A revolução do papa é pastoral, não teológica. Artigo de Domenico Rosati

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29 Maio 2013

A Igreja é crível se há coerência entre o que ela diz e o que ela faz. Para aqueles que estão acostumados – há gerações, para não dizer ab aeterno – às fórmulas jurídico-teológicas que permeiam grande parte do magistério, um papa que fala de Evangelho pode até ser um problema.

A opinião é do sindicalista e senador italiano Domenico Rosati, ex-presidente das Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos (ACLI), em artigo publicado no jornal L'Unità, 27-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Do encontro, o primeiro, do Papa Francisco com os bispos italianos, as notícias assinalaram a ocorrida "restituição" à Conferência Episcopal Italiana (CEI) daquele papel de sujeito político que, ao menos em parte, lhe havia sido subtraído pela Secretaria de Estado no momento da substituição Ruini-Bagnasco.

O fato é, sem dúvida, notável para os fins da definição dos equilíbrios e das relações no novo pontificado, até mesmo porque o papa mostra não querer se deixar envolver em primeira pessoa nos intrincados fatos da realidade italiana. É uma atitude que derrama sobre o corpo representativo dos bispos o ônus de desenvolver uma reflexão aprofundada sobre as orientações e as opções do último período, caracterizado pelo investimento sobre o empreendimento-Monti, com os resultados culturais e eleitorais que todos conhecem.

Talvez isso se deu porque certas "competências" ainda não haviam sido atribuídas, mas não pode ser ignorada a circunstância de que, mesmo no denso discurso inaugural do cardeal presidente à Assembleia no dia 20 de maio, nem mesmo uma referência de análise foi esboçada sobre o que os bispos esperavam dos católicos – "ventre do futuro", dissera ele – e sobre o que, realisticamente, deveria ser registrado à luz do resultado da votação, e não só.

Mas, se o desenvolvimento do tema político deve ser necessariamente adiado para outra ocasião (e, espera-se, com uma abordagem de pensamento que leve em conta todos os fatores em jogo), o discurso que o bispo de Roma dirigiu aos seus colegas de toda a Itália se apresenta como um sinal de grande relevo tanto para o significado eclesial, quanto para as implicações práticas que ele também implica, se olharmos bem, nas suas repercussões sociais.

O cerne da mensagem é o "ofício do pastor", no sentido evangélico do termo. Podem-se obter duas impressões. A primeira é a de uma exortação geral, fora de tempo e lugar; a outra é a de uma advertência pontual às condições em que os pastores operam aqui na Itália. Os quais, nessa segunda versão que parece ser a mais apropriada, sentiram-se chamados à obrigação de "vigiar" não só sobre as comunidades que lhes são confiadas, mas também sobre si mesmos, para não se tornarem "um funcionário, um clérigo de Estado preocupado mais consigo mesmo, com a organização das estruturas, do que com o verdadeiro bem do povo de Deus".

É esse é o conceito que o papa que veio "do fim do mundo" teve do ar de Roma e arredores? E que efeito produz uma palavra tão direta naqueles que receberam a responsabilidade de "caminhar à frente do rebanho", com "sã celeridade apostólica" e, portanto, de desempenhar uma função de liderança?

Cuidado, porém: "Para tornar a nossa voz reconhecível", seja por aqueles que estão na fé católica, quanto por aqueles que são estranhos a ela, "é preciso também – diz Francisco – dispor-se a caminhar no meio e atrás do rebanho" para "ouvir o silencioso relato de quem sofre e para apoiar o passo daqueles que temem que não irão conseguir". Não somente guiar, portanto, mas também compartilhar, para ser capaz de "reerguer, tranquilizar, infundir esperança".

A circunstância do discurso era a de uma profissão de fé realizada de forma coletiva com os bispos e, portanto, centrada na relação com Deus. O Papa Francisco, porém, desenvolveu o tema detendo-se sobre a relação com o próximo, apontando, mais do que para a perfeição da doutrina, para o valor do testemunho.

A Igreja é crível se há coerência entre o que ela diz e o que ela faz. E é aí que se sente a brecha que existe entre uma fé cristã suposta e certificada de uma vez por todas e a avaliação cotidiana das atitudes e dos comportamentos como medida de julgamento e autenticidade. Para aqueles que estão acostumados – há gerações, para não dizer ab aeterno – às fórmulas jurídico-teológicas que permeiam grande parte do magistério, um papa que fala de Evangelho pode até ser um problema.

O projeto de Igreja de Jorge Bergoglio está recém-esboçado, mas, a partir dos primeiros sinais, captam-se o seu porte e as suas implicações. O da linguagem é apenas um corolário da ideia de "Igreja pobre para os pobres", que já se lê em mil títulos, mas que uma sequência faz com que seja melhor do que outras: um homem vestido de branco, precedido por uma cruz, que, a pé, atravessa de a nave de São Pedro e sobre ao altar da Confissão, sem um aplauso, sem um "viva o papa". Sedes gestatórias, incensos e flabelos permanecem guardados. E palavras sem ornamentos que expressam perguntas: "Quem somos, irmãos, diante de Deus? Quais são as nossas provas? O que Deus está nos dizendo através delas? Sobre o que estamos nos apoiando para superá-las?".

E respostas não automáticas, mas a serem encontradas juntos, "clero e povo", diria Rosmini. Onde o povo é recurso de boa vontade.

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