Assembleia do Conselho Ecumênico de Igrejas em Busan: consensos, desafios, perspectivas

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29 Novembro 2013

"Uma peregrinação rumo à justiça e à paz", na qual as Igrejas, estendendo as mãos para as mulheres e os homens que fazem o mesmo caminho, querem chegar à 11ª Assembleia Geral do Conselho Ecumênico de Igrejas, que será realizado em sete anos. Com esse convite, no dia 8 de novembro foi concluída em Busan, na Coreia do Sul, onde começara no dia 30 de outubro, a 10ª Assembleia do CEC, que reuniu cerca de 2,7 mil pessoas, dentre as quais 902 delegadas e delegados das 345 Igrejas (ortodoxas, anglicanas, protestantes e outras) do Conselho para refletir juntos à luz das palavras programáticas "Deus da vida, guia-nos à justiça e à paz".

A reportagem é de Luigi Sandri, publicada na revista Confronti, de dezembro de 2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma península repleta de contradições

A península coreana, de 1950 a 1953, foi palco de um conflito muito sangrento, que provocou 3 milhões de mortes e enormes destruições. Os norte-coreanos, ajudados pela União Soviética e pela recém-nascida China popular, entraram em confronto com os sul-coreanos, apoiados pelos Estados Unidos da América. Nenhuma das duas partes conseguiu prevalecer, e assim, no dia 27 de julho de 1953, foi firmado um armistício que consagrou a divisão da península, cortada ao meio ao longo do paralelo 38. Ao Norte, dominou a dinastia comunista de Kim; ao Sul, iniciou-se uma frágil democracia, que também viu períodos ditatoriais.

O Norte é um país isolado do mundo, pobre (só os militares e os hierarcas estão bem) e com milhões de pessoas que sofrem de fome, até porque o regime tem desviou somas enormes para a fabricação de armamentos atômicos, com os quais, de tempos em tempos, ameaça o Japão e os Estados Unidos. O Sul, ao invés, pouco a pouco se transformou em um dos países mais desenvolvidos do planeta, com produtos industriais e de alta tecnologia exportados para todas as partes.

Seul, a capital, e Busan, um dos maiores portos do mundo, são florestas de arranha-céus, e se alguém não visse as escritas em coreano, poderia pensar que estava em Nova York ou em Toronto. Mas esse desenvolvimento tem custos humanos: limites aos direitos sindicais, marginalização das camadas mais pobres, graves problemas ecológicos.

Também de um ponto de vista religioso, nas últimas décadas, a Coreia do Sul (são fragmentárias as notícias sobre a do Norte: existem algumas Igrejas protestantes, que têm uma vida difícil; de outras, sabe-se pouco; diversos cristãos – particularmente católicos – foram condenados a trabalhos forçados) teve um desenvolvimento espetacular: há 50 anos, os católicos eram 1%, e os cristãos de outras Igrejas – metodistas, presbiterianos e pentecostais, em particular – um pouco mais. Agora, os cristãos são 30% dos 48 milhões de sul-coreanos; um terço dos cristãos são católicos (cerca de 10% do total da população).

A impressão que se tem é que algumas Igrejas exaltam o sucesso como sinal da benevolência divina. Em Seul, a Igreja do Evangelho Pleno de Yoido – pentecostal – se assemelha a um teatro: entre plateia e galeria, tem 10 mil lugares sentados, e, aos domingos, de manhã à noite, celebra sete cultos, todos muito frequentados. Os fiéis, com um murmúrio crescente que explode quase em um grito, invocam o Espírito Santo. Depois, passam grandes cestas, e eles colocam dentro delas envelopes com a documentação bancária da oferta feita. O estrangeiro que chega pode acompanhar as orações, os cantos (há uma orquestra e um coro poderoso de 120 pessoas) e a pregação, porque funciona uma tradução simultânea em inglês, espanhol, chinês, mongol, russo, malaio, japonês e vietnamita.

As Igrejas sul-coreanas se comprometeram muito, com generosidade e eficiência, para sediar o evento ecumênico. Mas o seu fôlego foi visto como uma afronta por grupos cristãos sul-coreanos fundamentalistas.

De 29 de outubro a 8 de novembro, todos os dias, algumas dessas pessoas – e, uma vez, 2 mil juntas – estacionavam diante do Bexco (o imponente palácio de exposições de Busan, local da assembleia) para gritar: "O CEC defende os comunistas e os homossexuais. Mata a Igreja. É a torre de Babel. É o diabo. Arrependei-vos!".

Convivialidade das diferenças e inconciabilidade de perspectivas

Mais uma vez, também em Busan, emergiu a importância do CEC, único lugar do mundo – até agora – dessa magnitude em que Igrejas diferentes, e às vezes historicamente inimigas, antigas ou muito novas, ricas ou pobres, reverenciadas ou perseguidas, grandes por dimensão ou muito exíguas, do Leste e do Oeste, do Norte e do Sul, podem se encontrar, conversar, contaminar-se mutuamente, cada uma trazendo os seus dons e recebendo os das outras. Igrejas com heranças culturais e práxis pastorais muitas vezes muito diferentes, que fazem crescer uma "convivialidade das diferenças" fecunda e encorajadora.

Em suma, se o CEC não existisse, seria preciso inventá-lo! E espera-se que as suas dificuldades financeiras, sobre as quais também se discutiu na Coreia do Sul, sejam superadas, porque senão a sua própria operatividade seria drasticamente redimensionada.

No entanto, apesar da proclamada vontade ecumênica de "caminhar juntos", grandes obstáculos obstruem a estrada, porque há diferenças tão fortes na interpretação bíblica, na práxis eclesial e na avaliação ética de certos comportamentos que, em vez de serem sentidos como riqueza, estão levantando muros: e isso diz respeito, sobretudo, à relação com a modernidade e a secularização, à compreensão do "modelo família" e da sexualidade, ao papel das mulheres na Igreja e aos ministérios abertos para elas.

Em Busan, essa dolorosa e, por enquanto, inconciliável diversidade, que finalmente se torna profunda divergência, veio à tona com o discurso na plenária do Metropolita Hilarion de Volokolamsk, presidente do Departamento para os Assuntos Eclesiásticos Externos do Patriarcado de Moscou, na prática o "ministro das Relações Exteriores" da Igreja Russa: "O laicismo militante ataca não só os santuários e os símbolos religiosos, reivindicando a sua retirada do espaço público. Um dos principais alvos da sua atividade é a destruição deliberada dos conceitos tradicionais de matrimônio e de família. Prova disso é que se proclama a igualdade entre as uniões homossexuais e o matrimônio, e o direito de adotar crianças por parte de casais do mesmo sexo. Do ponto de vista do ensinamento bíblico e dos valores morais cristãos tradicionais, isso testemunha uma profunda crise espiritual. Deliberadamente é destruída a concepção religiosa do pecado em sociedades que até pouco tempo atrás se consideravam cristãs (...) A Bíblia não conhece outras formas de matrimônio que a união entre homem e mulher, e considera como pecado a convivência de pessoas do mesmo sexo (...) Infelizmente, hoje, nem todas as Igrejas cristãs têm a coragem de defender os ideais bíblicos contra a moda, contra a ideologia laica predominante. Alguns grupos cristãos, há muito tempo, tomaram o caminho da revisão do ensinamento moral, para pô-lo em sintonia com as tendências modernas".

Hilarion encontrou ampla aceitação nos representantes africanos e asiáticos presentes em Busan, porque as culturas dos seus países consideram "inconcebível" a própria ideia das uniões homossexuais, ainda mais se são consideradas como matrimônio. Outro problema – o dos ministérios femininos – também divide drasticamente a Ortodoxia (e a Catolicidade) das Igrejas ocidentais que, tendo outra compreensão do "sacerdócio", admitem mulheres ao pastorado e ao episcopado.

Mas, para dar um exemplo, justamente a admissão ética, por parte de algumas "províncias" (Igrejas nacionais) anglicanas ocidentais, de homossexuais que vivem publicamente com um/a parceiro/a, e de mulheres no pastorado e também no episcopado, colocou o anglicanismo quase em estado de cisma, porque algumas de suas Igrejas, especialmente africanas, alegando motivações bíblicas e culturais, recusam muito firmemente essas escolhas.

Embora preparado há muito tempo, e portanto não pensado como uma réplica indireta ao metropolita, alguns/mas sentiram quase como um contraponto a Hilarion a intervenção de Cecilia Castillo Nanjari, da Misión Iglesia Pentecostal de Chile, e coordenadora continental da Pastoral das Mulheres e Justiça de Gênero do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai): "Com relação às mulheres, as Igrejas continuam querendo controlar a sua sexualidade, o seu corpo e a reprodução, assim como a defender um único conceito de família, que não reflete as várias realidades. Infelizmente, devo constatar que até hoje, na América Latina e em outras regiões do mundo, o reconhecimento integral dos direitos humanos das mulheres não foi devidamente debatido e adotado nas Igrejas, que se baseiam em leituras bíblicas androcêntricas descontextualizada (...) Anunciar o Evangelho da vida tem a ver com as experiências dos jovens que denunciam as más práticas enrijecidas das nossas Igrejas e sociedades patriarcais, anunciando que há mudanças de paradigmas e tempos novos entre as gerações".

Os gemidos do mundo. A tensão entre teologia e ação

Além dos discursos fundamentais do secretário geral do CEC, o pastor luterano norueguês Olav Fykse Tveit, e de Walter Altmann, "moderador" do Comitê Central (o "parlamentinho" de 150 membros que, entre uma assembleia e outra, representam a mais alta autoridade do CEC), que influenciaram positivamente os presentes com o seu rigor misturado com sabedoria e paciência, inúmeros foram os relatos, os discursos, as intervenções e os apelos que tocaram, por assim dizer, todos os mais dramáticos problemas do mundo: alguns muito conhecidos (quem não sabe sobre o Oriente Médio em chamas?) e outros, ao menos no Ocidente, ignorados.

Isso porque as delegadas e os delegados reunidos não falavam de questões abstratas, mas como porta-vozes das tragédias mais duras dos seus povos. Portanto, foram abordadas múltiplas situações de crise: o Paquistão (cristãos à mercê de leis repressivas); os Grandes Lagos africanos (conflitos em vários países, particularmente no Congo oriental); o incipiente conflito entre Sudão e Sudão do Sul pelo controle da região disputada de Abiyé, rica em petróleo.

E depois a luta contra a Aids, ajudando os afetados e a opinião pública a não sentirem essa doença, especialmente na África, como um estigma vergonhoso; o dramático problema dos "apátridas", pedindo para eles proteção jurídica; um apelo contra o tráfico de mulheres e a violação programática de meninas; o compromisso para sensibilizar as Igrejas e os governos sobre a urgente necessidade de não manipular demais a Mãe Terra; um apelo ao respeito pela liberdade religiosa e, nesse contexto, a denúncia das perseguições contra os cristãos.

A esse respeito, salientando que as violências anticristãs ocorrem principalmente em países muçulmanos, Hilarion tinha distinguido entre o Islã, "religião de paz, capaz de coexistir com outras tradições religiosas", e "o islamismo radical que quer estabelecer um califado islâmico no mundo, onde não há lugar para os cristãos", e relatou dados dramáticos: "A cada ano, 100 mil cristãos morrem de morte violenta, e 100 milhões são vítimas de discriminação e perseguição".

Em Busan foi reproposto o Apelo por uma paz justa, lançado em 2011 pela Convocação Ecumênica de Kingston. Mas a questão dos armamentos, no grupo que refletiu sobre esse tema, viu opiniões variadas: se todos disseram estar de acordo em denunciar o comércio "ilegal" das armas e a proliferação dos armamentos nucleares, permaneceu irresolvido um problema mais a montante. De fato, aqueles que queriam que fosse evangelicamente afirmado, de modo absoluto, o "não" às armas (de todos os tipos, não só as atômicas ou de destruição em massa), para favorecer uma massiva obra de educação à resistência não violenta, não conseguiram fazer passar essa tese. No entanto, foi reiterado: "Não existe guerra juta, só a paz é justa".

Sobre o Oriente Médio, a Assembleia expressou sua profunda dor pela tragédia da Síria, pela extrema precariedade do Iraque e pelo interminável conflito israelense-palestino, propondo, em essência, que Israel ponha fim à ocupação dos territórios palestinos e que nasça um Estado da Palestina vivível e independente.

Mas, a propósito, enquanto se convida a um incansável diálogo entre judeus, cristãos e muçulmanos, para favorecer a paz na justiça na Cidade Santa e arredores, afirma-se: "Repudiamos todas as formas de extremismo que estão se desenvolvendo no Oriente Médio, também entre judeus e muçulmanos. Repudiamos a crescente influência do sionismo cristão, tanto no Oriente Médio quanto no mundo. Repudiamos os danosos efeitos, tanto na comunidade judaica quanto na palestina, de certas formas de sionismo político judeu. Proclamamos o nosso apoio a um trabalho comum com os judeus, incluindo os israelenses, que assumem atitudes comprometedoras pela paz na justiça em Israel e na Palestina".

Também foi desejado que a próxima Assembleia do CEC, a ser realizada em 2020, seja celebrada justamente no Oriente Médio. De fato, alguns sugeriram: "Em Jerusalém!" (hipótese, esta, totalmente fantasiosa, hoje em dia, mas, em sete anos, quem sabe?). Contudo, caberá ao Comitê Central, em três ou quatro anos, decidir o local da 11ª Assembleia. O esboço de texto sobre o Oriente Médio pedia a libertação de dois bispos da Síria (um ortodoxo e um sírio) sequestrados meses atrás, não se sabe por quem.

Um representante da Pax ChristiItália, notando que em Busan não se pedia a libertação do padre jesuíta Paolo Dall'Oglio, sequestrado em julho, falou com Michel Charbonnier, delegado da Igreja valdense-metodista, que, na plenária, sugeriu acrescentar esse nome: proposta acolhida!

No fronte teológico, a Assembleia avaliou favoravelmente – como matéria de estudo para as comunidades individuais – A Igreja: rumo a uma visão comum, um texto concluído em 2012, depois de anos de trabalho, da Fé e Constituição (a comissão do CEC de 120 membros, incluindo 12 católicos romanos, que aborda os problemas doutrinais para propor as suas conclusões às Igrejas, que permanecem livres para aceitá-las ou não). Ele elenca os pontos sobre os quais as Igrejas chegaram a um consenso e outros em que ainda estão longe.

A Assembleia elogiou o texto, desejando que as Igrejas o examinem e enviem as suas respostas até dezembro de 2015. Depois, se verá o que fazer. Igualmente, ela recomendou o estudo de Juntos rumo à vida: missão e evangelização nos contextos em evolução, que – afirma – constitui "um grande passo na concepção ecumênica da natureza e da prática missionária das Igrejas". E um documento sobre o diálogo inter-religioso, "elemento importante da peregrinação da justiça e da paz".

Mas, no conjunto, pareceu-nos fraca reflexão teológica em Busan. Por outro lado, alguns problemas doutrinais que ainda dividem as Igrejas dentro do CEC (não só da Igreja Católica Romana: a propósito, a mensagem do Papa Francisco, lida na Assembleia pelo cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, foi acolhido com simpatia) são, hoje, insuperáveis: por exemplo, a concepção do sacerdócio e dos ministério femininos.

A consequência é que, como nas assembleias anteriores, também em Busan faltou uma celebração coral da Eucaristia. Um objetivo contratestemunho, ainda mais depois que, em um longo documento, as Igrejas tinham convidado os governos das duas Coreias, a ONU e as grandes potências a favorecer promover a reunificação pacífica da península coreana. Em suma, as Igrejas do mundo propõem ao mundo passos gigantescos que elas, em seu interior, não conseguem dar.

Em Busan, além de elaborar documentos, também foram tomadas decisões operacionais: uma das mais importantes foi a eleição do novo Comitê Central (também foi eleita a jovem valdense Valeria Fornerone), que, depois, nomeou o seu "moderador", sucessor de Altmann, a anglicana queniana Agnes Abuom. É a primeira vez que, à frente desse órgão decisivo para a vida do CEC, foi eleita uma mulher: e ela é africana.

O encontro ecumênico resumiu o seu trabalho e entreviu o seu futuro em uma mensagem às Igrejas que prevê uma "peregrinação rumo à justiça e à paz", que, de agora até a assembleia de 2020, verá o compromisso de mulheres e homens cristãos que se dão as mãos, abrindo-as também para pessoas de boa vontade, para caminhar rumo à meta desejada: "Queremos avançar juntos. Desafiados pela nossa experiência de Busan, desafiamos também vocês a se comprometerem, com os dons recebidos por Deus, em ações transformadoras. A Assembleia chama a todos os nossos irmãos e irmãs a se unirem em peregrinação. Que as Igrejas possam ser comunidades de salvação e compaixão, na esperança de que seja possível espalhar a semente da Boa Nova a fim de que a justiça cresça e a paz profunda de Deus reine no mundo".

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