O padre Lombardi contesta o livro “O homem que não queria ser Papa”

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Por: André | 20 Fevereiro 2014

O padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé e da Rádio Vaticano, reagiu à publicação, pela Albin Michel, do livro de Nicolas Diat, “O homem que não queria ser Papa”. A obra contém acusações graves que são inexatas.

A reportagem está publicada no sítio da Rádio Vaticano, 18-02-2014, versão francesa. A tradução é de André Langer.

O padre Lombardi elogia os esforços do autor para oferecer um aprofundamento do pontificado de Bento XVI, mas critica o método e o espírito que animam esse livro e contesta a veracidade de algumas passagens.

Padre Lombardi, por que você quis reagir ao livro de Nicolas Diat?

É um livro que tem certa importância, penso, sobretudo, no contexto da língua francesa e incide diretamente sobre o Papa Bento XVI e sobre toda uma série de acontecimentos muito importantes do Vaticano. No livro há acusações que estou convencido de que não são justas e que são graves. Então, tive que reagir em consciência.

Você elogia o esforço que tem sido feito para analisar e aprofundar o Pontificado de Bento XVI, pelo que Nicolas Diat parece ter uma admiração sincera, mas você expressa reservas em relação a algumas passagens. Quais?

São acusações precisas contra uma série de personagens citadas com nome e sobrenome e que não são fundadas sobre elementos seguros. Em alguns casos, as acusações são absolutamente sem fundamento ou são feitas sobre declarações anônimas e isso não é aceitável.

Você deplora as acusações falsas e inexatas, sem fundamento, mas deplora também, penso, o método que consiste em não citar as fontes quando se trata de julgamentos negativos e citar todas as pessoas entrevistadas no final do livro, desordenadamente.

É verdade, no fim do livro há uma série de agradecimentos a pessoas e são situações totalmente diferentes. Há, seguramente, pessoas que o autor encontrou demoradamente e que lhe fizeram confidências ou deram testemunhos, mas há outras que ele não encontrou pessoalmente. Há outras pessoas que não se identificam absolutamente com a orientação do livro e a maneira como as acusações são feitas. Há outras pessoas que o encontraram, mas por outras razões. Então, é realmente uma impressão incorreta que é dada com esta série. Parece que havia uma grande convergência de testemunhos que apóiam sua perspectiva e sua obra.

Além das acusações, muitas vezes graves, que são dirigidas a algumas pessoas, o que você também lamenta, padre Lombardi, é que o autor, ao reviver um período doloroso, tenha de certa maneira traído o esforço feito por Bento XVI e depois por seu sucessor, o Papa Francisco, para encerrar definitivamente este capítulo.

Sim, exatamente. Ao ler o livro e vendo testemunhos anônimos de acusações muito graves, eu me senti como que mergulhado novamente numa atmosfera que Bento XVI queria superar definitivamente. E é a mesma atmosfera que é alimentada por discursos que o Papa Francisco chama de “fofocas”, isto é, opiniões sobre os outros que prejudicam seriamente sua reputação.

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Declaração do padre Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé e da Rádio Vaticano sobre um livro de Nicolas Diat.

Uma obra volumosa em francês (Nicolas Diat: “O homem que não queria ser Papa”, editada pela Albin Michel) foi publicada há alguns dias. É o fruto de um trabalho de longo alento, resultado de muitas entrevistas do autor com personalidades eclesiásticas. A obra oferece um vasto panorama do Pontificado de Bento XVI. Ela evoca também o início do pontificado de seu Sucessor, mas, como o título indica, o autor quis aprofundar o pensamento, assim como a personalidade de Joseph Ratzinger, seu espírito e sua intenção.

O livro traça os acontecimentos e fornece numerosas informações úteis para situá-lo no contexto. As intervenções e os discursos do Papa são amplamente relatados. O autor relê com inteligência e análise muitas vezes em profundidade as intenções que estavam na base. Ele se apóia sobre muitos testemunhos pessoais recolhidos nas conversas com testemunhas privilegiadas e confiáveis.

Em suma, o livro oferece sem sobre sombra de dúvida uma contribuição valiosa para o conhecimento e a compreensão do Pontificado do Papa Bento XVI, de quem o autor é um admirador sincero e um atento observador.

Mas o autor não para por aí. Inevitavelmente, ele evoca repetidas vezes fatos e pessoas que cercaram o Papa. O quadro geral situa as relações complexas, as dificuldades, as tensões, os momentos particularmente difíceis, que durante muito tempo foram manchete e suscitaram debates. Não se pode certamente falar de maneira aprofundada do Pontificado do Papa Bento XVI abstraindo-se das vicissitudes que atingiram um nível dramático com o vazamento de documentos reservados e sua publicação pelo mordomo do Papa.

É nesse nível que o livro merece sérias críticas, quando, em muitas ocasiões, toma como alvo pessoas precisas, nomeando-as, atribuindo a elas explicitamente responsabilidades muito graves, sem um fundamento certo ou – ao menos em alguns casos – sem nenhum fundamento (dois exemplos particularmente graves: no caso do cardeal Mauro Piacenza, fala-se por, exemplo, dos seus encontros com Paolo Gabriele que nunca aconteceram; em reforço às acusações que são dirigidas a um outro cardeal, cita-se como prova um documento “sino-alemão” que na época, com conhecimento de causa, eu qualifiquei de “delirante”; e se poderia citar outros exemplos). O autor dá a entender que se baseia em testemunhos que ele recolheu e acrescenta, no final do livro, uma longa lista de agradecimentos a personalidades influentes, dentre as quais há numerosos cardeais. Mas, enquanto a identidade dos autores dos testemunhos positivos é claramente indicada, as declarações negativas e as acusações mais graves permanecem anônimas mesmo quando são colocadas entre aspas. Além disso, diversas personalidades que aparecem na lista dos agradecimentos no final do livro tomaram distância em relação a esta obra, na qual não se reconhecem.

Finalmente, a impressão que dá é que Bento XVI estava rodeado de demônios. O autor parece ter identificado alguns adversários aos quais pensa ter o direito de dirigir não somente as críticas compreensíveis pelos seus erros ou pelos fatos certificados, mas também as acusações mais atrozes de traição, indo além do que foi provado, do que é plausível e lícito.

Nesse sentido, ao contrário da sua intenção, esse livro não joga luz sobre as tensões e sombras do Vatiliaks e anexas, mas, paradoxalmente, em muitas das suas páginas, acaba por se tornar delas uma ilustração e uma extensão.

E, além disso, esperávamos ter saído, graças a dois Papas e à sua sabedoria.

Por sua decisão histórica de renunciar ao pontificado, elevando-nos a uma outra dimensão, o Papa Bento contribuiu também para superar definitivamente o clima de fofocas, de calúnias e de mesquinharias que, infelizmente, acompanharam e assombraram a última parte do seu pontificado. O Papa Bento, e nós sabemos disso, enfrentou com paciência e sabedoria o aspecto doloroso e obscuro dos acontecimentos da última parte do seu pontificado. Ele quis para o seu mordomo um processo penal e uma pena justas antes de agraciá-lo e colocar um ponto final, conclusivo e evangelicamente tranquilizador a esse triste capítulo.

Ao encarregar uma comissão de três cardeais para realizar uma investigação, ele também quis lançar um olhar objetivo e imparcial sobre os acontecimentos através de contatos mais amplos e complexos que não encontrariam lugar no quadro de um processo penal. Esta investigação terminou antes do fim do seu pontificado e, como sabemos, suas conclusões foram comunicadas pessoal e exclusivamente ao seu Sucessor. Um ato de grande e admirável sabedoria.

O autor do livro, que é com certeza um grande admirador do Papa Bento, não parece, ao contrário, ser um bom discípulo seu.

Por outro lado, e isso deveria ser absolutamente claro para todos, tanto dentro como fora do mundo eclesiástico, o Papa Francisco encaminhou seu pontificado sobre novos caminhos, com total liberdade em relação ao passado, projetando a Igreja para a missão e considerando as “reformas” em função desse caráter missionário, esforçando-se para libertá-la dos grilhões e das mesquinharias, que a emperram nas dinâmicas autorreferenciais e mundanas.

Por conseguinte, se quisermos captar o espírito de Bento e de Francisco, podemos dizer que o exercício com vistas reavivar a confusão, apoiando interpretações, hipóteses ou, pior ainda, atribuindo responsabilidades e lançando acusações que estão longe de serem verdadeiras, este exercício vai resolutamente contra o que os dois Papas quiseram e querem. Claro, cada um é livre para assumir a responsabilidade pelos seus propósitos e escrever o que julga oportuno. Mas permita-me dizer que quando o Papa Francisco denuncia as fofocas, que podem chegar à calúnia – ele o faz muitas vezes, como sabemos, e o fez com firmeza particular no domingo, 16 de fevereiro –, ele pensa também nesse tipo de obra e de discurso.

Muito ruim! O que o autor diz de Bento XVI é bonito. Por que estragá-lo desta maneira?

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