A despedida de Timothy Dolan

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18 Novembro 2013

A manchete que surgiu do encontro dos bispos dos EUA em Baltimore na semana passada foi a eleição do arcebispo Joseph Kurtz, de Louisville, Kentucky, e do cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, como a nova equipe de liderança. Antes de virar a página, vale a pena refletir um momento sobre a mensagem final divulgada pelo líder cessante do bloco, o cardeal Timothy Dolan, de Nova York.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 15-11-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dolan dedicou o seu último discurso presidencial para chamar os bispos norte-americanos para a ação com relação à perseguição de cristãos ao redor do mundo. Foi uma ênfase marcante e não apenas porque ele citou o meu livro The Global War on Christians [A guerra global contra os cristãos] algumas vezes.

O mandato de Dolan como presidente estará para sempre ligado às batalhas domésticas que os bispos travaram com relação à liberdade religiosa ao longo dos últimos três anos, especialmente o cabo-de-guerra de alto risco e ainda não resolvido com o governo Obama sobre os mandatos de contracepção. Justamente por ter trazido tanta água para essa questão, a opinião de Dolan sobre no contexto mais amplo das batalhas pela liberdade religiosa tem uma força especial.

Em seu discurso, Dolan enumerou algumas das zonas mais intensas em que os cristãos estão sob cerco hoje – a Nigéria; o Estado indiano de Orissa; a China; a Síria; o Iraque; e o Egito. Embora reconhecendo que os membros de outras fés enfrentam ameaças também, Dolan insistiu que "os cristãos se destacam em muito mais lugares e com muito mais frequência".

Essa não é apenas uma hipérbole confessional. Dois terços dos 2,3 bilhões de cristãos do planeta hoje vivem no mundo em desenvolvimento, muitas vezes em alguns bairros bastante difíceis. Eles são desproporcionalmente mais propensos a serem pobres e a pertencerem a minorias étnicas, linguísticas e culturais, de modo que estão dupla ou triplamente em risco. Além disso, são alvos de conveniência para qualquer pessoa com uma queixa contra o Ocidente.

Dolan pediu que os bispos norte-americanos se tornem "advogados e defensores desses cristãos, cujas vidas literalmente estão sobre balança", acrescentando que "não nos atrevamos a permitir que as nossas louváveis ​​batalhas pela liberdade religiosa em casa obscureçam a violência real que está sendo infligida contra os cristãos em outros lugares".

Depois de oferecer algumas sugestões específicas para a ação – oração, aumento da conscientização, defesa política e assim por diante –, Dolan concluiu com uma exortação.

"Proteger a liberdade religiosa será uma preocupação social e política central do nosso tempo, e nós, bispos norte-americanos, já demos contribuições muito importantes para levar isso em frente", disse. "Agora, estamos sendo chamados – pela história, pelo Papa Francisco, pela força da nossa própria lógica e da eclesiologia de comunhão – a estender esses esforços às dramáticas linhas de frente dessa batalha, onde os cristãos estão pagando com as suas vidas pela sua fidelidade".

Em parte, a despedida de Dolan foi um esforço para fomentar uma perspectiva global para a Igreja, que seria válida em qualquer circunstância e é ainda mais pertinente com o primeiro papa do mundo em desenvolvimento. Em parte, também, o apelo de Dolan equivale a um reconhecimento de que a ascensão de uma nova geração de mártires representa a história cristã mais urgente do nosso tempo, sem falar da mais incontada.

A partir desta semana, Dolan não estará mais no comando da Conferência para dar fundamento a essas palavras com a ação. Cabe agora a Kurtz e a DiNardo, e eles devem saber que legiões de cristãos em situação de risco em todo o mundo estarão observando.

* * *

Uma nota de rodapé sobre o crescente interesse pela perseguição anticristã: uma das histórias fora de Roma desta semana é o progresso em direção a uma reunião de cúpula entre o Papa Francisco e o Patriarca Kirill, de Moscou, chefe da Igreja Ortodoxa Russa. Questionado sobre quais seriam os temas da tal encontro, uma autoridade ortodoxa russa apontou para "a proteção dos cristãos nos lugares onde eles são perseguidos, por exemplo, no Oriente Médio".

A autoridade, que se reuniu com Francisco esta semana, disse que tinha falado com o papa sobre a necessidade de "parar os massacres de cristãos em lugares onde grupos de radicais islâmicos estão tentando exterminá-los".

O comentário oferece um lembrete de que a defesa dos cristãos sofredores não é apenas um serviço a eles, mas também, potencialmente, um benefício para as relações ecumênicas. Todas as denominações hoje têm seus mártires todas estão mais ou menos igualmente em risco.

Um dos fatores para o crescimento do movimento ecumênico em meados do século XX foi a comunhão de sofrimento que católicos, protestantes e ortodoxos experimentaram em campos de concentração nazistas e gulags soviéticos. Da mesma forma, hoje, a realidade compartilhada de martírio poderia ser uma força poderosa para reunir as Igrejas em um espírito mais profundo de causa comum.

Essa intuição provavelmente explica por que o cardeal suíço Kurt Koch, principal autoridade do Vaticano para as relações com outros cristãos, em 2011, definiu o "ecumenismo dos mártires" como o "núcleo de uma espiritualidade ecumênica" hoje.

 

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