"Papa Francisco, o senhor precisa se encontrar com as vítimas de abuso", pede publicação americana

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07 Março 2014

"Papa Francisco, nós pedimos que o senhor se encontre com as vítimas de abusos sexuais por parte do clero. No ano passado, durante a Quinta-Feira Santa, o senhor comoveu e inspirou o mundo ao participar e lavar os pés de jovens reclusos em Roma. Nós lhe imploramos que traga a atenção do mundo, nesta Quinta-Feira Santa, para as vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Ouça suas histórias. Lave seus pés", pede a publicação católica americana, em carta aberta ao Papa, publicada como editorial por National Catholic Reporter, 06-03-2014.

A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a carta.

Prezado Papa Francisco,

As mais calorosas saudações da região central dos Estados Unidos.

Nós, como muitos outros, nos encontramos tomados pela sua abordagem muito humana e pastoral para com as questões difíceis da vida, por sua profunda compaixão a qual não hesita em demonstrar e por sua insistente exortação em nos fazer sair de nossas confortáveis igrejas para irmos ao encontro dos demais, especialmente daqueles que se encontram marginalizados.

O senhor se tornou um exemplo inspirador e desafiador de humildade e autoridade genuína.

O senhor deve saber que o mundo inteiro está lhe dando atenção com infinitas expectativas. Assim, é apenas por um sentimento de extrema urgência que buscamos nos intrometer em sua agenda lotada e levantar a questão da crise dos abusos sexuais. Numa resposta recente, o senhor reconheceu que o abuso é horrível porque ele deixa “profundas feridas”.

Em seguida, o senhor acrescentou: “As estatísticas do fenômeno da violência contra crianças são impressionantes, mas também mostram com clareza que a grande maioria dos abusos ocorre em um ambiente familiar e de vizinhança”.

“A Igreja Católica talvez seja a única instituição pública que se movimenta com transparência e responsabilidade. Ninguém tem feito mais. No entanto, a Igreja é a única atacada”.

Estas declarações contêm certa verdade, mas elas também ocultam verdades mais difíceis que foram incorporadas nesta história desde que o National Catholic Reporter começou a cobrir este capítulo horrível da história da Igreja em 1985. Reivindicamos certa autoridade para abordar esta questão porque temos investigado e analisado o escândalo por tanto tempo. Por inúmeras vezes ouvimos a desculpa de que a maior parte dos abusos infantis ocorre fora da Igreja e que esta tem feito mais do que qualquer outra instituição para se tornar transparente e incisiva na prevenção de abusos.

O outro lado da verdade, Sua Santidade, é que nenhuma outra instituição na terra teve os meios e a vontade de ocultar tais crimes e pecados por tanto tempo. A verdade é que, embora os incidentes de abuso infantil sejam horríveis, o escândalo maior e mais persistente é a forma como bispos e cardeais esconderam o pecado, pagaram às vítimas enormes somas de dinheiro para silenciarem e se recusaram até mesmo a contar a seus colegas bispos e padres dos problemas potenciais quando transferiram sacerdotes problemáticos.

A Igreja trabalhou provavelmente mais do que qualquer outra organização para instituir normas e procedimentos de prevenção para futuros abusos. Mas o outro lado desta verdade é que, por décadas, seus líderes negaram que houvesse qualquer problema; mentiram sobre o número de pessoas envolvidas e lutaram, pagando enormes despesas, contra a divulgação das dimensões do problema. Nenhum deles foi ainda responsabilizado. Hoje há bispos ativos que traíram as diretrizes de suas próprias conferências episcopais sobre a forma de lidar com casos de abuso. Se a Igreja está fazendo, agora, mais do que qualquer outra instituição para proteger as crianças, isso só acontece por causa da enorme pressão pública levantada pelas vítimas e por outros de dentro da Igreja exigindo a verdade. E a história mostra que os líderes da Igreja podem ser menos do que diligentes na aplicação dos novos padrões.

O senhor pede-nos para irmos às margens e tem nos dado exemplos do que quer dizer com isso com sua própria prática. O senhor também tem valorizado e muito o diálogo, e é neste espírito que sugerimos que os mais marginalizados na Igreja são os que foram abusados por sacerdotes.

O senhor fala das “profundas feridas” causadas pelos abusos nas famílias. Estas famílias, sabemos, jamais estarão inteiras. Pais e filhos jamais irão vivenciar a profundidade normal do amor e da confiança que a vida familiar saudável proporciona.

Da mesma forma, as feridas persistem na Igreja, talvez de forma ainda mais profunda e prejudicial do que em outras circunstâncias, porque o abuso veio das mãos de alguém que deveria representar o bem espiritual mais profundo que a comunidade tinha a oferecer.

É compreensível que o senhor tenha pouca responsabilidade pelo que se passa na sociedade em geral. Dentro da família católica, porém, o senhor certamente já sabe que seu exemplo pode estabelecer poderosos precedentes. De todos os marginalizados do mundo que precisam de atendimento, nenhum outro necessita mais do que aquele cuja vida foi abalada por um sacerdote abusador.

O senhor chamou o Papa Bento XVI de “corajoso” por abrir caminho para a Igreja abordar a crise dos abusos sexuais. O Papa Bento descobriu tal coragem depois de ter sido confrontado com o que denominou “a sujeira da Igreja”, na medida em que lia semanalmente os documentos/registros de padres abusadores cujos casos chegavam até dele enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Além disso, como papa ele se encontrou pessoalmente com vítimas de abuso por parte do clero. Ele ouviu suas histórias e soube de suas dores.

Papa Francisco, nós pedimos que o senhor se encontre com as vítimas de abusos sexuais por parte do clero.

No ano passado, durante a Quinta-Feira Santa, o senhor comoveu e inspirou o mundo ao participar e lavar os pés de jovens reclusos em Roma.

Nós lhe imploramos que traga a atenção do mundo, nesta Quinta-Feira Santa, para as vítimas de abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Ouça suas histórias. Lave seus pés.

Se esta ferida profunda não for tratada de forma amorosa e compreensiva – se o pastor do mundo não for capaz de tratar com compaixão esta terrível injustiça dentre de sua própria família –, ela apenas continuará a apodrecer e impedir o crescimento de todas as outras reformas pastorais e institucionais que o senhor iniciou.

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