O cardeal Martini e a audácia da fé. Artigo de Bruno Forte

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17 Agosto 2013

Em uma sociedade que muitas vezes persegue a máscara e a persuasão, a força da verdade muito frequentemente parece ser incômoda. Sobre ela, sobre a sua carga libertadora, Carlo Maria Martini jogou a sua vida.

A opinião é do teólogo italiano Bruno Forte, arcebispo de Chieti-Vasto, na Itália. O artigo foi publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 11-08-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Um ano atrás, no agosto ensolarado do verão europeu, Carlo Maria Martini estava vivendo os últimos dias da sua vida entre nós. Até o fim ele tinha combatido aquele mal que tinha lhe tirado progressivamente as forças físicas e até mesmo a palavra. Só o espírito permanecia indômito, sustentado pela sua fé profunda, abandonada à vontade de Deus, e pela vontade tenaz de não se render ao avanço da enfermidade.

Um esplêndido livro-testemunho, que será lançado no fim do mês, vai levantar o véu sobre os últimos e muito intensos anos do grande Arcebispo de Milão, biblista de fama mundial e testemunha apaixonada de Jesus em contínuo diálogo com as mulheres e os homens do nosso tempo.

Quem o escreveu, com discrição e afeto filial, foi o padre Damiano Modena, o jovem sacerdote do qual, anos atrás, eu dirigi a tese justamente sobre o pensamento do Cardeal (Carlo Maria Martini, custode del Mistero nel cuore della storia [CMM, guardião do Mistério no coração da história], Ed. Paoline, 2005) e que depois tinha aceitado "acompanhá-lo até a morte", vivendo esse empenho com dedicação total.

Outras vozes renomadas certamente se farão ouvir para o próximo dia 31 de agosto, primeiro aniversário da sua morte.

De minha parte, tendo podido gozar do dom da amizade do Cardeal por mais de 30 anos, a recordação responde a uma exigência da alma, àquela necessidade profunda de fazer memória, que acende pensamentos de luz e dá sementes de esperança. Se eu me decido a fazer parte junto com outros de qualquer um desses pensamentos, é porque estou certo de que todos ainda podem aprender com Martini, homens e mulheres da Igreja, assim como leigos de posições mais ou menos distantes dela.

Eu reúno alguns impulsos de reflexão partindo da recordação do meu último encontro com ele, naquele 30 de agosto de 2012, véspera da sua morte.

Foi o padre Damiano que me avisou com um telefonema: "Se você quiser saudar o Cardeal pela última vez, venha o mais rápido possível". Cheguei no fim da manhã. Há pouco tempo tinham celebrado a Eucaristia, e Martini – puxando a respiração com um esforço notável – ainda havia conseguido dizer as palavras conclusivas da liturgia, celebrada da sua poltrona de enfermo: "A missa acabou, ide em paz". Foram as últimas que saíram da sua boca, quase selando uma vida que tinha sido toda "eucaristia", ação de graças ao Deus vivo, amado acima de tudo. Depois, sedaram-no para dar um pouco de repouso para a tosse incessante que o sacudia.

Quando eu cheguei, ele parecia adormecido. Eu decidi ler-lhe, assim mesmo, a carta que eu tinha lhe escrito. As frases fluíam como tinham saído do meu coração, naquela que queria ser uma memória de ação de graças a Deus e a ele, e de esperança compartilhada.

Terminada a leitura, peguei a sua mão e comecei a rezar o Pai Nosso, a oração que nos foi ensinada por Cristo, aquela sobre a qual ele tinha escrito reflexões profundas e muito bonitas, a nossa oração de cristãos. Eu olhava para o seu rosto com comoção: assim que comecei a rezar, os seus lábios se moveram em sincronia com os meus. Ele estava me acompanhando, rezava comigo.

O padre Damiano, depois, me diria que aquele foi o último Pai Nosso da sua vida: dom de incomparável grandeza para mim foi o fato de ter rezado com ele. Naquela simples partilha, eu via a síntese da sua existência inteira. Acima de tudo, a sua incessante oração: antes de propô-la aos outros, Martini tinha vivido e experimentado por muito tempo a dimensão contemplativa da vida, abrindo constantemente o seu coração a Deus e, ao fazê-lo, experimentando o fato de nunca estar sozinho.

A oração não é tanto uma forma nossa de amar a Deus, mas sim um deixar-nos amar por Ele. Rezar é estar no limiar do infinito e deixar-se tocar pelo milagre que a ternura divina sabe realizar para quem a invoque com desejo, espírito e coração. Martini vivia constantemente nesse limiar, totalmente confiado à misteriosa Presença.

Antes dessa última oração, o seu rosto tinha me parecido como um ícone do silêncio e da escuta. O que talvez mais impressionava nele era a capacidade de ouvir: ele nunca se impunha ao outro, preferindo, ao contrário, deixar interrompida uma frase sua assim que se dava conta de que o interlocutor pretendia dizer alguma coisa. Raramente encontrei outros que soubessem ouvir como ele, que soubessem se fazer ouvidores do outro em tão profunda atenção e humildade. E essa atitude de escuta – longamente exercida com relação à Palavra de Deus, verdadeira "causa" da sua vida – também não significava renúncia a fazer a sua contribuição, a servir com fidelidade e sinceridade absolutas à Verdade que a todos transcende.

Martini ouvia as razões do outro, as levava a sério, para entender melhor com ele a luz que habitava o seu coração, para dizer Deus com todo o amor possível ao coração do outro, para compartilhar generosamente o dom, nunca impondo nada com atos de força, que, além disso, teriam sido fáceis para a evidente superioridade de inteligência e de cultura que se percebia nele. O Cardeal amava a verdade infinitamente mais do que a si mesmo.

Este é o último motivo que eu gostaria de referir: a sua relação com a Verdade. Não era para ele algo para se possuir. Era Alguém pelo qual se devia se deixar possuir. Era o Jesus dos Evangelhos, o Cristo anunciado pela Igreja através dos séculos, o Senhor que tinha oferecido tudo de si. Como lema episcopal, tinha escolhido uma frase tirada da Regula Pastoralis de São Gregório Magno, que é um claro programa de vida: "Pro veritate adversa diligere et prospera formidando declinare" – "Pela Verdade, amar as adversidades e guardar-se do sucesso com temor" (I, III). São palavras que iluminam o seu estilo, feito de audácia e de timidez, de força e de humildade, inseparavelmente. Pronto para pagar pessoalmente por amor à verdade, era capaz de conjugar o sacrifício de si com o maior respeito pelas posições alheias. Ele sabia que a verdade não estava em aparecer, mas sim em ser. Por isso, Martini não se preocupava com as aparências, mas sempre e somente com o juízo de Deus.

Em uma sociedade que muitas vezes persegue a máscara e a persuasão, a força da verdade muito frequentemente parece ser incômoda. Sobre ela, sobre a sua carga libertadora, Carlo Maria Martini jogou a sua vida. E a última imagem dele no seu leito de morte, totalmente abandonado em Deus, na nua verdade do seu ser humano mortal, permanece em mim como prova de que o que aparece aos olhos do mundo inexoravelmente passa, mas o que importa diante dos olhos do Eterno permanece e continua alimentando a vida.

Por isso, continuaremos precisando de Martini e por longo tempo poderemos nos alimentar com o seu testemunho de contemplativo de Deus, de homem da escuta da Palavra e dos outros, de servo humilde e fiel da Verdade, mesmo ao preço mais alto. E é por isso que eu quis falar dele, com a discrição e o pudor oportunos diante do abismo, desejando, assim, também convidar aqueles que quiserem me ler a valorizar este tempo de férias [de verão, na Itália] a tomar ou a retomar nas mãos algum dos escritos do Cardeal, quase para ouvir novamente a sua voz, para saborear o seu testemunho de luz, reflexo da beleza que salvará o mundo.

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