PT tem dificuldade de lidar com movimento

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17 Junho 2013

Partido que se originou de lutas e movimentos sociais na virada dos anos 1970 para 1980, o PT está encontrando dificuldades para lidar com as manifestações que se espalharam pelas capitais e desafia o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Um dirigente nacional da legenda afirma que os métodos dos manifestantes que reivindicam a redução da tarifa de transporte público contrastam com a tradição do PT. O partido estaria "perplexo" porque "não está entendendo para onde eles querem ir". A queixa refere-se à suposta intransigência e falta de disposição para negociar, um estilo que difere de movimentos sociais tradicionais, que estão na origem do PT, especialmente o sindical.

A reportagem é de Cristian Klein e publicada pelo jornal Valor, 17-06-2013.

Segundo este interlocutor, a tradição do PT sempre foi de movimentos que fazem reivindicação com o objetivo de acumular força para sentar à mesa e negociar em condição mais vantajosa.

Em São Paulo, tendo à frente o Movimento Passe Livre, os manifestantes se recusam a negociar, enquanto a tarifa não sair dos R$ 3,20 e voltar aos R$ 3 anteriores. Ou Fernando Haddad recua, ou novos protestos vão parar a cidade, como o programado para hoje.

O dirigente petista diz que, nesta situação, o impasse continuará pois Haddad também não deverá ceder, já que estaria cumprindo suas promessas da campanha eleitoral: reajustar a tarifa abaixo da inflação, ampliar a rede de corredores de ônibus e implantar o bilhete único mensal, previsto para novembro.

A avaliação é a de que o movimento é legítimo já que, "se há Bolsa Família e moradia popular", o governo poderia também conceder benefícios no setor de transporte. Há um entendimento de que a causa é justa pois os mesmos jovens que passaram a ter "emprego, salário, crédito e um smartphone" levam duas horas no "busão" para chegar em casa, ao trabalho ou à faculdade. O protesto é interpretado não como uma "revolta dos 20 centavos", mas por melhores condições de mobilidade urbana.

O problema, no entanto, é que os organizadores perderam o controle das manifestações que passaram a atrair até skinheads e neonazistas. A grande preocupação do PT é estancar a violência, já que os rumos da manifestação ultrapassaram o campo da luta política e viraram um problema de ordem pública.

Outro componente apontado como origem dos distúrbios é um mal-estar da juventude, sobretudo a de classe média. Estudantes de estratos mais populares engrossariam o movimento, mas o "núcleo duro" viria da pequena burguesia. Seria o caso dos participantes do Movimento Passe Livre.

Haveria uma "rebeldia represada" dos filhos da geração que lutou, por exemplo, contra a ditadura militar até as privatizações nos anos 1990. A chegada do PT ao poder federal, em 2003, período marcado por conquistas sociais, teria impedido a vazão de um inconformismo natural dos jovens.

Explicação paralela é a falta de controle das ruas pelo PT. O partido, uma vez no governo, teria cooptado ou deixado em segundo plano os movimentos sociais.

O secretário nacional de Movimentos Populares da legenda, o ex-deputado estadual de São Paulo Renato Simões, nega. "O PT nunca deixou de ter relações com os movimentos sociais. Elas mudaram de qualidade", afirma. Ele lembra que a Juventude do PT tem participado das manifestações do MPL em vários Estados, mas adota tom diferente ao de outros partidos ali também presentes, como PSOL, PSTU e PCO, que fazem oposição à esquerda do governo federal.

Simões diz que a bandeira do passe livre é histórica no movimento estudantil e tem irrupções cíclicas, como em Florianópolis, em 2004. O que é novo, diz, é a sua força e o fato de não ser mais controlada por partidos, nem por entidades formais do movimento estudantil, como Ubes ou UNE.

"Em algum momento vai se criar a direção e sua identidade. Hoje há uma multiplicidade de atores, como os partidos, os anarcopunks, o movimento estudantil de base, e jovens de classe baixa e média que estão ali pela primeira vez. Não é um protesto anti-PT ou anti-Alckmin, é algo novo, de vigor bastante grande", afirma.

Simões aponta três características principais do movimento: ter várias expressões políticas, ser fortemente horizontalizado, sem líderes claros, e se mobilizar por meios alternativos, como a internet.

Em nota divulgada na sexta-feira, o diretório municipal do partido repudia "a ação truculenta e sem diálogo da Polícia Militar". Pede "a negociação de uma pauta de melhoria do transporte público e de tarifas menos impactantes aos usuários do sistema", exige o "desarmamento de espíritos" e a "busca do diálogo". E defende Haddad ao afirmar a disposição do prefeito em dialogar.