Na era Bergoglio, jesuítas reestudam a própria supressão

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17 Março 2014

Para explicar a dissolução da Companhia de Jesus (21 de julho de 1773 – 7 de agosto de 1814), no bicentenário do seu restabelecimento, o padre Michael Paul Gallagher, jesuíta irlandês, teólogo (foi professor da Pontifícia Universidade Gregoriana), especialista em literatura, membro da comissão para as comemorações de 2014, parte do historiador anglicano de Oxford, Owen Chadwick. Um olhar externo que faz transparecer um certo pudor para tratar um aniversário que diz respeito "à maior crise" da história dos jesuítas, justamente enquanto o primeiro papa jesuíta da história está reinante.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada no sítio Vatican Insider, 13-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E que o prepósito-geral da Companhia de Jesus, Adolfo Nicolás, decidiu (antes da eleição de Bergoglio) comemorar para jogar luz, sem triunfalismos, sobre um período historiográfico complexo e refletir também sobre a história posterior da Companhia de Jesus, que, com o Concílio Vaticano II, as mudanças culturais dos anos 1960 e o generalato do padre Pedro Arrupe (como Nicolás, espanhol que passou muitos anos de missão no Japão), mudou sua face.

"A supressão da Companhia, forçada ou não, foi o uso mais marcante do poder por parte de um papa. Abolir a ordem religiosa mais forte, sem uma investigação e sem supostas razões, foi um único ato de supremacia internacional. Não teria podido acontecer se Santo Inácio de Loyola não tivesse feito da obediência a suprema virtude da vida religiosa", é a análise de Owen Chadwick no livro The Popes and European Revolution (Oxford History of the Christian Church).

Um comentário "que talvez deve ser atenuado um pouco", segundo Gallagher, hoje reitor do Colégio Bellarmino. Na realidade, "o papa não queria, mas a força política sobre ele era grande demais". A supressão papal da Companhia de Jesus chegou depois de quase 20 anos de outras tantas supressões nos Estados bourbons (Espanha, Portugal, França).

Milhares de jesuítas se encontravam sem pátria, refugiados em países onde não foram acolhidos nem pelas instituições, nem – página sombria e dolorosa da história da Ordem – pelos coirmãos. Paradoxalmente, enquanto os reis católicos fazem guerra contra os jesuítas, os herdeiros de Santo Inácio se refugiaram na Rússia de Catarina II, que apreciava os seus colégios.

O motivo de tanta hostilidade? "Poder demais. Poder bom, poder mau. A ambiguidade do poder". Os jesuítas eram uma potência no campo da educação, criaram as "reduções" dos índios no Paraguai, ferindo os apetites de Espanha e Portugal no além-mar (um experimento que, destaca Gallagher com um sorriso, "o grande inimigo da Companhia, Voltaire, descreveu como o triunfo da humanidade").

E depois histórias objetivamente arriscadas e talvez criminosas, como a de Antoine Lavallette, jesuíta francês missionário na Martinica que, em seguida, se lançou no mercado e acabou na falência. O "símbolo", cita o jesuíta irlandês, "dessa fronteira entre as boas intenções e uma queda na mundanidade, que talvez seja uma parte da história da ordem da época".

Um período histórico complexo que agora o prepósito-geral pediu para se estudar. "Se não alimentamos a memória, perdemos a nossa identidade", explica Gallagher. Ele enfatiza especialmente o ensino dos jesuítas "sobreviventes" na Rússia: "Houve uma grande confiança na providência, muito poucas queixas. Eles tentaram continuar com as raízes da espiritualidade, sem pedir dinheiro, evitando a 'mundanidade da vida', é uma expressão deles. Como se tivessem reconhecido que, sim, os reis eram maus, mas nós, jesuítas, também não éramos vítimas totalmente inocentes". Não só, portanto, "memória histórica", mas também "pertinência daquele drama espiritual para hoje e para todos os tempos".

O bicentenário também é uma oportunidade para fazer as contas com a história da Companhia de Jesus, que, depois do restabelecimento, pode ser resumido assim: "Disciplina papal, fidelidade total, oposição ao mundo, suspeita da cultura, espírito defensivo contra a história. Fechamento, autoproteção, condenação, autoridade separada", explica Gallagher, quem também acrescenta: "Não estou falando apenas da Companhia, mas da Igreja no seu conjunto no século XIX. Os jesuítas sempre seguiram o papa. Antes do Concílio Vaticano II, eles eram muito fiéis à cultura interna da Igreja. E quando o Vaticano II criou uma reconciliação com a modernidade, depois de tantas guerras passadas, os jesuítas mais uma vez seguiram o papa".

O mesmo aconteceu com todas as ordens, destaca Gallagher: "O Concílio convidou a revisitar o carisma e a história, reencontrar uma certa liberdade e criatividade na missão. Nós, com Arrupe, homem de profundidade extraordinária, tivemos talvez uma dose mais forte ou mais rápida, a ponto de que alguns jesuítas espanhóis quase fizeram uma cisão, assustados pelas muitas mudanças muito rapidamente realizadas".

Hoje, revisitar as "raízes" – a partir do relançamento dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio nas últimas décadas – também é um modo de olhar com mais serenidade aqueles anos turbulentos.

Não é paradoxal que o bicentenário desse período – "a maior crise da Companhia" – caia justamente quando reina o primeiro papa jesuíta da história? Lembrar as "ambiguidades do poder" em que incorreram os jesuítas no momento em que os jesuítas assumiram o poder? "O principal jesuíta, isto é, Francisco, não concordaria em nada com isso!", responde Gallagher: "Ele não assumiu o poder, assumiu serviço!".

Certamente, há um "paradoxo" ou, melhor, um "convite": "A grande gratidão de ver um jesuíta que tem um impacto tão positivo sobre a Igreja e sobre o mundo para além da Igreja e poder segui-lo nesse caminho". "Mas não exageremos", acrescenta o jesuíta irlandês: "Para nós, a vida cotidiana de serviço da fé, da justiça e da vida espiritual continua com este papa ou com outro papa".

Gallagher conclui citando John Henry Newman, nascido em uma família anglicana, depois convertido ao catolicismo, cardeal da Santa Igreja Romana, finalmente beatificado por Bento XVI: "O coração é alcançado não através do intelecto, mas através da imaginação". Trata-se de "uma chave de leitura de Francisco, que está atingindo os corações através da imaginação. Com essa expressão de Newman – conclui Gallagher – começo a entender por que ele atinge os corações e talvez perturba outras pessoas que querem outra linguagem".

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