israelenses do apartheid racistas. Não faça reluzir o mapa da Organização Sionista Mundial, apresentado na Conferência de Paz de Paris em 1919, que mostrou como os sionistas europeus planejaram apoderar-se de toda a Palestina, assim como do sul do Líbano, das Colinas de Golã da Síria, partes da Jordânia, e partes do Sinai egípcio. Também não mostre este mapa, que está fartamente disponível na internet. Depois de tudo, você não quer que seus leitores somem dois mais dois. Porque, já sabe, é complicado.

Ao contrário, repita uma e outra vez que Israel é a “única democracia do Oriente Médio”, embora isso não exista e nunca tenha existido, para começar. Nunca mencione as mais de 50 leis racistas de Israel que, entre outras coisas, proíbem aos palestinos a compra das mesmas terras que lhes foram roubadas em 1948 e depois. Sempre se refira aos cidadãos palestinos de Israel como “árabes israelenses”, mesmo que rechacem o termo e sejam, de fato, palestinos. Não mencione o fato de que são, no melhor dos casos, cidadãos de segunda classe de um estado colonial de colonos e que têm família que vive a poucos quilômetros de distância, em vários campos de refugiados e que não podem visitar graças às leis racistas de apartheid. Também não mencione que estados artificiais coloniais como “Israel” nunca são democracias para os povos indígenas que despojam e usurpam.

Não mencione o movimento BDS [iniciais das palavras a seguir, em inglês], boicotes, desinvestimento e sanções. Não mencione que se trata de uma campanha internacional não violenta, iniciada pela sociedade civil palestina para boicotar os produtos israelenses “até que Israel cumpra o direito internacional e os direitos dos palestinos”. Mas se tiver que falar disso, adote a linguagem israelense/sionista de que os palestinos estão “destruindo” Israel, tratando de fazer que o estado prestes contas aos princípios mais básicos do direito internacional e da moral.

Não vincule ou mencione as notícias e análises dos sítios da internet que se dedicam à documentação deste “conflito” com uma visão não-corporativa (ou seja, real), como o Palestine Chronicle.com, Ma’an News.net, Electronic Intifada.net e Mondoweiss.net, por exemplo. Estes sítios da internet têm o péssimo costume de falar realmente dos palestinos. E muitos dos artigos inclusive são escritos pelos palestinos. Imagine isso. Além disso, não vincule ou cite os sítios da internet que proporcionam em contexto histórico completo sobre este conflito supostamente “complexo”. Sítios como o Palestina Remembered.com, If Americans Knew.org, ou Palestine Land Society, por exemplo. Lembre-se, o contexto histórico é algo ruim e deve ser evitado sempre que possível.

Faça de conta que os Estados Unidos são um “intermediário honesto” nestas conversações intermináveis, quando de fato são tudo menos isso. Não mencione o fato de que os Estados Unidos financiam Israel com vários milhares de milhões de dólares ao ano, fornece-lhe as armas mais perigosas do mundo, dá um tratamento especial às empresas israelenses, e dá apoio diplomático ilimitado a Israel, enquanto mata, despoja, e de algum modo, abusa diariamente dos palestinos.

Mencione o antissemitismo, os nazistas, a Guerra do Peloponeso, e qualquer outra coisa que lhe ocorrer para justificar o contínuo roubo de terras palestinas e a destruição da sociedade palestina. Não cite líderes sionistas como David Ben-Gurion, quando disse:

“Se eu fosse dirigente árabe, jamais chegaria a acordos com Israel. É natural: tiramos deles seu país. É verdade que Deus prometeu a nós essa terra, mas o que isso importa a eles? Houve antissemitismo, nazismo, Hitler, Auschwitz, mas o que isso tem a ver com eles? Eles só veem uma coisa: viemos aqui e roubamos o seu país. Por que deveriam aceitá-lo?” (Nahum Goldmann, O paradoxo judeu).

Eu poderia continuar, mas você já entende a ideia.

No entanto, se você segue o roteiro e a censura acima descritas, redige, ou de outra maneira, volte a escrever os fatos históricos, e, sem dúvida, se converterá em um grande sucesso em sua profissão escolhida como jornalista corporativo, especialmente na América do Norte. Quem sabe, talvez inclusive Hollywood o chamará para escrever filmes bestas de propaganda direta como Êxodo, de Otto Preminger, ou The Hurt Locker, de Kathryn Bigelow, que mostram os invasores como as vítimas e quem se defende, como selvagens ingratos e terroristas. Entendo que os escritores de fantasia fazem muito dinheiro em Hollywood por estes dias.

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