''As mulheres devem assumir posições de plena responsabilidade na Igreja''. Entrevista com Walter Kasper

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03 Março 2014

"O papel das mulheres na Igreja deve ser reconsiderado e integrado na perspectiva do dinamismo sinodal e da conversão missionária indicados pelo papa". A partir das suas reflexões sobre a família apresentadas no recente consistório, é assim que se expressa o cardeal alemão Walter Kasper. E ele aceita falar sobre a debatida questão da presença feminina nos âmbitos decisionais da Igreja.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, dos bispos italianos, 02-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Eminência, na sua conferência proferida ao consistório, o senhor fez referência à condição das mulheres no contexto atual da família. Quais são os critérios de referência quando se considera o papel das mulheres na dimensão eclesial?

Os pontos de partida para considerar o seu papel na perspectiva eclesial são dois: a criação e o batismo. Deus criou o homem e a mulher à sua imagem, com idêntica dignidade, portanto não pode haver discriminação alguma para as mulheres. Com o batismo, homem e mulher são cristãos sob o mesmo título.

Estão em preparação dois Sínodos sobre a família. Qual foi, até hoje, a contribuição das mulheres nas assembleias sinodais?

Até agora, nos sínodos, as mulheres estiveram presentes geralmente nas vestes de auditoras e em posições de pouco relevo. Sempre há duas ou três auditoras que intervêm no fim dos trabalhos, quando todos já falaram. Eu me pergunto: como podem ser preparados dois sínodos sobre a família sem envolver em primeiro lugar as mulheres também? Sem as mulheres, a família simplesmente não existe. É insensato falar da família sem ouvi-las. Eu acredito que elas devem ser chamadas e ouvidas desde agora, na fase de preparação.

Mas o sínodo, que está sendo encaminhado agora, é um sínodo extraordinário em que participam apenas os presidentes das conferências episcopais, os chefes de dicastérios romanos, os patriarcas e os representantes de apenas três institutos religiosos...

Esse é um limite. Mas sempre se pode dispor de outra forma. O papa pode fazer isso por meio de uma consulta e de uma elaboração que seja realmente efetiva.

O dinamismo sinodal pode abrir novos caminhos para a valorização da contribuição feminina?

O papa considera a dimensão sinodal de primeira importância para o caminho da Igreja. Por enquanto, os sínodos tem apenas poder consultivo, mas essa consulta é o fundamento para as decisões finais do papa. Nesse rastro sinodal, a Igreja pode ouvir e integrar as mulheres não de uma forma simbólica. O seu papel deve ser reconsiderado nessa perspectiva. E, a meu ver, é uma questão que não pode ser postergada com relação a outras.

A questão dos papéis da mulher na Igreja sempre foi muito debatida. Qual é a sua opinião a respeito?

Eu acho que as mulheres devem estar presentes em todos os níveis, mesmo em posições de plena responsabilidade. É indispensável a contribuição da riqueza e das capacidades intuitivas inerentes ao gênio feminino. Sem as mulheres, a Igreja é um corpo mutilado. Muitas estão hoje empenhadas ativamente nos organismos eclesiais. Podemos imaginar hoje estruturas comunitárias, caritativas, culturais sem a presença das mulheres? Sem elas, as paróquias fechariam amanhã mesmo. Na realidade e na Igreja "em saída" prefigurada pelo papa, as mulheres já estão na frente, estão na fronteira.

Porém, nos processos decisionais da Igreja, as mulheres continuam estando quase ausentes. Por quais motivos?

A passagem decisiva prospectada pelo papa é que na Igreja a autoridade dos ministros consagrados e dos bispos não é domínio, mas é sempre serviço ao povo de Deus e deriva do poder de administrar o sacramento da Eucaristia. Entender, portanto, o exercício da autoridade ligada ao ministério ordenado em termos de poder é clericalismo. Isso também se vê na pouca disposição de tantos presbíteros – sacerdotes e bispos – de deixar aos leigos o controle de papéis de responsabilidade que não requerem o ministério ordenado. Na Evangelii gaudium, o papa se pergunta se é realmente necessário que o padre esteja acima de tudo. De fato, isso dá lugar a um imobilismo clerical, que às vezes parece ter medo de deixar espaço para as mulheres e também de reconhecer o espaço a elas devido lá onde se tomam decisões importantes. O cerne importante da questão de uma presença mais incisiva das mulheres nos âmbitos decisionais está ligado ao fato de que alguns papéis na Igreja preveem o exercício do poder de jurisdição, que está conectado com o ministério ordenado. Mas nem todos os papéis de governo ou de administração presentes na Igreja implicam o poder de jurisdição. Esses, portanto, podem ser confiados a leigos e, assim, também às mulheres. Se isso não acontecer, não se pode de forma alguma justificar essa exclusão das mulheres dos processos decisionais na Igreja.

Então, demos alguns exemplos concretos. Em quais órgãos curiais elas podem desempenhar cargos de responsabilidade?

Elas podem ocupar cargos de responsabilidade naqueles organismos que, mesmo nos níveis mais altos, não implicam necessariamente o poder de jurisdição conectado ao ministério ordenado: nos Pontifícios Conselhos, por exemplo. Nos Conselhos para a Família, para os Leigos (lembremos que a metade dos leigos são mulheres), para a Cultura, para as Comunicações Sociais, para a Promoção da Nova Evangelização, só para citar alguns. Neles, não encontramos hoje nenhuma presença feminina em posição de destaque. Isso é absurdo. Nos Conselhos e em outros organismos vaticanos, a autoridade poderia ser exercida pelas mulheres mesmo nos níveis mais altos, com responsabilidade plena.

Em quais outros?

Nos escritórios dedicados à administração, aos assuntos econômicos, nos tribunais. Âmbitos de competências nos quais as renomadas capacidades profissionais das mulheres se destacam, mas ainda não foram aqui consideradas adequadamente.

E nas Congregações?

A meu ver, seria preciso refletir mais profundamente sobre a relação entre ordem e jurisdição. No entanto, as Congregações têm uma estrutura colegial. Os prefeitos das Congregações são colaboradores do papa em nível da Igreja universal. As decisões são ratificadas pelo prefeito e pelo secretário, mas, nas Congregações, assim como nos tribunais, as decisões são tomadas por meio de processos colegiais de consulta. De fato, a decisão não cai do céu, é fruto de consulta que o prefeito e o secretário, com a sua autoridade, confirmam depois. Por que, então, não envolver também, no respeito à dinâmica colegial, a presença feminina nas consultas? Mesmo mantendo-se firme e distinta a assinatura da autoridade, uma mulher também pode sempre estar presente nas decisões e, portanto, pode muito bem assumir a tarefa de subsecretária. Por isso, estou convencido de que, mesmo com as regras canônicas vigentes, já se possa fazer algo nas Congregações, avaliando as possibilidades individuais.

E em quais Congregações, precisamente, elas poderiam revestir tal função?

Na Educação Católica, por exemplo: basta pensar no talento educativo das mulheres e nos papéis que elas ocupam nesse campo. Também nas Causas dos Santos seria precioso o discernimento espiritual feminino. Excluo papéis de responsabilidade das mulheres, por motivos óbvios, nas Congregações para os Bispos e para o Clero. Mas na Doutrina da Fé, por exemplo, já há uma assembleia de teólogos que prepara todas as sessões e na qual, mesmo hoje, a presença feminina ainda está ausente, No entanto, temos tantas teólogas que também são professoras nas universidades pontifícias. Uma contribuição delas seria desejável. Isso é verdade, com maior razão, para a Congregação para a Vida Consagrada: 80% das pessoas consagradas pertencem ao universo feminino.

A seleção para a indicação a esses possíveis cargos deveria responder a quais critérios?

Os critérios deveriam se basear na competência e no espírito de serviço. Obviamente, as mulheres também podem ser movidas pela ânsia de fazer carreira no modelo masculino. Há algumas que manifestam esse problema, mas muitas outras não. Por isso, é preciso saber escolher com discernimento as pessoas certas, não escolher pessoas que respondam a dinâmicas viciadas.

Tem algum exemplo positivo a esse respeito?

Mary Ann Glendon, a professora de Harvard, por exemplo. A Santa Sé lhe confiou uma tarefa importante, enviando-a como representante nas conferências da ONU, onde ela desempenhou um serviço excelente, reconhecido por todos. Profissionais como ela dão um impulso para a Igreja, têm experiência, competências aprofundadas, posições definidas no mundo, portanto, não têm o problema de fazer carreira na Cúria. Eles oferecem, com espírito de serviço, a sua sabedoria e experiência à Igreja. Eu penso que um certo número de mulheres poderia contribuir, assim, para curar o clericalismo e o carreirismo na Cúria, que são um vício terrível.

No recente consistório, o papa também destacou o mal provocado pelo carreirismo. Mas, a seu ver, há remédios concretos para isso na Cúria?

Talvez o emprego com cargos de tempo determinado poderia ser um remédio. Poderiam ser empregadas pessoas com experiência pastoral sobre as costas, que tenham experiência em dioceses e paróquias, e confiar a elas cargos de tempo determinado. Por exemplo, por cinco anos. Um período ao fim do qual alguns poderiam permanecer, mas todos os outros voltariam à sua diocese, levando a própria experiência para a Igreja local. Com essa perspectiva, talvez se poderia eliminar o problema das pessoas que agem tendo como único critério o próprio avanço na escala. Também me pergunto: é indispensável que todos os secretários dos dicastérios vaticanos devam ser bispos? Na Cúria, há hoje uma alta concentração de bispos. Muitos desempenham funções de burocratas, e isso não é bom. O bispo é um pastor. A consagração episcopal não é uma honraria, é um sacramento, diz respeito à estrutura sacramental da Igreja. Por que, então, é necessário um bispo para desempenhar funções burocráticas? Aqui, a meu ver, corre-se o risco de um abuso dos sacramentos. Nem mesmo o cardeal Ottaviani, histórico secretário da Congregação do Santo Ofício, era bispo; ele se tornou depois, com João XXIII.

Voltando à questão feminina, o senhor dizia no início que, na realidade eclesial, as mulheres se encontram na frente, nas fronteiras. Pode explicar melhor?

Eu gostaria de salientar que, para o Papa Francisco, é importante a Igreja "em saída" para as periferias. É preciso enfatizar isso. A Igreja não é a Cúria. Continua-se falando dos papéis que as mulheres podem desempenhar dentro dos órgãos e das instituições curiais. Mas eu também acredito que o papel das mulheres na Igreja deve ser valorizado e projetado em termos de conversão missionária e pastoral. Existem realidades com as quais temos muito a aprender. Penso na África, onde eu sempre vi muitas leigas e muitíssimas religiosas que fazem um trabalho importante, de fronteira e, muitas vezes, heroico. Quando eu queria ter uma ideia exata da situação real de um determinado contexto, eu sempre me voltava para as religiosas que atuam in loco há muitos anos. Em Roma, há as casas generalícias de muitas congregações missionárias, com uma multidão de religiosos que têm grande conhecimento do mundo e das realidades com as quais estiveram em contato. O seu conhecimento poderia ser ouvido. É uma experiência que deveria ser considerada, valorizada e aproveitada também na Cúria.

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