A partir de 1971, ordem era matar

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22 Março 2014

"Era o início da Guerra Fria. Meu pai era americanófilo, odiava a União Soviética. Dizia que os comunistas ameaçavam o Brasil. Um dia mandou minha mãe arrumar nossas malas. Queria nos mandar para a fazenda de um tio em Guaçuí (ES) para nos esconder dos comunistas", escreve Vera Saavedra Durão, jornalista, em artigo publicado no jornal Valor, 14-03-2014.

Eis o artigo.

Nasci em Lajinha, Zona da Mata Mineira. Meu pai era médico e minha mãe, dona de casa. Sou a mais velha de cinco irmãos.

Minha família era toda do PSD e odiava a UDN. Meu pai se candidatou a prefeito e perdeu a eleição. Meu avô materno era um imigrante espanhol com política no sangue e ficou muito desiludido. Mudamos para Manhuaçu.

Em 1964 meu pai resolveu levar toda a família para Belo Horizonte. Eu já estava no internato lá. Meu pai dizia que a educação era a única coisa que podia nos oferecer. E queria ficar por perto. Ele era amigo do comandante do batalhão da Polícia Militar de Minas, que se ofereceu para ajudar na mudança. Esse coronel estava na cidade articulando o golpe. Desembarcamos em BH pelas mãos da repressão.

Era o início da Guerra Fria. Meu pai era americanófilo, odiava a União Soviética. Dizia que os comunistas ameaçavam o Brasil. Um dia mandou minha mãe arrumar nossas malas. Queria nos mandar para a fazenda de um tio em Guaçuí (ES) para nos esconder dos comunistas. O Brasil se salvou do comunismo, mas a situação do meu pai piorou brutalmente. Profissionais liberais sofreram demais com o arrocho salarial e a política fiscal de [Otávio de Gouveia] Bulhões [ministro da Fazenda de 1964-67].

A gente tinha uma vida confortável, casa própria, um Chevrolet 54 que meu pai tinha importado, colégios caros. Depois do golpe, minha mãe começou a comprar tecido na liquidação e mandava fazer roupa igual para mim e para as minhas irmãs. De repente, meu pai passou a depender de um emprego de médico na Prefeitura de BH.

Avisei para o meu pai que não ia fazer medicina, como ele queria, mas jornalismo. Foi quando percebi que a insatisfação extrapolava as paredes da minha casa. Os DCEs estavam fechados, mas as faculdades eram agitadas e os estudantes, muito assediados pelas organizações.

Entrei com duas amigas na Polop [Organização Revolucionária Marxista-Política Operária]. Lá fiz curso de materialismo histórico e dialético com José Aníbal [deputado federal pelo PSDB e secretário do governo Geraldo Alckmin]. Nessa época Dilma [Rousseff] e [Cláudio] Galeno [primeiro marido de Dilma] já estavam na Polop.

Veio daí o racha. Uma turma da organização favorável ao modelo cubano - liderada pelo Beto [Carlos Alberto Soares de Freitas], Dilma, Galeno e Inês Etienne - criou o Colina [Comando de Libertação Nacional]. A maioria dos militantes da Polop de Minas aderiu.

A gente achava que os militares, apoiados pelos empresários do Ipes [Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais] e do Ibad [Instituto Brasileiro de Ação Democrática], tinham derrubado Jango porque eram contra a revisão da lei de remessa de lucros e a reforma agrária. Tudo em nome de uma modernização autoritária, com concentração de renda, para entregar o país ao imperialismo. A gente não via naquele momento nenhuma saída democrática.

Meus pais começaram a desconfiar da minha militância porque fui fazer movimento operário na periferia de BH. Minha mãe logo ficou sabendo de tudo, meu pai não se interessava muito. Era uma família típica de classe média. Eu e minha irmã viramos comunistas, meu irmão era maconheiro, outra irmã se casou com um hippie chileno e tinha um caçula, temporão, criança ainda.

Em janeiro de 69 a Colina fez a primeira ação armada, um assalto ao Banco do Brasil em Contagem, durante uma greve de operários. Nessa época meus pais viajaram e fizemos as reuniões no apartamento deles. A célula encarregada do assalto era comandada por Angelo Pezzuti, estudante de medicina que era uma espécie de ideólogo da organização. Fizeram o assalto, mas acabaram presos de madrugada. Foram levados ao Dops e barbarizados.

Depois desse assalto, boa parte dos militantes do Colina teve que cair na clandestinidade. Éramos umas 15 pessoas. Pedi a meus irmãos para dizerem a meus pais que eu ia viajar e depois daria notícias. O apartamento deles entrou no processo como "aparelho" e os policiais ficaram vigiando um tempão esperando que eu voltasse.

Viemos para o Rio com documentos falsos. Antes de alugar meu primeiro apartamento, morei com a Dilma em um hotel em Laranjeiras, numa casa antiga que foi demolida. Era o Hotel Bahia, bem ferrado, mas confiável, de velhos. A Dilma não era do comando, mas fazia contatos com o pessoal de outras organizações, como a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e a Dissidência da Dissidência (DDI), de Jorge [Eduardo Saavedra Durão, futuro marido de Vera]. Foi articulando a fusão dessas organizações que a Dilma conheceu Carlos Araújo [seu segundo marido].

Nessa época eu tinha tarefas meio incipientes, como alugar aparelhos, levar documentos, receber companheiros de BH e fazer levantamento para futuros assaltos. Em abril de 69 houve uma reunião em Teresópolis que ajudei a organizar, em que foi fundada a VAR [Vanguarda Armada Revolucionária] Palmares, juntando a VPR e a Colina, a organização de Carlos Araújo e a DDI.

Pouco tempo depois, com a entrada de Carlos Lamarca na VAR, foi feita a maior ação armada da esquerda em todos os tempos, o roubo do cofre do Adhemar [de Barros]. Foi um sobrinho da Ana Capriglione [amante de Adhemar], Gustavo Buarque Schiller, que passou a dica. Ele contava que parte da grana do cofre vinha da venda de um estoque de vacina de varíola que Adhemar tinha revendido ao Paraguai depois de mandar vacinar as crianças paulistas com placebo. Gustavo foi preso em abril de 70 e trocado no sequestro do embaixador suíço [Giovanni Enrico Bücher]. Casou em Paris, mas nunca mais se acertou na vida. Depois que voltou do exílio chegou a nos visitar no Rio. Um dia, voltando de uma festa se jogou da janela de seu apartamento na avenida Rui Barbosa. Tinha uma filhinha de 1 ano.

Depois da ação do cofre, meu aparelho caiu. Estava combinado que ali seria guardada provisoriamente uma pequena parte dos US$ 2,5 milhões que estavam no cofre. Saí logo do apartamento. A repressão baixou lá. Tio Paulo, meu fiador, foi preso. Era engenheiro, trabalhava na construção da ponte Rio-Niterói. Foi mandado para a Ilha das Flores. Ele não acreditava que havia tortura. Depois do que viu por lá ficou traumatizado.

Quando o aparelho caiu, a Dilma me botou em contato com outras companheiras com quem fui morar em um quarto alugado em Lins de Vasconcelos. O Mao Tsé-tung dizia que você tem que ser peixe n'água. Ali éramos quatro garotas que usavam roupa curta com jeito de Zona Sul morando no subúrbio.

Voltamos para a Zona Sul, mas a Dilma me falou que eu tinha que sair do Rio por causa de meu tio, que ainda estava preso. Sugeria que fosse para São Paulo. Mas eu não queria de jeito nenhum, porque em São Paulo a repressão era brutal. Já havia Oban [Operação Bandeirantes]. Tinha pavor só de pensar. Mas aí teve a doença de Costa e Silva [segundo presidente do Brasil no regime militar] e o sequestro do embaixador americano [Charles Burke Elbrick] e a situação ficou insuportável no Rio.

Em novembro de 69 mataram o [Carlos] Marighella em São Paulo e o país estava sob o comando da junta militar. Foi quando tomei um ônibus para Porto Alegre. Cartazes com fotos dos militantes mais procurados foram espalhados por todos os cantos. Viajei com um deles, Sidney de Miguel. Eu descia para tomar um café na estrada e ele ficava no ônibus, deitado, com um bigode postiço e armado. No sapato levava uma gilete, para me matar se fosse presa. Na bolsa, um revólver 765.

Em Porto Alegre, encontramos o Galeno, que estava no comando da regional sul da VAR. Ele me contou que sequestraria um avião para ir até Cuba. O sequestro, feito no mês seguinte, foi um sucesso.

No Sul, era encarregada, com Sidney, da imprensa da VAR. Fazíamos jornaizinhos e panfletos em mimeógrafos. Em janeiro de 1970, conheci o Jorge [Eduardo Saavedra Durão]. Ele estava no comando da VAR, no lugar do [Antonio Roberto] Spinoza, que tinha caído.

Lá a VAR tinha células de militantes operários, bancários, camponeses. Era um Estado muito politizado, que tinha resistido ao golpe. Eu fazia reuniões com operários calçadistas do Vale dos Sinos. Nessa época o [ex-ministro Fernando] Pimentel também estava por lá. Caiu em abril.

A Inês Serpa, da VAR, disse numa sessão de tortura ter ficado num aparelho que ela presumia desbaratado. A repressão foi lá e encontrou Rui Falcão [presidente do PT], recém-chegado ao apartamento em Porto Alegre. Dilma e Araújo tinham caído em março, em São Paulo. Era um dos piores momentos da repressão.

Jorge veio morar comigo e começamos a publicar denúncias de tortura e mandar para o exterior. A gente começava a ficar fatalista sobre o futuro. A euforia do milagre e dos 90 milhões em ação aumentavam minha angústia. Comecei a me perguntar sobre a escolha que havia feito, se chegaríamos à revolução.

O que nos levantou um pouco o moral naquele início de junho de 1970 foi o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, de onde saíram 40 presos, entre eles o Angelo Pezzuti e o [Fernando] Gabeira. Achamos que a coisa tinha melhorado, mas, em meados de junho, recebemos um telegrama avisando que o Cláudio Câmara, do comando da VAR, tinha caído. No dia 30 de junho, fomos nós.

O Jorge saiu cedo para cobrir um ponto e me disse para ir embora se ele não voltasse até as 3 da tarde. Como todos os outros do comando da VAR, ele andava sempre com uma cápsula de cianureto. A ordem era ingerir para não passar informação. Toda noite Jorge colocava o cianureto em cima do criado-mudo e aquilo me incomodava muito. Eu me perguntava por que, além de fracassar na revolução, a gente teria que se matar.

Ele caiu assim que chegou ao ponto. Tomou o cianureto, mas a polícia o levou ao hospital e fez lavagem. No fim do dia entraram de chofre no aparelho e o jogaram no chão, roxo e ensanguentado. Eu tinha descumprido o acordo. Quando o Pedro Seelig [delegado do Dops de Porto Alegre] entrou com policiais armados de metralhadora, me pegou fazendo faxina.

Eles nos vendavam na hora que nos prendiam, o que aumentava a sensação de desamparo. Fui torturada pelo major Átila Rohrsetzer, que era colega de turma do [coronel Brilhante] Ustra e diretor da Divisão Central de Informações do III Exército. Me mandaram tirar a roupa e ele me espancava me jogando de um lado para o outro. Como continuava vendada, bati a cabeça na quina de uma mesa de vidro. Caí e comecei a sangrar. Foram uns dez dias de pancada.

Tínhamos no aparelho uma maleta com US$ 35 mil dos US$ 2,5 milhões do cofre. O pessoal do Exército me interrogou sobre os dólares e eu disse a verdade. Eles se revoltaram porque Seelig havia dito que só tinha US$ 4 mil na nossa casa. Parei em mais uma sessão de tortura. Fui transferida para um presídio de freiras e lá me colocaram numa solitária. Quem avisou a minha família foi dona Geralda, mãe do Pimentel. Um mês depois, minha mãe foi me visitar. Eu estava mancando e tinha uma faixa na cabeça por causa do corte. Ela foi com um tio austríaco que tinha sido prisioneiro dos russos na Segunda Guerra. Ele chorou muito quando me viu.

Meu pai foi uma vez com a minha mãe, mas ele ficava muito emocionado em me ver naquela situação. Ela era mais forte. Até preferia que ele não fosse, porque tinha medo que falasse alguma bobagem. Viviam uma crise conjugal na época. Um dia ela se arrumou toda e foi falar com o major Átila, que tinha me torturado. Disse que eu estava com um problema na cabeça. Minha mãe disse que era por causa da tortura. Ele negou. E ela o enfrentou sustentando que havia. Minha mãe tinha uns 40 e poucos anos e a cabeça toda branca. Aquilo era uma missão para ela.

Um dia chegou um oficial de Justiça cobrando o aluguel do aparelho. Chegou procurando por "Maria Helena", que era meu nome no documento falso. Mandei que cobrasse da repressão. Meu nome de guerra era Júlia, mas no documento era Maria Helena. Só fiquei sabendo o nome do Jorge depois que ele caiu. Até então ele era Hugo para mim.

A gente deu sorte de ter sido preso ainda em 70, porque, a partir de 71, a ordem da ditadura era matar. A gente pelo menos tinha um IPM instaurado. Fui transferida para o Rio em novembro de 70. Viajamos algemados aos pares e escoltados pela repressão. Quando desci do ônibus e entrei no "coração de mãe" [a viatura da polícia], os passageiros ficavam me olhando. Devia estar com uns 43 quilos. Era um mosquitinho.

No Rio, a cela da Polícia do Exército (PE) tinha um colchão no chão sujo de sangue e uma privada. Dormia sem parar. Acho que era o instinto de sobrevivência. Numa madrugada, um soldado me levou para uma sala roxa onde estava o major Gomes Carneiro, um dos torturadores mais famosos da época, ruivo, assustador. Quem estava na sala de tortura também era a Dilma. Fazia um ano que não a via. Ficamos lá as duas, uma olhando para a outra, até que ele falou. "Vou fazer umas perguntas e se vocês não responderem vou colocar uma para dar choque na outra". A sala tinha um pau de arara e a máquina de choque ficava em cima de uma mesinha. Aí a Dilma falou: "Mas, major, a gente já está presa há tanto tempo, já não tem mais o que falar". Ele respondeu: "Mas eu ainda não perguntei". E Dilma disse: "Então vamos esperar o senhor perguntar". Ele chegou à conclusão de que não tinha mais nada para arrancar.

Estávamos à mercê da tigrada, não tínhamos a quem recorrer. Era ateia, mas rezava. E dormia. Uma noite um soldado chegou lá com três frutas. Presente de um padre, disse. Nunca soube quem era, mas foi a primeira coisa que comi após uma semana. Depois me despacharam numa Veraneio para Minas. Fui para um presídio de mulheres em Belo Horizonte, o Estevão Pinto, onde está a Kátia Rabello [ex-presidente do Banco Rural, ré do mensalão].

Me puseram para andar nuns corredores sem fim até um beco. Era uma celinha mínima. Tinha 1,50 m por 1,80 m. Com uma cama de cimento, colchão, boi [privada no chão] e torneira. Estava de novo numa solitária. Quando dona Naná, que era a guarda, fechou a porta e me vi na escuridão naquele lugar, disse para mim mesma que se ficasse uma semana ali iria me matar. Tinha um sapato com fivela grande e planejei amolá-la para cortar meus pulsos. Fiquei lá mais de um ano. Me lembrava de Dostoiévski: "O homem é o único animal que se adapta a tudo".

A única vantagem de estar confinada era não correr o risco de ser currada pelas lésbicas. Não podia ler livro nem ter radinho de pilha. Eu recebia a visita dos meus pais uma vez por semana.

Era difícil tomar banho de sol porque diziam que eu era muito perigosa. Ficava muito tempo deitada. Tive sorte de não me tirarem o lápis de olho. Escrevia na parede "por um olho, dois olhos, por um dente, toda a dentadura", "tremblez, bourgeois, la révolution du peuple vous écrasera". Na solitária entendi por que os bichos enjaulados andam de um lado para outro. As guardas apagavam a luz às 7 da noite. Minha cela ficava em cima da cozinha. Tinha rato e barata, mas eu dormia. Acho que é aquilo que fala o Nietzsche: "Quando não te matam, você se fortalece". Tinha uma presa comum, prostituta, que gostava muito de mim. Ela era rebelde e vivia na solitária. Um dia disseram que seria liberada. Quando ela desceu, tinha uma radiopatrulha que a levou para a lobotomia em Barbacena. Me pedia para não esquecê-la quando fosse escrever um livro sobre a prisão. Era Tiana o nome dela.

Duas guardas da penitenciária eram clientes do meu pai. Elas me levavam comida, livros e as cartas do Jorge para mim. Guardo as cartas até hoje. Elas me entregavam papel e lápis para eu responder. A gente tinha se casado por procuração. E a nossa lua de mel foi numa cela da Terceira Zona Aérea da Aeronáutica. Quando estávamos lá, recebemos a notícia da morte do [Carlos] Lamarca. Foi um golpe.

Em setembro voltei para BH. Minha mãe teve a ajuda do juiz Mauro Seixas Telles, de Juiz de Fora, para me tirar da solitária. Uma junta de psicólogos atestou que eu estava numa cela de loucos furiosos. Fui para o Dops até ser solta no fim de maio de 72. Tinha sido condenada a um ano e fiquei quase dois anos presa.

Tinha 25 anos e pesava 35 quilos. Fiquei uns dias em Belo Horizonte. Um médico me disse que estava com síndrome de campo de concentração. Era ansiosa e chorava muito. Depois vim ao Rio com minha mãe e fui morar com a família do Jorge. Ia visitá-lo todo dia no Caetano de Farias e retomei o jornalismo. A Suely Caldas [colunista de "O Estado de S. Paulo"] estava no "Jornal do Brasil". Me arrumou um freelancer sobre empresas de trading. Era o auge das exportações do Delfim Netto.

Hoje tenho um pouco de claustrofobia. E, depois daquele dia em que me jogaram o Jorge arrebentado no chão, fiquei insegura com portas. Só durmo depois que checo várias vezes se tranquei tudo. Quando minha filha Mariana nasceu, tinha pesadelos que a repressão atirava em nós duas.

Antes da prisão, chegava a questionar se valia a pena passar por tudo aquilo enquanto o país torcia pela seleção com Médici e seu radinho de pilha. Mas a prisão reforçou minha convicção sobre o que fiz. Meu marido sempre dizia que ilegais eram os militares e não o Jango, que tinha sido eleito pelo povo. Só não consigo lidar bem com a impunidade dos torturadores. Dia desses fui a uma reunião da Comissão da Verdade e o Spinoza falou da morte do Chael [Charles Schreier]. O legista que atestou a morte dele sob tortura estava lá. A comissão pediu que reconhecesse o laudo. Ele se recusou. Pegaram a identidade dele e disseram: "Mas a assinatura é sua". Ele continuou negando. Foi espantoso. Deve ter sido muito pressionado. Quanto poder esses torturadores ainda têm com essa lei de anistia fajuta.

Me pergunto como Dilma, que sofreu tudo isso, se sente por não conseguir punir esses caras. Eles estão morrendo. E o que fica é uma impunidade que fragiliza as instituições e produz uma democracia capenga. Na Argentina teve punição, no Uruguai e no Chile também. Aqui não. Aí a gente entende por que ainda se tortura tanto nas delegacias do Brasil. Fiquei boquiaberta que o [deputado Jair] Bolsonaro só tenha perdido por dois votos a presidência da Comissão de Direitos Humanos.

Fico preocupada com esses blindados encomendados para a Copa. Estão mais empenhados no aparato repressivo do que em atender às reivindicações. Os jovens das manifestações ainda parecem perdidos, tem muita infiltração fascista e de milícia, mas muitos lutam pelo que acreditam. Torço por eles.

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