O averroísmo como chave de leitura de Agamben

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01 Novembro 2013

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Foto: Susana Rocca

Encerrando o ciclo de debate O pensamento de Giorgio Agamben: técnicas biopolíticas de governo, soberania e exceção, o professor Rodrigo Karmy Bolton realizou, na noite de quarta-feira, 23-10-2013, a conferência A potência do pensamento: Giorgio Agamben leitor de Averroes, na sala Ignacio Ellacuría e Companheiros no IHU.

Durante mais de uma hora, Rodrigo Karmy apresentou a importância do pensamento de Averroes, que foi um filósofo de origem árabe, nascido na Andaluzia, sendo considerado um dos maiores conhecedores de Aristóteles e o responsável pela redescoberta do filósofo grego no Ocidente. Ele foi um dos comentadores que contribuíram para a recepção do pensamento do estagirita na Europa, mas seu pensamento ficou marginalizado, também, por conta das Cruzadas.

“Nome estranho tanto para os árabes quanto para os europeus, Averroes traz no núcleo a potência do pensamento, que será única e eterna a todos os humanos. Os averroístas procuravam legitimar suas religiões por meio da filosofia e soavam como um perigo ao cristianismo, por isso foram expulsos da Universidade de Paris”, explica Karmy. Para o conferencista, em uma perspectiva genealógica, a expulsão dos averroístas da Europa gerou o acontecimento que permitiu ao Ocidente formar um pensamento comum na modernidade.

Agamben diz que a filosofia moderna não começa com o pensamento clássico, senão com o averroísmo como único pensamento comum possível a todos os homens”, lembra o professor.

História e genealogia

Há uma relação forte entre averroísmo, história e genealogia. “A história fará passar subversivamente o averroísmo por outros autores. A dificuldade do averroísmo é que sua divulgação é camuflada em outros pensamentos. A história apresenta linearidade, o averroísmo apresenta as rupturas. Um ponto de fuga que não está no sistema de pensamento de alguém, senão na prática onde o autor experimenta uma desconstrução”, avalia o conferencista.

 

Potência

Rodrigo Karmy explicou que o pensamento em geral é o pensamento em potência, que pertence à astronomia, mas que é mediado pela imaginação e atualizado pelo ato. “Só podemos conhecer a potência do pensamento quando há uma forma, mas uma forma não é a potência do pensamento”, esclarece. “Aristóteles havia explicado a ideia do termo diáfano, em que, à medida que se projeta luz sobre ele, há a exibição de cores. Se não colocamos luz, nada acontece. Ver a obscuridade do diáfano é ver a potência do pensamento. A luz indica o momento em que o diáfano é ato, e a obscuridade, a potência”, exemplifica.

Nesse sentido, de acordo com o conferencista, para pensar é preciso que o humano saia de si, é um exercício fora do humano. “O pensamento não é constitutivo ao homem, mas vem de fora. O homem para pensar deve sair de si”, diz.

Reação

Para o conferencista, o averroísmo vai interrogar as instituições mais fortes, que no caso era a igreja. “A reação chega por meio de Tomás de Aquino. O Cristianismo nunca prescindiu da Filosofia. Tomás de Aquino defende a teologia frente ao tribunal, no sentido que a teologia seria um saber superior à filosofia”, aponta. “Há uma estratégia em que a Filosofia Aristotélica começa a operar para referendar a teologia católica, colocando a filosofia contra a filosofia – Aristóteles contra Averroes. Assim, se consuma um lugar de um Aristóteles verdadeiro, que confirma a Teologia, e um falso, que reforça o averroísmo”, analisa.

Pensar o comum

O professor chama a atenção para o fato de que toda reação leva consigo uma consequência, que é o sintoma de um acontecimento cuja violência só é possível de se identificar por meio das doutrinas que funcionaram com espectro de toda uma época. “A expulsão do averroísmo fez com que ele sobrevivesse como um pensamento pária. O averroísmo se manteve onde habitava a loucura, a obscuridade, a imaginação”, ressalta Karmy. “A expulsão do averroísmo privou da modernidade um pensamento em comum. O comum sempre aparece como uma ameaça ao sujeito autônomo. A modernidade será condenada a ser uma época a pensar sem imaginação e um viver sem comunidade”, complementa.

 

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Quem é Rodrigo Karmy Bolton

Rodrigo Karmy Bolton é doutor em Filosofia pela Universidade do Chile, onde leciona e é pesquisador do Centro de Estudos Árabes da Faculdade de Filosofia e Humanidades. Suas linhas de trabalho incluem a angelologia e governamentalidade no cristianismo e no islã, seguindo os trabalhos de Michel Foucault e Giorgio Agamben, entre outros. É autor de Políticas de la interrupción. Ensayos sobre Giorgio Agamben (Santiago de Chile: Editorial Escaparate, 2011), compilação de textos do filósofo italiano.

 

 Veja também:

* Auschwitz revisitada pelo olhar de Giorgio Agamben. Reportagem publicada nas Notícias do Dia, de 23-08-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

O que resta de Auschwitz e os paradoxos da biopolítica em nosso tempo. Entrevista especial com Oswaldo Giacoia Junior. Entrevista publicada nas Notícias do dia, de 21-08-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.
* Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Revista IHU On-Line, edição 371, de 29-08-2011
* O campo como paradigma biopolítico moderno. Revista IHU On-Line, edição 372, de 05-09-2011
* O estado de exceção como paradigma de governo. Revista IHU On-Line, edição 373, de 12-09-2011
* A exceção jurídica e a vida humana. Cruzamentos e rupturas entre C. Schmitt e W. Benjamin. Revista IHU On-Line, edição 374, de 26-09-2011 
* A testemunha, um acontecimento. Revista IHU On-Line, edição 375, de 03-10-2011
* A testemunha, o resto humano na dissolução pós-metafísica do sujeito. Revista IHU On-Line, edição 376, de 17-10-2011 
* A vítima da violência: testemunha do incomunicável, critério ético de justiça. Revista IHU On-Line, edição 380, de 14-11-2011
* Genealogia da biopolítica. Legitimações naturalistas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 386, de 19-03-2012
* A bios humana: paradoxos éticos e políticos da biopolítica. Revista IHU On-Line, edição 388, de 09-04-2012
* Objetivação e governo da vida humana. Rupturas arqueo-genealógicas e filosofia crítica. Revista IHU On-Line, edição 389, de 23-04-2012
* A economia e suas técnicas de governo biopolítico. Revista IHU On-Line, edição 390, de 30-04-2012
* O advento do social: leituras biopolíticas em Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-05-2012
* O trabalho e a biopolítica na perspectiva de Hannah Arendt. Revista IHU On-Line, edição 393, de 21-05-2012
* Biopolítica, estado de exceção e vida nua. Um debate. Revista IHU On-Line, edição 344, de 21-09-2010
* O (des)governo biopolítico da vida humana. Revista IHU On-Line, edição 343, de 13-09-2010

(A reportagem é de Ricardo Machado)

 

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