Os bispos na mira na Itália, nos Estados Unidos e na Espanha

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Por: André | 02 Novembro 2013

Eram os mais batalhadores em questões que o Papa Francisco passou a um segundo plano. Agora, encontram-se sob pressão, porque mudam de programa e de líderes.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítio Chiesa.it, 01-11-2013. A tradução é de André Langer.

O Papa Francisco mostra que tem bem claro em sua mente tanto as batalhas que quer travar como aquelas que não vê necessidade de travar. Tanto “ad intra”, isto é, no corpo eclesial do qual se converteu pastor supremo, em particular na cúria romana, como “ad extra”, no mundo.

Sobre estas últimas, o Papa Jorge Mario Bergoglio disse claramente e sem rodeios, na entrevista publicada pela revista La Civiltà Cattolica, que não considera prioritárias as batalhas sobre temas antropológicos, como são as questões “referentes ao aborto, ao casamento homossexual ou ao uso de anticoncepcionais”.

Isto constitui uma mudança de linha em relação aos últimos pontificados: não apenas de Bento XVI e de João Paulo II, mas também de Paulo VI, o Papa da Humanae Vitae e da corajosa resistência à introdução do divórcio na Itália.

É uma mudança de linha do Papa Francisco que, embora até agora não tenha anulado sequer uma letra da doutrina, suscitou amplas expectativas entre os setores mais progressistas do catolicismo mundial.

Mas é uma mudança de linha que também colocou em apuros os episcopados – da Itália, da Espanha e dos Estados Unidos – que no passado eram considerados modelos na maneira de enfrentar no cenário público os desafios antropológicos presentes no mundo contemporâneo, mas que agora se encontram assinalados como “pouco alinhados” com a nova liderança papal.

* * *

Na Espanha, um sinal veio do sítio Religión Digital, que começa com esta pergunta retórica: “Estão os bispos espanhóis em sintonia com Francisco e com os novos ares que sopram de Roma?”

O Religión Digital é um sítio ibérico de informação religiosa, desde sempre crítico do cardeal de Madri, Antonio María Rouco Varela, que há quase 20 anos é o líder indiscutível do episcopado e portador de uma linha teologicamente ortodoxa e politicamente adversa à revolução antropológica introduzida com firmeza, sobretudo, por Rodríguez Zapatero, e também contrária às derivações independistas que são muito fortes também no corpo eclesial da Catalunha e de outras regiões.

Nos Estados Unidos é o semanário liberal National Catholic Reporter que se dispôs a sublinhar que as palavras pronunciadas por Francisco contra a “atual ‘obsessão’ pastoral sobre o casamento gay, o aborto e a anticoncepção” manifestam um “desequilibrio” entre o Papa e os bispos dos Estados Unidos, desequilíbrio que chega a “minar” também a vigorosa campanha pela liberdade religiosa empreendida por estes últimos contra os aspectos moralmente inaceitáveis da reforma sanitária da Administração Barack Obama sobre as entidades eclesiásticas que não renegam a sua bandeira pátria.

Este mesmo giro foi saudado positivamente também pelo historiador Alberto Melloni, que advertiu como em seu primeiro encontro com todos os bispos italianos, em maio passado, o Papa “pronunciou um discurso suave nas formas, mas duro em relação ao conteúdo, e indicou uma linha diferente da que se seguiu até agora”. O expoente da chamada Escola de Bolonha – que propunha uma leitura progressista do Vaticano II – acrescentou: “Nas últimas décadas a Conferência Episcopal Italiana propôs um projeto pastoral e político. Agora o Papa coloca no centro da atenção um modelo de bispo. Para a Itália é um grande salto”.

Nesta nova estação eclesial, os episcopados espanhol, estadunidense e italiano parecem estar na mira.

Logo poderemos verificar quais serão os efeitos desta nova situação, inimaginável há oito meses.

Na Espanha

De 18 a 22 de novembro acontecerá a Assembleia Geral dos Bispos da Espanha. Nessa ocasião os bispos deverão escolher o novo secretário geral da Conferência Episcopal.

O atual secretário geral, dom Juan Antonio Martínez Camino – jesuíta como Bergoglio, mas em plena sintonia com o pouco “bergogliano” Rouco Varela –, não pode ser reeleito. Será preciso ver se os bispos escolherão o sucessor – utilizando a linguagem do antes citado sítio ibérico – entre “os candidatos de Rouco” ou “os candidatos franciscanos”. Como votarão os bispos espanhóis e quão forte soprarão em Madri “os novos ares de Roma” se verá dentro de não muito tempo.

Mas o Papa Francisco poderá intervir sobre a liderança episcopal ibérica também de forma mais direta, quando nomear o sucessor de Rouco Varela em Madri, que já passou dos 77 anos e cujo mandato como presidente do episcopado termina em março.

Um forte candidato à sucessão, não amado por Rouco, parece ser o cardeal de cúria, atual prefeito da Congregação para o Culto Divino, Antonio Cañizares Llovera, mais inclinado ao diálogo no campo político. Provavelmente, o Papa tomará sua decisão sobre Madri depois que receber os bispos espanhóis na visita “al limina”, entre final de fevereiro e começo de março.

Nos Estados Unidos

De 01 a 14 de novembro acontecerá também a assembleia dos bispos dos Estados Unidos, a USCCB. Também haverá um pleito eleitoral. Os prelados estadunidenses deverão escolher seu novo presidente e o seu novo vice para o próximo triênio.

Há três anos, rompendo uma tradição consolidada, os bispos não elegeram para presidente o vice em exercício – o bispo de Tucson, que havia sido auxiliar do chorado cardeal de Chicago, o “liberal” Joseph L. Bernardin, durante décadas líder indiscutível da USCCB –, mas preferiram Timothy M. Dolan, o batalhador arcebispo de Nova York.

Agora o vice é o moderado Joseph E. Kurtz, arcebispo de Louisville, e será preciso ver se será eleito presidente ou se, ao contrário, os bispos preferirão outro, por exemplo, o cardeal Daniel N. Di Nardo, arcebispo de Galveston-Houston. Os candidatos atualmente na corrida são dez, quase todos de tendências moderadas ou conservadoras.

Também nos Estados Unidos o Papa Francisco poderia intervir diretamente na liderança episcopal. Aproxima-se de fato o momento da eleição do presidente da importante sede de Chicago, onde o cardeal Francis E. George completará, em janeiro, 77 anos.

Mas aproxima-se também a data do primeiro consistório do atual pontificado, previsto para fevereiro e, em consequência, os nomes dos novos cardeais que serão anunciados em janeiro. Será interessante ver que eclesiásticos o pontífice indicará, para verificar se nos Estados Unidos haverá ou não um retorno à era Bernardin, como parece prefigurar e desejar o National Catholic Reporter.

Na Itália

Por último, a Itália. Aqui parece que já se produziu um sinal de retorno à era pré-Ruini com a nomeação do secretário geral do próximo Sínodo Extraordinário sobre a Pastoral da Família. O Papa Francisco designou Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, para o cargo, ele que como teólogo foi o autor da resenha introdutória rechaçada por João Paulo em Loreto, em 1985, no Congresso da Igreja Italiana que assinalou o início da era Ruini na Conferência Episcopal.

Francisco, como bispo de Roma e primaz da Itália, já incidiu na própria “governança” da Conferência Episcopal Italiana. No momento, simplesmente “prorrogou” o mandato do secretário geral, que estava para terminar, o bispo Mariano Crociata. E depois iniciou uma consulta para renovar o estatuto do organismo.

A intenção, sob a bandeira de uma maior colegialidade, é diminuir o poder da presidência da CEI a favor dos conselhos episcopais regionais – cujas presidências são todas eletivas, exceto a do Lázio, atualmente pertencente ao vigário geral de Roma “pro tempore”, o cardeal Agostino Vallini – e também reduzir o poder das oficinas centrais da CEI – cujos titulares são nomeados atualmente pela presidência e que dependem diretamente dela – a favor dos respectivos conselhos episcopais, todos eletivos.

Por último, o Papa Francisco pediu que os bispos italianos discutissem e decidissem se querem que seja o Papa quem nomeie seu presidente, como acontece atualmente, ou se, ao contrário, preferem adotar outro procedimento.

Não é a primeira vez que os bispos italianos são chamados para se manifestarem sobre o tema. Isso já aconteceu em 1983, com João Paulo II.

Nesse ano, no transcurso dos trabalhos para a aprovação do novo estatuto da CEI – que, entre outras coisas, elevou de três para cinco anos a duração do mandato – os bispos foram convidados “por disposição superior” a realizar uma “votação consultiva” sobre a nomeação do presidente e do secretário geral da Conferência, “para entregar ao Santo Padre, e remetendo a decisão ao Papa”.

Nessa ocasião, a proposta para que o presidente da CEI fosse eleito pela assembleia obteve o seguinte resultado: 185 dos eleitores, sobre um total de 226, votaram. Os “placet” foram 145, os “não placet” 36 e os votos em branco foram quatro.

Quer dizer que a maioria absoluta dos bispos manifestou-se a favor de um presidente eleito, embora não se tenha superado, faltando apenas seis votos, o quorum de dois terços requeridos para as modificações estatutárias.

Em todo caso, em 1984, João Paulo II fez saber que havia reservado para si a nomeação do presidente e do secretário geral da Conferência Episcopal, “fazendo notar como esta prática constitui um sinal suplementar de atenção e benevolência do Santo Padre para com os bispos e a CEI”.

Como os bispos votarão desta vez e qual será a decisão de Francisco é algo que ainda não se pode dizer.

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