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30 Julho 2013

"Antonio Guterres, alto comissário da ONU para refugiados, diz que o deslocamento de pessoas não crescia "a uma velocidade tão assustadora" desde o genocídio em Ruanda, em 1994. O tamanho absoluto da catástrofe humanitária ainda não se compara ao da maior dos tempos recentes, as enchentes de 2010 no Paquistão, mas a Síria está trabalhando duro para chegar lá.

Além disso, seus efeitos secundários políticos são potencialmente bem maiores do que os de qualquer tsunami, seca ou terremoto. A guerra civil na Síria reabriu a velha ferida sunita-xiita por toda a região. Irã, Hezbollah e xiitas iraquianos apoiam as forças do presidente Bashar Assad contra inimigos sunitas internos e externos", escreve Garton Ash Timothy, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 27-07-2013.

Eis o artigo.

Cerca de 18 milhões de crianças, mulheres e homens abandonaram seus lares em consequência da guerra civil síria nos dois últimos anos. Cerca de 280 mil pessoas foram mortas. Esta, proporcionalmente traduzida, é a escala da tragédia síria. E não há um fim à vista.

Uma edição recente do jornal The Guardian documenta histórias individuais desse desastre. Elas são mais comoventes do que qualquer estatística. No entanto, os números também são eloquentes. Cerca de 6 mil pessoas deixam a Síria todos os dias, pressionando os recursos humanitários internacionais e desestabilizando os países vizinhos. Os refugiados sírios já constituem 10% da população da Jordânia. É como se toda a Bulgária se mudasse para a Grã-Bretanha.

Antonio Guterres, alto comissário da ONU para refugiados, diz que o deslocamento de pessoas não crescia "a uma velocidade tão assustadora" desde o genocídio em Ruanda, em 1994. O tamanho absoluto da catástrofe humanitária ainda não se compara ao da maior dos tempos recentes, as enchentes de 2010 no Paquistão, mas a Síria está trabalhando duro para chegar lá.

Além disso, seus efeitos secundários políticos são potencialmente bem maiores do que os de qualquer tsunami, seca ou terremoto. A guerra civil na Síria reabriu a velha ferida sunita-xiita por toda a região. Irã, Hezbollah e xiitas iraquianos apoiam as forças do presidente Bashar Assad contra inimigos sunitas internos e externos.

O sangue escoa mais livremente que água pelas arbitrárias fronteiras pós-coloniais da região. Além dos Estados patronos islâmicos, que incluem a Arábia Saudita e a Turquia, do lado sunita, temos a Rússia armando as forças de Assad contra rebeldes que estão sendo apoiados pelos EUA - quase como se estivéssemos de volta à Guerra Fria.

A Síria também se encaixa num quadro maior, com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) registrando mais de 45 milhões de deslocados no mundo em 2012. A taxa corrente de deslocamento é de aproximadamente uma pessoa a cada 4 segundos. Deem mais um ou dois anos ao Oriente Médio, em geral, e o mundo terá uma Grã-Bretanha inteira de desenraizados (a população britânica beira os 56 milhões).

"Alguma coisa precisa ser feita", dizemos enquanto fazemos as malas para as férias. Mas fazer o quê? Faça a intervenção militar decisiva, em massa, que derrotaria Assad, e terá outro Iraque. Não intervenha e aceite outra Bósnia. O histórico de intervenções militares nessa região é desastroso. Entretanto, a noção de que não intervir, militarmente ou de alguma outra forma, é sempre a opção mais moral, simplesmente não resiste a uma análise honesta.

A Síria exige que pensemos uma vez mais na relação entre política e ação humanitária. No início do mês, um ex-chanceler britânico, David Miliband, refletiu sobre isso em seu último discurso público importante antes de deixar a chancelaria para começar uma carreira como líder de uma organização humanitária - o International Rescue Committee -, em Nova York.

De um lado, a moralidade do que ele fará como humanitário é muito mais simples do que a do que fez como político - ou ainda poderia estar fazendo. Mobilizar tendas para abrigar pessoas com carências extremas é melhor do que mobilizar meias verdades para ganhar votos. Nesse sentido, Miliband poderia exclamar: "É muito melhor fazer as coisas que faço do que tudo que já fiz". Por outro lado, também poderia ser uma coisa bem menos eficaz do que aquelas que seu irmão Ed ainda poderá fazer como primeiro-ministro britânico.

Isso porque é da natureza da ajuda humanitária em desastres causados pelo homem tratar os sintomas e não as causas. Se os políticos enfrentassem as causas do desastre da Síria, isso seria mais valioso do que tudo o que todas as organizações humanitárias do mundo poderiam fazer. Se EUA, Europa e Rússia realmente se unissem e dissessem "vamos reduzir a intensidade desse conflito interrompendo todos os fornecimentos de armas sobre os quais temos alguma influência", seguido de uma negociação envolvendo todas as partes internas e potências externas relevantes, incluindo o Irã governado por seu novo presidente, eles poderiam chegar em algum lugar. No entanto, isso não está ocorrendo, nem é provável que ocorra no futuro.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, descreveu recentemente a situação no interior da Síria como um "impasse", com a posição militar de Assad um pouco mais fortalecida e um crescente extremismo sectário no lado da oposição.

Pressionado sobre uma zona de exclusão aérea por refugiados sírios irados no campo de Zaatari, um acampamento de tendas tão densamente habitado que o chamam de quarta maior cidade da Jordânia, o secretário de Estado americano, John Kerry, lhes explicou que "há muitas opções diferentes em estudo". Leia-se que Washington não vê nenhuma boa alternativa.

Isso não é desculpa para abandonar a política. No entanto, já que ela está bloqueada, a ajuda humanitária torna-se ainda mais vital. Até que os médicos cuidem finalmente das causas da doença, temos de continuar mudando os curativos, aliviando a dor e alimentando o paciente.

Contudo, isso não está ocorrendo numa escala suficiente. Os governos só repassaram um terço das metas da ONU de financiamento da ajuda humanitária à Síria. Isso aumenta a pressão sobre as ONGs e, no entanto, a Oxfam diz que as pessoas, até agora, doaram apenas um terço da meta de 30 milhões de libras (R$ 103 milhões) para a Síria.

Aos quatro meses de uma campanha de seis para a Síria, o Disasters Emergency Committee, com base na Grã-Bretanha, uma coalizão de organizações humanitárias, só conseguiu levantar 17 milhões de libras (R$ 58,5 milhões). Em comparação, sua campanha de seis meses para vítimas do tsunami asiático levantou 392 milhões de libras (R$ 1,35 bilhão) e a campanha após o terremoto do Haiti, 107 milhões de libras (R$ 368 milhões).

Ao que parece, desastres naturais visualmente chocantes, onde pessoas são vistas como vítimas inocentes do que as seguradoras chamam de "atos de Deus", nos fazem doar bem mais generosamente do que conflitos políticos. A campanha do Disasters Emergency Committee para Gaza, em 2009, levantou pouco mais de 8 milhões de libras (R$ 27,5 milhões) e a para a República Democrática do Congo, 10,5 milhões de libras (R$ 36 milhões).

Isso pode ser compreensível, mas não é racional. Por que pessoas inocentes que sofrem em decorrência de "atos de Deus" devem ser consideradas em pior situação do que pessoas inocentes que sofrem em decorrência de seus compatriotas lutarem uns contra outros em nome de Deus?

Como colunista de assuntos internacionais, canso de dizer a governos que eles precisam fazer alguma coisa, sabendo perfeitamente que em 90% das vezes eles não o farão. Agora, tenho uma conclusão mais simples. Antes de sairmos de férias, deveríamos fazer uma doação para a ajuda humanitária à Síria. É o que farei depois de clicar no comando "enviar" desta coluna.

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