''Eu era motorista de caminhão, agora perdi tudo'': o relato do mendigo que foi comer com o papa

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19 Dezembro 2013

Estavam em quatro. Para ser mais preciso, três humanos e um cachorro. "E ele, como se chama?". "Marley, Santidade. Como Bob Marley". Francisco não respondeu, provavelmente não conheça muito a música reggae, mas se inclinou para acariciá-lo, e Marley, o pastor-romeno, também pôde ficar à mesa do papa e festejar no café da manhã o aniversário de Bergoglio com outros três sem-teto. Martin conta com um sorriso um pouco tímido: "Somos uma família, nós quatro". Ele se vira para São Pedro e coloca uma mão sobre os lábios mandando um beijo: "Francisco é um homem bom".

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal da Corriere della Sera, 18-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em Roma, o clima está ameno, mas às 20h o frio se faz sentir. O povo dos sem-teto nos arredores de São Pedro começa a desenrolar caixas e cobertores para a noite. Nessa terça-feira, morreram dois sem-teto em Roma e em Ferrara. Martin e os seus amigos passam a noite debaixo do pórtico no fim da Via della Conciliazione, sem horários fixos.

O outro Martin, o esloveno, foi dar uma volta, o polonês Wojczech se afastou para tentar beber. Restou Martin, o tcheco, deitado em cima do saco de dormir com os olhos arregalados. No olhar, ele ainda tem o mesmo espanto de quando, na manhã dessa terça-feira, o "padre Corrado" – isto é, o arcebispo Konrad Krajewski, esmoleiro do papa – chegou com o habitual Fiat Qubo branco que ele usa nas suas voltas noturnas para ajudar os pobres, e os acordou: "Vocês querem vir comigo para Santa Marta, na festa de aniversário de Francisco?".

O papa sempre diz: tocar a carne de Cristo nos pobres. "Eu pensava que o padre Corrado nos pedia para lhe dar uma mão em algum trabalho", sorri Martin. "Quando eu vi os suíços que nos cumprimentavam levando a mão à testa, então eu me assustei um pouco..."

Passam duas freiras carregando uma caixinha: "Quer um sanduíche?". Martin agradece com um aceno de cabeça e coloca a comida na bolsa, que serve como travesseiro. "Aqui não há problema para comer. As freiras, a Cáritas, o padre Corrado que sempre passa por aqui e conhece todos nós...".

Martin conta que dorme na Via della Conciliazione há quatro meses. "Mas há três anos eu ando por aí, França, Holanda, Itália...". Ele faz um gesto vago, é uma longa história. "O papa não nos perguntou por quê", diz ele, reconhecido. "Ele falou conosco, rezamos juntos um Pai Nosso e uma Ave-Maria".

Nessa terça-feira, chegaram felicitações a Francisco de todo o mundo. O presidente italiano Napolitano lhe escreveu: "Espero em breve ter a oportunidade de encontrá-la novamente". Martin levanta o olhar: "Se eu penso nos bilhões de pessoas que existem na Terra... E ele escolheu a nós, vestidos assim..."

Ele conta com os olhos que brilham de dor. "Na República Tcheca, eu era motorista de caminhão, trabalhei por 12 anos. Depois, não havia mais trabalho, como aqui. Eu fui embora. Não falo mais com a minha mãe há três anos, não sei se ela ainda está viva... Eu tenho um filho, agora com seis anos, mas ela... enfim, terminamos, e eu tive que ir embora...".

Ele não quer um teto. "Eu prefiro assim. Sou um homem livre. Eu tiro os sapatos e estou bem. O albergue? Nããão. Tinha alguns que roubavam as suas coisas. E depois os horários...".

Resta a sua pequena família. O cachorro. "No coração, você sente necessidade. Era bom que ele também fosse. Francisco nos disse que não devemos nos resignar, nunca. Que devemos ter esperança".

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