Hitchcock contra a Shoah

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14 Janeiro 2014

"A versão mais sólida sustenta que o governo britânico considerou pesada demais a carga sobre o povo alemão num momento de reaproximação anglo-germânica. De fato, "Memory of the Camps" assume uma postura veemente de denúncia da postura generalizada dos alemães, entre a passividade e a cumplicidade, frente ao Holocausto", escreve Amir Labaki, o diretor-fundador do "É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários", em artigo publicado no jornal Valor, 10-01-2014.

Eis o artigo.

Um dos últimos mistérios em torno de Alfred Hitchcock (1899-1980) está sendo desvendado por um documentário britânico atualmente em finalização. Dirigido por André Singer, "Night Will Fall" (A Noite Cairá) reconstitui o envolvimento de Hitch na realização de um documentário inacabado sobre a libertação dos campos de concentração em abril e maio de 1945.

Intitulado "Memory of the Camps", é um dos mais explícitos e dolorosos registros audiovisuais do Holocausto. Orientadas pelo produtor e exibidor Sidney Bernstein (1899-1993), chefe do setor cinematográfico da Divisão de Guerra Psicológica do Comando Supremo das Forças Expedicionárias Aliadas da Segunda Guerra (1939-1945), equipes de filmagens acompanharam a entrada das tropas americanas e britânicas em dezenas de campos de concentração nas últimas semanas do conflito.

O material filmado foi enviado a Londres para ser editado. Discordâncias sobre a abordagem entre os americanos e os britânicos, diante da rápida dinâmica da política internacional do pós-guerra, atrasaram a sequência do trabalho. Detalhes da polêmica, que levou os EUA a se desligarem da produção em julho de 1945, prometem ser revelados agora por "Night Will Fall".

Os americanos chegaram a propor que Billy Wilder assumisse a direção do filme. Não tiveram sucesso e Wilder acabou realizando seu próprio documentário de curta-metragem sobre os campos, "Die Todesmuhlen" (As Fábricas de Morte), lançado em janeiro de 1946.

Uma equipe britânica formou-se então sob a coordenação de Bernstein, com o auxílio dos jornalistas britânicos Colin Wills e Richard Crossman e dos montadores Peter Tanner e Stewart MacAllister. É aqui que Hitch entra em cena.

Estabelecido em Hollywood desde o começo de 1939, Hitchcock já havia colaborado com seu amigo Bernstein no esforço propagandístico de guerra, voltando à Inglaterra no começo de 1944 para dirigir dois curtas de apoio aos franceses. Rodados em francês e intitulados "Bon Voyage" e "Aventure Malgache", são ambos thrillers velozes de apoio à Resistência contra a ocupação nazista da França. Nada perderam com a passagem do tempo, como o leitor pode conferir vendo o primeiro deles no YouTube.

Aceitando o novo convite do parceiro, com quem viria a trabalhar nos anos seguintes em três filmes ("Festim Diabólico"; "Sob o Signo de Capricórnio" e "A Tortura do Silêncio"), Hitchcock reuniu-se à equipe em Londres por um mês, entre os fins de junho e julho de 1945. Sua contribuição teria sido auxiliar na forma de apresentação do material, recebendo posteriormente o crédito de "treatment advisor".

Como posteriormente precisou Sidney Bernstein, dois toques fundamentais foram dados pelo cineasta. O primeiro foi o de explicitar nos mapas que localizam os campos a proximidade com várias cidades, frisando assim a inevitabilidade do conhecimento pela população alemã da máquina de horror mobilizada pelos nazistas.

Segundo: Hitch sugeriu editar sempre que possível imagens com a chegada das tropas aliadas aos campos. "Deveríamos tentar prevenir que as pessoas pensassem que algo disso [filmado] fosse falso", explicou o coeditor Tanner. Sugestões preciosas, mas seria forçar a mão apresentar "Memory of the Camps" como um documentário "de Hitchcock", a menos que o novo filme traga evidências até aqui inéditas.

Dois meses depois do retorno de Hitch a Hollywood para o lançamento do suspense psicanalítico "Quando Fala o Coração", o documentário permanecia inacabado. E assim quedou. "A grande questão é: por que não foi finalizado?", indaga a coprodutora e distribuidora de "Night Will Fall", Philippa Kowarsky.

A versão mais sólida sustenta que o governo britânico considerou pesada demais a carga sobre o povo alemão num momento de reaproximação anglo-germânica. De fato, "Memory of the Camps" assume uma postura veemente de denúncia da postura generalizada dos alemães, entre a passividade e a cumplicidade, frente ao Holocausto. E o faz apresentando registros dantescos de montanhas de cadáveres e esqueletos ambulantes em inúmeros campos de concentração, dos mais aos menos conhecidos: Buchenwald, Bergen-Belsen e Dachau, assim como Ebensee, Gardelegen, Ludwigslust e Ohrdorf.

Uma pioneira montagem do material arquivado no Imperial War Museum de Londres, realizada a partir do texto da narração original (lido por Trevor Howard) e com seis dos sete rolos previstos, foi ao ar pelo programa "Frontline" do canal público PBS dos EUA em maio de 1985 para marcar os 40 anos da liberação dos campos. Um dossiê sobre a produção está disponível no site da emissora e o próprio "Memory of the Camps" tem cópias de mediana qualidade no YouTube.

A verdadeira dimensão desse extraordinário documentário, que forma ao lado de "Noite e Neblina" (1955), de Alain Resnais, e "Shoah" (1985), de Claude Lanzmann, o trio central de filmes sobre o Holocausto, poderá ser finalmente compreendida com o lançamento conjunto neste ano tanto de "Night Will Fall" como sobretudo de sua versão restaurada e completa, incluindo seu último rolo, até há pouco tido como perdido, com o registro por equipes soviéticas da libertação de Auschwitz.

Antes tarde do que nunca. Hoje como ontem, como afirma em sua narração final, se não aprendermos a lição da barbárie, a noite cairá.

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