Paolo Dall´Oglio: o monge cristão enamorado do Islã

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31 Julho 2013

Quem é Paolo Dall'Oglio, fundador do Mosteiro de Mar Mussa, na Síria? Faustino Teixeira, professor e pesquisador do PPCIR-UFJF, estuda e conhece a trajetória do jesuíta italiano e que é notícia nestes dias na imprensa internacional.

Eis o artigo.

O padre jesuíta, Paolo Dall´Oglio, nascido em 1954, fundou em 1991 no deserto de Mar Mussa (Síria), uma importante comunidade monástica autônoma e mista, dedicada à vida espiritual e ao diálogo interreligioso. Palavras chave presentes nesta comunidade foram sempre a acolhida e a hospitalidade. Seguindo com radicalidade um traço da tradição mística sufi presente em Damasco, Paolo buscou traduzir o que há de mais singelo na espiritualidade do cotidiano, vivenciado pelos santos muçulmanos desconhecidos. Os assim chamados abdâl, aqueles “amigos de Deus”, escolhidos para sanar as feridas do mundo mediante o dom de si. Como cerne de sua vocação monástica, a dedicação a dois amores: Jesus Cristo e os muçulmanos.

Para essa aventura espiritual escolheu um lugar muito especial, um velho mosteiro que estava em ruínas e que foi descoberto casualmente num guia de turismo, em 1938. Tratava-se do Mosteiro de Mar Mussa (Mar Mussa el-Habbashi). Com muito empenho e tenacidade restaura o mosteiro, com ajudas diversificadas, e ali busca realizar o seu sonho de uma comunidade monástica interreligiosa. Na bela e áspera paisagem da região tudo converge para uma experiência inédita: o deserto, o silêncio a beleza e a hospitalidade. Para Paolo, a oração interreligiosa tinha um lugar de destaque, envolvendo diversos níveis: das intercessões comuns, da oração litúrgica cristã ou muçulmana, mas também da acolhida singela do Espírito, que com sua presença inusitada anima o encontro de irmãos e anuncia uma harmonia futura.

Marco Lucchesi, em sua notas de viagem (Os olhos do deserto – 2000), relata o encontro que teve com Paolo dall´Oglio – “padre do deserto” – em sua viagem a Síria. Sinaliza que o projeto do amigo estava todo voltado para os ideais de Massignon, Gandhi e Charles de Foucauld. No cerne, a dádiva da hospitalidade. E uma linda proposta de nova ordem religiosa, voltada para o encontro do rosto de Cristo no Islã. Como sublinha Lucchesi, todos os hóspedes são ali recebidos como “embaixadores de Deus”. Os novos monges encontram-se em casa nesse exercício de amor ao outro: sentem-se orientais por vocação e árabes por seu amor aos muçulmanos. Não visam “assimilações recíprocas” ou “equívocas misturas”, mas um “horizonte partilhado”, um sonho comum em favor de uma nova síntese que propicie um “pluralismo na comunhão”. A abertura ao outro, no caso ao muçulmano, não se dá em razão de uma dúvida a respeito da fé em Jesus Cristo, mas “em virtude da tranquilidade” que anima essa fé cristã.

Essa linda experiência comunitária e mística foi interrompida com a expulsão de Paolo Dall´Oglio da Síria, ocorrida em 2012. Em entrevista publicada nas Noticias do Dia do Instituto Humanitas Unsinos - IHU (janeiro de 2012), Paolo relatava as dificuldades que a comunidade de Mar Mussa vinha enfrentando nos últimos tempos, que coincidiam com os anos de trabalho cultural, partilhado pelos monges, em favor da cidadania, do amadurecimento democrático e do diálogo interreligioso.

As represálias ao trabalho comunitário ganharam sinalização com a supressão do parque natural do mosteiro, em 2010, e a suspensão de todas as atividades promovidas pela comunidade, incluindo os congressos de diálogo interreligioso. Em março de 2011 veio o bloqueio de autorização de permanência de Paolo na Síria, e em novembro do mesmo ano a ameaça de sua expulsão.

Conseguiu permanecer na região, mas com a condição de baixar o perfil de sua atuação política, evitando declarações públicas contra o regime. Ainda que mais cuidadoso, Paolo não interrompeu suas atividades em favor da paz e o traço profético de suas denúncias. Em 23 de maio de 2012 lança uma carta aberta a Kofi Annan, então enviado da ONU na Síria, e isso só aquece a polêmica. Com a intervenção do núncio apostólico da Síria, que previa sérias retaliações em razão da mencionada carta, o jesuíta deixa o país.

Já no exterior, Paolo lançou-se a um trabalho incansável em favor de uma intervenção não violenta de pacificação, com inúmeras propostas em favor da resolução do conflito, como a criação de um corpo de “acompanhadores” não violentos de várias partes do mundo, enquanto “expoentes da sociedade civil planetária”, visando o “amadurecimento democrático da Síria”. Tais iniciativas não vingaram, para a sua grande tristeza e revolta, também em razão da polarização e militarização do conflito na região. Diante desta situação, os cristãos na Síria encontram-se divididos: um importante número se inclina pelo governo, mas há também os que se engajam nos movimentos de oposição. O cenário é de guerra civil, com o agravante do fenômeno dos sequestros.

Uma das últimas notícias registradas pelas Noticias do Dia do Instituto Humanitas Unsinos - IHU no Brasil sobre o monge jesuíta, foi a proposta feita por ele de um dia de jejum e de oração para a reconciliação e a justiça na Síria, previsto para a data de 3 de agosto de 2013, ainda no mês de Ramadã. O objetivo proposta era o de chamar a atenção de todos para o “massacre perpetrado por um regime criminoso sob os olhos de nossas sociedades civis”, mas também para o desastroso “jogo de equilíbrios geopolíticos internacionais”. Seria também um grito em favor da paz no Islã, de defesa dos refugiados sírios e da reconciliação entre sunitas e xiitas. Tudo isso visto como um passo essencial para a paz mundial das religiões e igrejas.

E hoje, dia 30/07/2013, em diversos periódicos italianos, sai a publicação da notícia sobre o sequestro do padre jesuíta Paolo Dall´Oglio. Os últimos contatos estabelecidos com ele foram através de e-mails, em 26 de julho, quando estava em Raqqa, cidade da síria controlada pelos rebeldes. Depois disso “algo” ocorreu com ele. Fala-se em sequestro, mas não se pode ainda assegurar isso com toda a certeza. O “monge jesuíta” tinha retornado à Síria, em fevereiro de 2013, depois de ter sido expulso do país em junho de 2012 pelas autoridades do regime de Damasco, quando então tinha se manifestado a favor do plano de paz do então enviado especial da ONU para a Síria, Kofi Annan. Seu retorno ao país onde viveu por 30 anos foi motivado por uma “peregrinação da dor e do testemunho”, mas também de solidariedade a um povo submetido por incessantes bombardeamentos. O possível sequestro teria sido realizado por um grupo de milicianos  nomeado  “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”, que envolveria militantes da Al Qaida do Iraque a outros jihadistas da fronte al Nusra.

Paolo Dall´Oglio, que já tinha publicado recentemente os livros Amoureux de l´Islam, crouyant en Jésus (2009)  e La sete di Ismaele  (2011), estava preparando a tradução italiano de sua última obra, também publicada na França, sobre a sua atuação na revolução síria: La collera e la luce. Un prete cattolico nella rivoluzione siriana (Editrice Missionaria Italiana).

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