''Adeus às interferências entre hierarquia e política''. Entrevista com Luigi Ciotti

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07 Outubro 2013

"Eu entendo que o papa não pede que a Igreja não faça política no sentido nobre do termo. O que deve acabar, segundo Francisco, e é assim que eu entendo, são os contatos estreitos demais entre políticos e hierarquia católica. Uma independência sadia entre política e Igreja torna ambas mais verdadeiras e mais livres", afirma o padre italiano Luigi Ciotti, fundador do Grupo Abele, de ajuda aos toxicodependentes.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada no jornal La Repubblica, 02-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Padre Luigi Ciotti, no encontro com Eugenio Scalfari, o papa diz que "a corte é a lepra do papado". Parecem palavras contra o Vaticano. É isso mesmo?

É estranho, mas a dureza das palavras do papa tem um quê de leve e de salutar. E eu não acredito que essas palavras devam ser ouvidas como que dirigidas somente ao Vaticano. A denúncia, a meu ver, é seca e diz respeito àqueles que gostam de ficar perto do poderoso de turno, sem perceber que esse papel é uma responsabilidade de serviço. É a essas pessoas que o papa se refere quando fala de corte. E, acredite-me, não há apenas no Vaticano. É o coração humano que é tentado pelo poder. E muitos medíocres, dado que não conseguem alcançar o poder, contentam-se em se tornar servos e corte do poderoso de turno (até que este tenha responsabilidade). O Papa Francisco tem razão: tornar-se servos do poder para se aferrar de um pouco de poder (mesmo que marginal) significa servir ao poder e perder a lógica e a prática do serviço. Essa é a lepra. Para todos. Também para o Vaticano, quando ela se aninha no Vaticano.

O papa diz que a Igreja não deve fazer política. Nos últimos anos, não foi assim, especialmente na Itália. É um repúdio das últimas décadas?

Em parte, sim. Mas eu entendo que o papa não pede que a Igreja não faça política no sentido nobre do termo. O que deve acabar, segundo Francisco, e é assim que eu entendo, são os contatos estreitos demais entre políticos e hierarquia católica. Uma independência sadia entre política e Igreja torna ambas mais verdadeiras e mais livres. Durante muito tempo, a hierarquia interceptou não só o voto dos católicos, mas também condicionou as políticas concretas de alguns países. Eu não acredito que o papa queira levar a Igreja para o céu, e a política para a terra. Ele simplesmente pede que quem se ocupa da terra assuma as suas responsabilidades sem fazer do céu o seu escudo. Sem pedir votos e consenso com o álibi do céu.

Em sua opinião, qual é o segredo desse papa? Por que ele consegue conquistar tantas pessoas distantes da fé?

Porque ele é verdadeiro. Porque ele não diz o que pensa, mas porque primeiro pensa e depois diz. Porque nele ão tem nada de fingimento. Nem mesmo a sua humildade é fingida, acompanhada pela consciência do papel e dos deveres que devem ser cumpridos. Francisco agrada porque ele sempre olha nos olhos quando fala: mesmo que tenha à sua frente milhões de pessoas que o ouvem.

Francisco diz a Scalfari que o desemprego dos jovens e a solidão dos velhos são "o" problema da Igreja. Era preciso um papa sul-americano para ouvir palavras como essas?

Talvez. Nós somos um continente velho. Somos tentados a contrapôr os adultos aos jovens e a sacrificar estes últimos para defender os direitos e os privilégios de quem está à frente em termos de anos. No Sul do mundo não é assim. As nossas praças estão cheias de cabelos brancos. Na América Latina, praças e ruas são das crianças. O Papa Francisco está no rastro dos seus antecessores: o único modo para contrapor direitos e gerações é partir dos jovens, não esquecendo das pessoas idosas.

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