Por: Jonas | 22 Mai 2013
A ex-presidente Michelle Bachelet tem contado com uma agenda lotada desde que chegou ao Chile, no dia 27 de março, após 30 meses em Nova York. Anunciou sua candidatura ao Palácio La Moneda, instalou seu comando numa mansão reformada, num bairro da moda, na capital, apresentou sua equipe de campanha, foi aclamada pelos socialistas e pelo Partido Pela Democracia (PPD), e praticamente todos os dias têm atividades, tanto em Santiago, como em outras regiões do país, onde tem buscado se mostrar próxima dos cidadãos e distante dos desprestigiados partidos de centro-esquerda.
A reportagem é de Rocío Montes, publicada no jornal El País, 20-05-2013. A tradução é do Cepat.
No entanto, a médica mantém um assunto crucial na lista de pendências, a um mês da prévias da oposição, no dia 30 de junho: anunciar aos cidadãos a profundidade e o alcance das reformas que pretende realizar, caso chegue ao La Moneda, como tudo parece indicar, segundo as pesquisas.
A ex-diretora executiva da ONU Mulheres, no mesmo discurso em que anunciou sua candidatura no dia 28 de março, fez um diagnóstico das transformações sofridas no país em sua ausência e prometeu grandes reformas para combater a desigualdade. De imediato, Bachelet começou a apresentar as equipes de trabalho que em diferentes áreas, como educação, reforma tributária ou a Constituição, deverão apresentar, em breve, suas conclusões. Reservadamente, um de seus assessores explica: “Ela deu apenas os titulares e o resto ainda está pendente...”.
Contudo, mesmo em seu círculo próximo, que peleja entre a discrição e o sigilo, não está claro quão radicais serão os anúncios. Há aqueles que asseguram que chegou ao Chile para realizar mudanças de fundo que surpreenderão, inclusive, ao establishment da Concertación, o conglomerado de partidos com o qual governou entre 2006 e 2010. No entanto, em particular, outros informam que ela continuará no caminho do reformismo dos últimos vinte anos, e que a “esquerdização” que demonstrou nesta primeira etapa, onde se abriu para o debate sobre o consumo da maconha e os direitos dos homossexuais, acabará depois das prévias.
A tensão está instalada em sua própria equipe de campanha e ficou refletida em um episódio que ocorreu no final de abril. Na ausência de Bachelet, uma das principais disputas da centro-esquerda foi sobre a necessidade de convocar uma Assembleia Constituinte para mudar a Constituição de 1980, de Pinochet. A proposta, que ergueu o movimento estudantil, seduz parte da Concertación e produz repulsa em outras figuras. Há algumas semanas, um dos especialistas da direção, Fernando Atria, apontou que “o problema constitucional terá que see resolvido por bem ou por mal”. O coordenador do grupo, Francisco Zúñiga, incomodou-se com estas ponderações, assim como boa parte da fração moderada da centro-esquerda chilena, principalmente, aportada na Democracia Cristã. Um setor do conglomerado pensa que este mecanismo acaba concentrando o poder em líderes populistas, como ocorreu na Venezuela.
No plano educacional aconteceu algo parecido: a candidata anunciou que sua prioridade, caso volte ao La Moneda, será a educação gratuita em todos os seus níveis. Uma semana depois, no entanto, disse que seria regressivo se aqueles que podem pagar, não ajam assim. “Pessoalmente, acredito que eu posso pagar a universidade de minha filha”, colocou como exemplo. A ex-presidente, cinco dias mais tarde, voltou ao plano original, aplaudida pelos setores mais progressistas, e disse que avançará na gratuidade universal para todos os estudantes.
No plano tributário também não está claro até onde Bachelet chegará, especialmente, considerando a queda do preço do cobre chileno e que o ritmo de crescimento da América Latina decairá, nos próximos anos, em razão da desaceleração da China. O chefe econômico de sua candidatura, o economista Alberto Arenas, deu sinais de tranquilidade ao mercado, no início de abril, e assinalou que “é possível combater a desigualdade e manter o crescimento econômico”. Na sexta-feira passada, numa conversa com empresários, disse que as medidas que estão sendo preparadas estimularão a economia e o investimento e esclareceu que é preciso acabar com o mito de que a reforma tributária reduz o investimento.
Porém, quando à esquerda Bachelet regressou? Terá a força e o respaldo político para acabar com as desigualdades e os abusos do modelo capitalista, que explodiram o conflito social em 2011? Até agora ninguém sabe, e a candidata, que não concedeu entrevistas a nenhum jornal nacional, nem internacional, deu poucas pistas. Um assessor, no entanto, aponta um fato chave: “Bachelet não é a mesma que chegou a La Moneda, em 2006, nem a que partiu do Chile, em setembro de 2012, para liderar a ONU Mulheres. Neste momento, goza de uma autonomia total que exerce e faz saber”.
O ocorrido no início do mês, motivado pelas prévias parlamentares que ocorrerão, assim como as presidenciais, no dia 17 de novembro, revela algumas mudanças de Bachelet. Soltou a mão de seu principal escudeiro, o senador socialista Camilo Escalona, por desobedecer-lhe e não querer disputar as prévias com um companheiro de partido.
O episódio Escalona, engrenagem política chave em seu primeiro governo, faz pensar nos problemas que Bachelet poderia enfrentar, com seus partidos, num eventual segundo turno – como já ocorreu em sua primeira Administração – e se conseguirá realizar seu programa – que ainda é desconhecido – se a oposição não conquistar maioria no Parlamento. Até agora, a única coisa que parece clara é que a médica socialista continua em vantagem, inclusive, nas pesquisas menos otimistas. De acordo com um estudo publicado pelo jornal Pulso, do dia 10 de maio, Bachelet baixou de 73,7% para 56,6%, desde sua chegada ao Chile.