Dividocracia. Quando as saídas são falsas, mas as consequências reais

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Por: Jonas | 17 Junho 2013

Neoliberalismo, concentração de renda, privatização, desemprego, medidas de austeridade, endividamento público, corrupção, degradação ambiental, entre outros, foram temáticas presentes durante todo o ciclo “A crise do capitalismo no cinema”, uma série de quatro exibições - A doutrina do choque, Margin Call - O dia antes do fim, Inside Job - Trabalho interno e “Debtocracy” - que apresentou elementos nodais a respeito das razões e consequências da crise econômica mundial, intensificada em setembro de 2008, fruto de uma perversa liberalização financeira.

Resultado de uma exitosa parceria entre o Cepat/CJ-Cias, Pastoral e Curso de Ciências Econômicas da PUC-PR, e com o apoio do nosso efetivo parceiro Instituto Humanitas Unisinos (IHU), o ciclo de cinema foi encerrado neste último sábado, 15 de junho, com a exibição do documentário “Debtocracy”, contando com os enriquecedores comentários da economista e professora Liana Maria da Frota Carleial (UFPR) (foto), que atualmente é presidente do Instituto Municipal de Administração Pública (IMAP) de Curitiba.

 
Fonte: http://goo.gl/H8cq0  

Dirigido pelos jornalistas gregos Katerina Kitidi e Aris Chatzistefanou, “Debtocracy” (2011) tem como tema central a dívida, em especial a dívida grega, ressaltando a condição de submissão do governo grego frente à mesma, algo que foi bastante notabilizado em 2010, fazendo com que o país se encerrasse muito mais numa espécie de “dividocracia”, do que numa democracia.

A professora Carleial enfatizou que a crise econômica deste início do século XXI é apenas a ponta do iceberg. Em grande medida, ela é resultado da acumulação em escala financeira e das mudanças no modo de regulação do capital, proveniente dos anos 1970.

Ao destacar o crescente endividamento da Grécia e da Europa, Carleial evidenciou a ineficiência das medidas de austeridade, dada pela efetiva redução dos gastos do governo. Embora muitos economistas defendam que a austeridade “aumenta a confiança do setor privado, o que compensa a redução dos gastos”, é preciso lembrar-se da advertência de Keynes, que afirmava que a “retração de gastos, numa economia em crise, gera mais crise”.

Ao adotar da forma mais selvagem as medidas de austeridade, a Grécia tornou-se um laboratório de políticas que não funcionam, com todos os problemas provenientes disto, principalmente, somando taxas absurdas de desemprego. Como bem salientou a professora Carleial, a Grécia cortou gastos e aumentou impostos, especialmente para os mais pobres, num montante aproximado de 15% do PIB. Como era de se esperar, as medidas de austeridade só aumentaram a recessão e a crise, alastrando-se em Portugal, Irlanda, Espanha e Itália.

Na própria formação da União Europeia, supunha-se que a Europa fosse mais homogênea, o que não é verdade. A integração econômica dos vários países europeus demonstrou as assimetrias das diferentes economias. Neste contexto, a professora Carleial mencionou que a causa do endividamento dos países não é o euro, mas, sim, as diferenças presentes em suas estruturas produtivas. É preciso estar atento para observar qual é a estrutura produtiva de cada país europeu.

Com toda esta história da crise econômica, perdem os trabalhadores, quando não seus empregos, seus direitos e garantias, e ganha o capital, com os lucros que crescem, com as ações retornando aos seus níveis anteriores e com a concentração de renda.

Diante de tal prognóstico, a professora Carleial salientou que está em curso, com as mais diversas manifestações, uma demanda por uma nova democracia. A democracia representativa está vivendo uma crise e as pessoas estão exigindo uma democracia mais ampla. O que a professora Carleial classificou como uma “democracia centrada na participação e co-responsabilização”.

Dentre as soluções do impasse gerado por essa crise financeira, Carleial destacou as lutas nacionais e supranacionais, a tentativa de controle do movimento de capitais no mundo, que nunca se destravou efetivamente, e as alternativas de governos de esquerda. Além disso, a auditoria da dívida, que o próprio documentário apresenta como uma possível saída para a Grécia, ao apresentar o caso da auditoria feita pelo governo do Equador, Rafael Correa, como um exemplo.Durante o debate com os participantes, a professora Carleial disse não acreditar que há um desmantelamento do Estado de bem-estar social na Europa, mas, sim, uma fragilização, pois, este tem uma forte consolidação na história desse continente. Foi no contrato de trabalho que os europeus mais sentiram os efeitos da crise, pois se rompeu com a estabilidade de outrora.

Aproveitando as indagações e contribuições vindas dos participantes, Carleial fez alguns comentários a respeito do atual cenário brasileiro, tais como a descoberta do próprio mercado interno brasileiro e a redução de juros. Em sua opinião, diferente do que se propaga por aí, a meta de inflação nunca esteve tão baixa no Brasil. Em seguida, disse que a libertação do país se daria com a redução da taxa de juros.

No final do evento, além de entregarem uma avaliação por escrito, alguns dos participantes também comentaram sobre o ciclo de cinema. Em geral, destacaram a experiência enriquecedora dos filmes e debates, como um espaço de reflexão sobre a atual conjuntura. Embora as análises do capitalismo, como um sistema, sejam sempre pessimistas, o olhar para o amanhã é de esperança. Dias melhores também dependerão de homens e mulheres melhores. E a esperança está em depoimentos como o de um jovem estudante de economia, ao frisar que os encontros “nos fizeram refletir sobre o tipo de economista que queremos ser”, ou melhor, poderia ser acrescentado, sobre o tipo de ser humano e de sociedade que desejamos ser.

O texto é de Jonas Jorge da Silva e as fotos do público de Ana Paula Abranoski, ambos da equipe do Cepat/CJ-Cias.