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09 Novembro 2013

Um irreverente filme chileno retrata a crise do conservadorismo no último país no hemisfério ocidental a autorizar o divórcio, em 2004. No filme "El Tío", de Mateo Irribarren, é posta em cheque a figura do advogado Jaime Guzmán (1946-1991), ideólogo do regime militar e fundador do partido direitista União Democrata Independente (UDI), a sigla pela qual concorre à Presidência do país a candidata governista Evelyn Matthei.

A reportagem é de César Felício, publicada no jornal Valor, 08-11-2013.

Guzmán é interpretado no filme pelo próprio sobrinho, Ignacio Santa Cruz, retratado como uma pessoa perturbada sexualmente e que "transformou o Chile em uma igreja", conforme diz um personagem. Apesar de ter apenas 27 anos quando um golpe militar instalou o general Augusto Pinochet no poder, em 1973, Guzmán rapidamente tornou-se um de seus principais assessores e coordenou a redação da Constituição chilena, referendada por um plebiscito organizado pela ditadura em 1980.

Católico praticante, admirador do franquismo espanhol, Guzmán foi assassinado pela Frente Patriótica Manuel Rodríguez em 1991, já no período democrático, se convertendo em um mártir da direita. É uma imagem quebrada no filme, que explora a possível homossexualidade de Guzmán, que morreu solteiro e sem filhos. Na obra, produzida pelo sobrinho e ator, Guzmán é retratado quase como um coditador do Chile, dando instruções a Pinochet sobre como institucionalizar o regime, enquanto prepara uma receita de estrogonofe. A história chocou o Chile e a UDI, por meio de sua fundação de estudos que se chama Jaime Guzmán, considerou o filme "infame".

As regras da Constituição ditadas por Guzmán, que obrigam governo e oposição a pactuarem mudanças ao exigir quórum qualificado no Congresso para a votação de diversos assuntos, fizeram com que o Legislativo no Chile reagisse com lentidão às transformações sociais. "A sociedade chilena é muito mais liberal que sua elite e essa diferença tem se acentuado nos últimos anos", disse o cientista político Claudio Fuentes, do Centro de Pesquisas da Universidade Diego Portales.

Fuentes cita como exemplo, além da aprovação do divórcio pelo Congresso apenas em 2004, a questão do aborto. No país, a interrupção da gravidez é interditada em todos os casos, mesmo na hipótese de risco de vida materno, estupro ou má formação do feto. A liberação do chamado "aborto terapêutico", que aproximaria o Chile da legislação existente no Brasil e na Argentina, é aprovada por 67% da população, em pesquisa coordenada pela Universidade.

De acordo com outra pesquisa, do Centro de Estudos Políticos, a legalização da maconha conta com 40% de apoio, sendo 57% na população entre 18 e 24 anos; e o casamento entre homossexuais é apoiado por 36%, percentual que sobe para 59% entre a faixa mais jovem de entrevistados. A mudança nas questões de valores ocorre paralela a outras transformações. Entre 2006 e 2013, o percentual de pessoas que se afirmam sem religião aumentou de 12% para 19%. Não apenas a religiosidade, mas a família também está em crise: entre 1995 e 2011, segundo dados oficiais, o percentual de crianças que nasceram fora de uma relação matrimonial passou de 48% para 68% do total e 27% dos lares são compostos hoje apenas pela mulher e seus filhos.

"O Chile está mudando com uma velocidade impressionante tudo que diz respeito a valores individuais. Questões sociais, como direitos de indígenas, aceitação de imigrantes e sistemas de cotas caminham mais devagar", ponderou a socióloga Marta Lagos, que coordena a pesquisa Latinobarómetro, feita em 18 países.

Na classe política, já há sinais de ajuste ao novo eixo do país. "O movimento não se deu apenas nas questões de valores, mas em todo o resto. A simples discussão desses temas no ambiente político era impensável há uma década e uma das razões pelas quais Evelyn Matthei vai perder é essa", disse o advogado Jorge Navarrete, próximo à Democracia Cristã, que apoia a candidatura da ex-presidente Michelle Bachelet, favorita às próximas eleições.

Candidata que entrou na disputa há apenas três meses, Matthei assumiu as bandeiras conservadoras e adotou um perfil ideológico sem matizes. Aposta que, em um contexto de voto voluntário, os eleitores de mais alto poder aquisitivo e mais idosos tendem a comparecer às urnas em maior peso. Sua principal promessa de campanha é rigor contra a delinquência.

Matthei está com 22% na pesquisa Ipsos, divulgada ontem, cerca da metade da popularidade do atual presidente, Sebastián Piñera, que possui perfil mais ao centro. A ex-presidente Michelle Bachelet, de centro-esquerda, conta com 35%; o independente Franco Parisi, de centro-direita, com 15%; e o dissidente de esquerda Marco Enríquez Ominami, com 12%. Ao contrário de outras pesquisas, a da Ipsos sugere claramente segundo turno.

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