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Por: André | 19 Fevereiro 2014

“O simples fato de dar a palavra às FARC e permitir que suas vozes ressoem claramente na Colômbia destruiu, em poucas semanas, os estereótipos que a haviam criminalizado e abriu consideravelmente a agenda política. Falta ainda muito caminho para percorrer, mas os diálogos de Havana deveriam contar com a solidariedade dos povos e dos governos democráticos da Nossa América para acabar com meio século de lutas fratricidas na entranhável terra colombiana”. A reflexão é do cientista político argentino Atilio A. Boron e publicada no jornal Página/12, 16-02-2014. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

Prontos para completarem dois anos, os Diálogos de Paz que acontecem em Havana entre as FARC e o governo colombiano produzem algumas conquistas de importância. A primeira: a ruptura da longa invisibilização do conflito armado na Colômbia, negado por uma enganosa retórica oficial que satanizava os insurgentes como “narcoguerrilheiros” ou “narcoterroristas” e que concebia a guerrilha mais antiga do mundo como se fosse uma atividade meramente criminosa, ocultando suas raízes estruturais e sua natureza e objetivos sociopolíticos.

Não é um dado menor que quem propalava estas mentiras, Uribe e seus corifeus, é gente que, segundo a DEA e o FBI, tem comprovada vinculação com o narcotráfico. Com um total de 80 parlamentares condenados ou processados por suas vinculações com os narcotraficantes, a direita colombiana ostenta o Record Guinness no campeonato mundial da narcopolítica. Os Diálogos contribuíram não apenas para acabar com estas calúnias; a cobertura midiática das conversações tornou possível que o povo colombiano pudesse escutar as posições das FARC e romper o cerco informativo que as mantinha no isolamento e que a mídia – esmagadoramente controlada pela direita – denunciava como sinistras organizações criminosas. Isso mudou. Nos periódicos aparecimentos depois de cada ciclo de conversações com os representantes do presidente Santos, os negociadores da guerrilha aparecem diante da opinião pública colombiana como gente razoável e sempre portadora de iniciativas patrióticas concretas.

A segunda, é que os representantes das FARC desbarataram as acusações sobre o suposto vínculo entre a guerrilha e o narcotráfico, tornando pública uma iniciativa que seu então líder, o comandante Manuel Marulanda Vélez, apresentara publicamente em 2000 para acabar com o cultivo da coca na Colômbia. O plano propunha a substituição da coca por outros cultivos de corte tradicional. Mas a materialização deste projeto requer a ativa participação de um governo que o faça seu, coisa que Bogotá não fez. Sua política, a proposta de Washington, foi queimar as plantações de coca sem oferecer nada em troca para os camponeses. O resultado: a disseminação desse cultivo por quase todo o país. Nas considerações de Marulanda o custo desta reconversão agrária, que erradicaria realmente a coca, deveria ser financiado conjuntamente por organismos internacionais de crédito, um programa especial da ONU e, evidentemente, o governo colombiano. Esta iniciativa, que refuta inapelavelmente a conjunção de interesses entre os narcotraficantes e as FARC, porque efetivamente acaba com o cultivo da coca, havia circulado profusamente na Colômbia. No entanto, encontrou ouvidos surdos nos despachos oficiais.

Terceira e última: os representantes das FARC também promoveram diversas iniciativas para melhorar a pobre qualidade da democracia colombiana. Uma delas serviria para remover as argúcias rábulas que impedem a um dos personagens mais populares da Colômbia, a ex-senadora Piedad Córdoba, desempenhar qualquer posto público por um período de 18 anos. A causa deste disparate: os incansáveis esforços de Piedad para acabar com o conflito armado.

Outra iniciativa política: as FARC propõem a constituição de uma espécie de comissão histórica da memória e da verdade que deveria ser integrada por personalidades internacionais e colombianas irrepreensíveis. A comissão teria por missão estabelecer as responsabilidades que cabem aos diversos atores pelo prolongado banho de sangue a que foi submetido esse país no último meio século, e que ainda continua. Como muito bem aprendemos na Argentina, a paz não pode construir-se sobre o esquecimento e a impunidade do terrorismo de Estado. Quem matou a mancheias jovens recrutados supostamente pelo exército para depois serem assassinados e apresentados como guerrilheiros abatidos em combate – os “falsos positivos” –, não pode continuar desfrutando dos benefícios da liberdade. O mesmo vale para aqueles que dispuseram de fossas comuns para fazer desaparecer centenas de pessoas aniquiladas pelas forças oficiais e pela turba que, nos anos 1980, assassinou cerca de 5.000 militantes da União Patriótica (incluindo dois candidatos a presidente da República e inumerável quantidade de candidatos às prefeituras e ao Congresso) quando a guerrilha abandonou suas armas e ingressou na concorrência política “democrática” a que havia sido convidada pelo governo de então. Sabemos, por experiência, que a impunidade é um tema tabu para os criminosos de ontem e de hoje e seus protetores nas alturas do Estado. Mas nenhum governo pode encarar seriamente um Diálogo de Paz condenando este tema ao esquecimento.

Conclusão: a abertura das conversações de Havana colocou o governo de Santos na defensiva. O simples fato de dar a palavra às FARC e permitir que suas vozes ressoem claramente na Colômbia destruiu, em poucas semanas, os estereótipos que a haviam criminalizado e abriu consideravelmente a agenda política. Falta ainda muito caminho para percorrer, mas os diálogos de Havana deveriam contar com a solidariedade dos povos e dos governos democráticos da Nossa América para acabar com meio século de lutas fratricidas na entranhável terra colombiana.

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