''A tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso''. Entrevista com Gustavo Gutiérrez

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18 Setembro 2013

A teologia da libertação está presente no âmbito político, para o bem ou para o mal, mas há outros fatores que influenciam. Eu acredito que ela motivou muitas pessoas, mas a tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso, dando razões e fundamentos. Também se faz teologia para mudar este mundo!

A opinião é do teólogo peruano Gustiavo Gutérrez, em entrevista a Serena Noceti, publicada no jornal L'Unità, 17-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

A eleição do Papa Francisco e o seu desejo de "uma Igreja pobre para os pobres" levou muitos observadores a falar de uma "revanche" da teologia da libertação. O que o senhor pensa disso e quais são, em sua opinião, os desafios diante do novo papa?

O papa ama os pobres porque leu o Evangelho e o compreendeu. Pode ser que ele leu sobre a teologia da libertação, mas isso é secundário. A raiz nunca está em uma teologia, mas sim nas fontes. O desafio dos pobres está há muito tempo presente no horizonte da Igreja e ela se deu conta disso, senão não se entenderia o martírio que experimentamos na América Latina, começando por bispos como Angelelli, na Argentina, Romero, em El Salvador, e Gerardi, na Guatemala, sem falar dos muitíssimos leigos. A pobreza continua sendo um grande desafio para a vida da Igreja, não só latino-americana. Ainda na Argentina, o atual papa demonstrou seu interesse pelo mundo dos pobres: e construir "uma Igreja pobre para os pobres", como ele disse que deseja, é um grande desafio.

Fala-se muito de reformas da Igreja que o papa poderia realizar. Quais o senhor pensa que seria necessárias a partir desse ponto de vista?

Ao dizer que a pobreza é um desafio muito grande para a Igreja, está implícito que há mudanças a serem feitas. Trata-se de captar melhor a realidade do mundo da pobreza e afirmar com maior força em cada país a necessidade de que as necessidades dos pobres sejam a principal preocupação política, embora sem indicar formas concretas para resolver isso. Em diversos casos, a Igreja já fez isso, mas com esse papa isso deve se fortalecer. Portanto, há muito a se fazer. E o problema da pobreza é complexo, porque não se reduz ao aspecto econômico, mas envolve, por exemplo, a diversidade cultural e a convivência entre história e etnias diversas, como acontece em muitos países do sul da América. Estou convencido de que assumir a perspectiva dos últimos, do pobre muda muitas coisas no comportamento dos cristãos. E não se pode ignorar que sempre se fala da América Latina como de um "continente católico", mas depois há essa imensa pobreza, que deve ser combatida, porque é preciso nos entendermos sobre o conceito de católico, que não se reduz a cumprir algumas obrigações religiosas, que são necessárias, mas se não forem acompanhadas pela luta pela justiça elas não têm muito sentido.

Que reformas o senhor gostaria de ver realizadas?

Aquela já anunciada da Cúria Romana, que tem consequências para a Igreja universal. Faz parte dessa reforma, por exemplo, uma orientação diferente na nomeação dos bispos.

Que elementos de continuidade o senhor vê entre Bento XVI e Francisco?

Eles têm um caráter e um estilo pessoal muito diferentes, ligados à origem, a Europa central ao invés do "fim do mundo". Por outro lado, a opção preferencial pelos pobres está tão presente no documento de Aparecida porque Bento XVI falou dela no discurso de abertura, conectando-a diretamente à fé em Cristo. Eu acredito que, se ele não tivesse dito isso, o documento teria falado menos dela. E, naturalmente, essa visão é compartilhada pelo Papa Francisco. Portanto, há uma continuidade, mesmo que o estilo seja muito diferente. Cada julgamento, no entanto, deve ser prudente, porque o papa foi eleito apenas há poucos meses.

O Frei Betto defende que hoje a teologia da libertação tem mais escuta fora da Igreja do que dentro, referindo-se ao fato de que, na última década, na América Latina, líderes que, idealmente, se remetem à "opção pelos pobres" e à Igreja da libertação chegaram ao governo. O senhor compartilha essa opinião?

Eu desconfio muito dessas identificações. Certamente, Correa é um homem de formação cristã, tendo estudado em Louvain com François Houtart: ao mesmo tempo, porém, é um economista com as suas ideias. Funes frequentemente cita Oscar Romero, que também é uma figura de referência para todo o país. Mas são casos individuais. Eu acredito que os políticos têm todo o direito de usar essas referências, porque isso significa que, para eles, significam algo, e isso me alegra. Mas eu não acho que se possa dizer que, nesses países, há presidentes ligados à teologia da libertação, porque eles fazem política em seu próprio direito – e eu acho que se trata da política necessária para mudar um país –, mas uma teologia não pode ser uma referência ideológica. Uma anedota: há muitos anos, eu recebi um telefonema de um jornalista de Barcelona que me pedia uma opinião sobre a revolução sandinista, definindo-a de "uma revolução feita por pessoas ligadas à teologia da libertação". Eu lhe respondi que eu pensava que havia fatores muito mais importantes da teologia da libertação na raiz dessa revolução, acima de tudo a ditadura dos Somoza.

Não devemos perder o senso de proporção e a capacidade de analisar os muitos fatores sociais. No entanto, eu não tenho dúvidas ou, melhor, me alegro pelo fato de que a posição da Igreja latino-americana nos últimos 40 anos influenciou muito a sociedade: e falo da Igreja, porque as ideias que são atribuídas à teologia da libertação também estão presentes nos documentos das conferências gerais do episcopado latino-americano. E, por outro lado, muita repressão dos governos foi motivada pela luta contra a teologia da libertação! Na conferência dos exércitos americanos de 1987, defendia-se que a teologia da libertação era contrária à "civilização ocidental cristã". Portanto, a teologia da libertação está presente no âmbito político, para o bem ou para o mal, mas há outros fatores que influenciam. Eu acredito que ela motivou muitas pessoas, mas a tarefa da Igreja é mudar as consciências, e a teologia contribui para isso, dando razões e fundamentos. Também se faz teologia para mudar este mundo!

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